Ouro é a melhor aplicação na montanha-russa do mercado financeiro em 2020

Num ano marcado pelo imprevisível de uma pandemia, real vive sob pressão e Bolsa termina com recorde

São Paulo

O mercado financeiro foi palco do inacreditável em 2020. Enquanto a Bolsa foi do ápice ao fundo do poço, para depois emergir novamente, o real atravessou o ano pressionado e o dólar chegou a máximas nominais históricas. No entanto, atestando que a incerteza ainda é marca do momento com a pandemia do novo coronavírus, o melhor investimento do ano, por fim, foi o ouro.

No Brasil, o ouro se valorizou 56% no ano, a R$ 316,00 o grama, segundo dados da CMA.

Porém, ele também refletiu as instabilidades do ano. Ao final de fevereiro, quando a pandemia se espalhou pelo ocidente, até o metal sofreu, caindo para o patamar de US$ 1.500 por onça-troy.

barra de ouro
Ouro subiu quase 60% em 2020 - BBC/GSO Images

O movimento mostrou-se como apenas um soluço e o metal voltou a se valorizar à medida em que os investidores buscavam segurança no cenário incerto. Pela primeira vez na história, a partir de agosto, a onça superou os US$ 2 mil.

Todos os investimentos atrelados ao metal entraram no radar dos investidores, inclusive o metal em si. Em Genebra, os relatos em outubro eram que os mais ricos já compravam barras de ouro, algumas vezes por tonelada, transferindo ativos para fora do sistema financeiro. O banco suíço UBS na ocasião recomendava aos maiores clientes que deixassem entre 7% a 10% dos investimentos em metais preciosos como ouro.

A previsão é que o metal vai se manter como um porto seguro em 2021. Em relatório ao mercado na segunda quinzena de dezembro, Credit Suisse fez uma revisão na projeção da cotação. Reduziu o valor, antes em US$ 2.500, para US$ 2.100. Ou seja, a perspectiva é que a alta histórica fique por mais um tempo.

Por outro lado, a poupança e investimentos atrelados ao DI, que segue a Selic, patinaram. O DI, actualmente a 1,90% ao ano, acumulou alta de cerca de 2,74%. A poupança nova, que rende 70% da Selic, acumulou rentabilidade de 2,11%.

Ambos ficaram abaixo da inflação no ano. O IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) encerrou 2020 com alta de 23,14% nem 2020 e a previsão do mercado é que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), inflação oficial do país, tenha alta de 4,39% no período.

Já a poupança que segue a regra velha —depósitos realizados até o dia 3 de maio de 2012— rendeu 6,17%. Por lei, este investimento rende 0,5% ao mês.

Dólar sobe quase 30% no ano e toca os R$ 6

O dólar encerrou o ano cotado a R$ 5,1890, alta de 0,15% no pregão desta quarta. A cotação subiu 29,27% em relação aos R$ 4,014 ao fim de 2019.

O dólar turismo encerrou 2020 a R$ 5,337. O euro acompanhou o movimento da moeda americana e subiu 41% ante o real, a R$ 6,39.

Em 2020, o dólar chegou ao recorde nominal (sem contar a inflação) de R$ 5,9040 em 13 de maio, e muitos investidores apostaram que superaria os R$ 6.

O pico foi resultado da tensão política no Brasil, com a saída do ex-ministro da Justiça Sergio Moro do governo de Jair Bolsonaro, que agravou o cenário de aversão a risco em torno da pandemia e do déficit fiscal.

Os ministros da Saúde, Henrique Mandetta e Nelson Teich, e da Educação, Abraham Weintraub, também deixaram o governo. Na equipe econômica, saíram Salim Mattar e Mansueto Almeida.

Com as baixas e a estagnação na pauta econômica, o mercado viu o ministro Paulo Guedes (Economia) se enfraquecer e dúvidas sobre sua permanência no cargo deixaram de fazer preço.

Durante boa parte do ano, o real foi a moeda com a maior desvalorização, devido ao risco fiscal brasileiro em um cenário de juros baixos.

Com a Selic a 2%, dólares deixam o país pelo carry trade, prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior.

Por estar muito desvalorizada, investidores viram uma boa oportunidade de ganho no real, e voltaram a apostar na divisa brasileira.

Ibovespa fecha com retorno 2,92% no ano

No mercado de ações, o investidor teve muita emoção. Depois de um recorde de 119,5 mil pontos em janeiro, vieram, em março, a pandemia e seis circuit breakers –como se chama a interrupção das negociações na Bolsa de Valores quando a queda do principal índice acionário do país, o Ibovespa, supera 10%. Naquele momento, o mercado brasileiro mergulhou e apresentou o pior desempenho em dólares do mundo.

De lá para cá, porém, veio a reviravolta. Em 15 de dezembro, os prejuízos do ano foram zerados. Nesta quarta-feira (30), último pregão do ano, a Bolsa fecha 2020 com alta de 2,92%, 119.017,24 pontos. No pregão desta quarta-feira (30) teve queda de 0,32% .

