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Economia em debate

Retomada dos serviços pode gerar alta da desigualdade e inflação

Desemprego pressiona salários para baixo, enquanto volta do consumo dos mais ricos pode levar a um aumento de preços

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Thiago de Moraes Moreira

Consultor em planejamento estratégico e professor do Conselho Regional de Economia (Corecon-RJ) e do Ibmec-RJ

O difícil ano 2020 trouxe alguns aprendizados importantes no campo econômico. Um deles está na demonstração do poder que uma política pública robusta de transferência de renda aos mais pobres tem de estimular o crescimento.

Não fosse este programa, que em meio a uma forte recessão conseguiu a proeza de reduzir os indicadores de pobreza, a retração do PIB brasileiro em 2020 ficaria bem mais próxima dos dois dígitos.

O estímulo à atividade econômica se deu fundamentalmente por meio de incentivos ao consumo, em particular dos bens não duráveis. A recuperação da indústria e do comércio foi de tal ordem que os indicadores não apenas recuperaram o nível pré-pandemia, como também superaram os níveis verificados em 2019.

Contudo, da mesma forma que o auxílio foi efetivo na “subida”, a retirada do mesmo também deve ser na “descida”. O choque negativo na renda, em particular na hipótese de não termos um novo programa social maior que o Bolsa Família, poderá frear de forma abrupta a recuperação industrial e do comércio.

No entanto, há curiosamente um importante setor que pode funcionar como “amortecedor”, qual seja: o setor de serviços. Embora os serviços sejam usualmente vistos como dependentes da renda, a pandemia trouxe novos insights para a análise deste importante setor.

Sem dúvida, os serviços foram os mais afetados pelas medidas restritivas de isolamento social e seguem uma trajetória de lenta recuperação, uma vez que a maior parte deles ainda operam com capacidade limitada.

Os dados dos orçamentos familiares do IBGE desagregados por faixas de renda revelam que as classes de menor renda são menos importantes para a dinâmica dos serviços. Já no orçamento das famílias de renda mais elevada, a participação dos serviços nos gastos é muito mais significativa.

Domicílios com renda mensal familiar acima de R$ 23.850, ainda que correspondam a 2,5% dos domicílios brasileiros, são responsáveis por 19,5% dos gastos totais do país em serviços, enquanto aqueles com renda mensal de até R$1.908 (25% do total de domicílios) respondem por apenas 4,8% destes mesmos gastos.

A boa notícia é que a pandemia provocou um “represamento” de gastos em serviços dos mais ricos, que quando “liberados” representarão novos estímulos ao consumo destinado a atividades que somadas representam 52% do PIB brasileiro.

Vale lembrar que a viabilidade deste “amortecedor” depende do controle da pandemia. Caso a vacina já esteja disponível até o meio do ano, os estímulos poderão ser ainda mais expressivos em 2021.

A má notícia é que os serviços, embora possam amortecer, não funcionam como “molas propulsoras”. A demanda pelos serviços tem baixo poder de impulsionar os demais setores econômicos. Os efeitos propulsores se concentram na atividade industrial. Em outras palavras, os serviços não conseguirão liderar uma trajetória expansiva.

Além disso, é necessário fazer alguns alertas para essa possível configuração setorial. Em um contexto de elevado nível de desemprego e necessidade de geração de caixa pelas empresas prestadoras de serviços depois de um ano de dificuldades financeiras, é possível que tenhamos uma combinação de aumento da desigualdade e aceleração inflacionária.

Com a esperada escalada do desemprego, associada ao congelamento do salário mínimo, os salários oferecidos pelas empresas podem sofrer cortes significativos, o que pode não apenas reverter a redução dos índices de pobreza, mas também aprofundar as colossais desigualdades sociais.

Além disso, o esperado aumento na disposição das famílias mais ricas ao gasto com serviços poderá ser visto como oportunidade para as empresas reajustarem seus preços. Este movimento pode originar focos inflacionários que, por sua vez, devem ser respondidos como elevação dos juros, o que prejudicará ainda mais o desempenho da indústria e do comércio.

Enfim, em um cenário de controle da pandemia o desempenho em 2021 poderá surpreender, mas terá fôlego curto e poderá desencadear consequências negativas para os períodos subsequentes.

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