Durante a última sessão do ano, o Ibovespa bateu a marca histórica de 120 mil pontos e estabeleceu um novo recorde intradiário.

O recorde, porém, é nominal. A máxima histórica corrigida pela inflação é de 2008, quando o índice bateu 73.438 pontos. Para superá-la, o Ibovespa precisaria estar valendo mais de 130 mil pontos. Segundo as estimativas do mercado, este patamar deve ser alcançado em 2021.

No meio da inesperada combinação de crises sanitária e econômica de 2020, fatores inéditos contribuíram para a rápida recuperação das ações: juros próximos de zero nas principais economias globais e no Brasil, injeção recorde de capital, via caixa público, para socorrer empresas com dívidas no mercado e cidadãos com benefícios assistenciais, tudo isso acompanhado de uma entrada consistente de novos investidores na Bolsa.

Com a nova dinâmica, investidores foram às compras e promoveram seis meses de altas expressivas no ano (abril, maio, junho, julho, novembro e dezembro), que fizeram frente ao pior trimestre da história da Bolsa no começo do ano.

De janeiro a março, o Ibovespa despencou 36,85% e foi a 63 mil pontos, menor patamar desde 2017.

Desde o vale, a 63,5 mil pontos, em 23 de março, o Ibovespa subiu 87,22% até esta quarta.

De abril a julho foram quatro altas mensais consecutivas, acumulando ganho de 40,9%.

“Foi um ano surpreendente. Mercado praticamente deixou eleições de lado e se pautou pelo coronavírus. A nossa Bolsa teve a queda mais rápida e o retorno mais rápido da história”, diz Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear.

Entre as empresas que mais se valorizaram no ano estão as ligadas ao minério de ferro, que bateu recorde em dezembro, aos US$ 168 por tonelada. Os preços da matéria-prima mais que dobraram em 2020 e ela caminha para ser a commodity com melhor desempenho dentre as principais negociadas no mercado global, pelo segundo ano consecutivo.

No ano, a CSN acumulou alta de 126% e foi a empresa que mais se valorizou no Ibovespa. Além do minério, a empresa se beneficia da recuperação dos preços de aço no Brasil e da expectativa do mercado pelo IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) de sua unidade de mineração, previsto para janeiro.

Segundo análise do Itaú BBA, a CSN Mineração pode ser avaliada em R$ 30 bilhões na operação, que ajudaria a CSN a reduzir seu endividamento.

A Vale teve a sexta maior alta, com ganhos de 64%. Bradespar, um dos maiores acionistas da mineradora, teve a quinta maior alta, com valorização de 66,4%.

A Usiminas veio logo atrás, com alta de 52,6%.

A segunda maior alta foi da Weg, que se beneficiou da alta do dólar no ano, com aumento de exportações para a China, saltando 118,5%. Em terceiro lugar, a Magazine Luiza teve alta de 109% com a expansão do ecommerce no país durante a pandemia.

Em seguida, a PetroRio teve valorização de 112%, com a recuperação dos preços do petróleo e aquisições de novos poços. Segundo analistas, a empresa se destaca por ter um custo de produção mais barato que as concorrentes.

Neste ano, o petróleo chegou a ser cotado em preços negativos pela primeira vez na história.

Em abril, o contrato futuro de maio do barril de petróleo WTI (West Texas Intermediate), referência nos Estados Unidos, derreteu um dia antes do seu vencimento.

Na Bolsa de Chicago, a cotação caiu 289,4%, fechando o pregão a menos US$ 37,63 (R$ 195,26) o barril. Isso significa, na prática, que os investidores pagaram para se livrar da obrigação de receber os barris ao fim do vencimento

Na época, havia um grande desequilíbrio entre a oferta e a expectativa de demanda global. Com cortes nas produções e retomadas das economias, os preços se recuperaram e estão acima de US$ 50.

Apesar do cenário econômico desafiador, a maior queda do Ibovespa reflete problemas internos de um a companhia. O IRB se desvalorizou 77% no ano com um escândalo de governança.

Após questionamentos da gestora Squadra sobre práticas contábeis da companhia, executivos do alto escalão foram demitidos e a companhia .

No meio tempo, a gestão do IRB informou investidores erroneamente que a empresa de investimentos do bilionário Warren Buffett, Berkshire Hathaway, teria comprado ações da resseguradora, o que foi negado pela própria Berkshire.

As falhas geraram uma investigação especial pela Susep (Superintendência de Seguros Privados) e oito processos na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

Após revisão contábil, o balanço de 2019 do IRB mostrou lucro líquido de R$ 1,2 bilhão, ante número inicial de R$ 1,76 bilhão.

“O IRB pegou todo mercado desprevenido, com péssimas práticas de governança, o que o mercado não perdoa. Estrangeiros tinham participação na empresa, o que ajudou a arranhar nossa imagem como Brasil”, diz Paulo Battistella Bueno, sócio da Santa Fé

Logo atrás vem o grupo de educação Cogna (ex-Kroton), com queda de 59%. A sua subsidiária Vasta, que abriu capital na Nasdaq neste ano, enfrenta questionamentos de investidores que acreditam que a companhia omitiu informações relevantes no seu prospecto para a abertura de capital, sendo surpreendidos por uma queda na receita da companhia. Além disso, nos segundo e terceiro trimestres, a Cogna reportou prejuízos.

Além da pandemia reduzir a demanda por novos aviões e elevar os custos em dólar, a Embraer teve uma reviravolta em sua venda para a Boeing. A fabricante americana desistiu inesperadamente às vésperas do negócio, gerando um embate entre as companhias. No ano, as ações da Embraer caíram 55%, a terceira pior queda.

Com a pandemia, a trajetória de desvalorização da Cielo se intensificou. A companhia de pagamentos enfrenta uma crescente concorrência e tem perdido espaço no mercado, com resultados que decepcionaram investidores. A empresa caiu 52% no ano.

A suspensão de entrada de estrangeiros em diversos países, lockdown e o receio de contaminação levaram a uma brusca queda no número de viagens, especialmente de turismo. No ano, a CVC se desvalorizou 51%. A empresa também enfrentou problemas contábeis, ao identificar falhas no balanço de 2019.

Ao final de um período de afastamento, os estrangeiros voltaram à Bolsa brasileira nos últimos três meses do ano, com saldo positivo de R$ 54 bilhões, sem contar IPOs e follow-ons (oferta subsequente de ações).

No ano, há saída líquida de R$ 33,8 bilhões, até 28 de dezembro. Menos do que os R$ 44,5 bilhões do ano passado.

Contando IPOs e follow-ons, a saída de estrangeiros da B3 em 2020 cai para R$ 14,2 bilhões.

Neste ano, foram 28 IPOs que somaram R$ 43,5 bilhões em volume, segundo levantamento da Santa Fé Investimentos. Follow-ons movimentaram R$ 73,9 bilhões em 25 operações.

Além da recuperação das commodities, contribuíram para a recuperação da Bolsa a taxa básica de juros na mínima histórica e a compra de ações por investidores pessoas físicas. São mais de 3 milhões de CPFs na B3, recorde histórico.

“Mesmo com um aumento da Selic para 3%, o fluxo para Bolsa e pra emergentes vai continuar”, diz o analista da casa, Igor Cavaca

A taxa básica de juros brasileira caiu de 4,5% para 2% neste ano.

“O fiscal é o que impede movimentos mais expressivos e otimismo mais alto”, afirma Cavaca.

O mercado, porém, espera que as reformas avancem em 2021.

Com a crise de coronavírus e crescente déficit fiscal brasileiro, os juros futuros e o risco país tiveram fortes oscilações no ano. Ambos medem a confiança dos investidores no Brasil e na sua capacidade de honrar dívidas.

Em março, o CDS de cinco anos, conhecido como risco-país chegou a 382,7, maior nível desde abril de 2016, quando o impeachment de Dilma Rousseff (PT) tomava corpo no Congresso.

O CDS funciona como um termômetro informal da confiança dos investidores em relação a economias, especialmente as emergentes. Se o indicador sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país, se ele cai, o recado é o inverso: sinaliza aumento da confiança em relação à capacidade de o país saldar suas dívidas.

Em fevereiro de 2020, porém, o CDS estava 92,3 pontos em fevereiro, menor valor desde 2010. Nesta quarta, ele fechou a 143,87 pontos, com uma de 44% no ano.

Já os juros até 2028 ficaram mais baratos neste ano, com a queda da Selic. A partir de 2030, eles ficaram mais caros. Ou seja, o mercado espera uma elevação nos juros no longo prazo e uma piora no cenário fiscal, cobrando mais caro em contratos mais longos.

O juro para janeiro de 2025 foi de 6,43% ao fim de 2019 para 5,65% nesta quarta, chegando a 8,7% em março deste ano. Já o juro para janeiro de 2035 foi de 7,01% para 7,53%.

“O cenário fiscal é muito desafiador e consequentemente, a alta da Bolsa talvez esteja muito exagerada. O dólar a R$ 5 é piso com o cenário econômico que temos”,diz Alexandre Espírito Santo, economista da Órama.

No exterior, os principais índices acionários também bateram recordes. Nesta quarta, o índice americano Dow Jones renovou sua máxima histórica aos 30.409,56 pontos, alta de 0,24% no pregão e de 6,84% no ano.

Já o S&P 500 subiu 15,86% no ano e bateu recorde histórico na segunda (28), a 3.735 pontos. Nesta quarta, o índice subiu 0,13%.

A maior alta foi da Bolsa de tecnologia Nasdaq, que subiu 43,86%, com máxima histórica também na segunda (28), a 12.899 pontos.

Na Europa, o índice Stoxx 600, que reúne as maiores empresas da região, se desvalorizou 3,83% no ano. Nesta quarta, teve queda de 0,34%.

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