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Investimento em startups bate recordes e venture capital se consolida como opção

Aportes crescem em particular nos estágios iniciais de captação

São Paulo

Apesar da crise, startups receberam aportes recordes de investimento venture capital em 2020, em particular, nos estágios iniciais de maturação das empresas. Os números apontam para o crescimento da importância desse tipo de investimento para o ambiente de inovação no Brasil —um caminho já traçado por outros países.

Ao todo, foram captados US$ 3,5 bilhões no ano passado, de acordo com levantamento feito pela Distrito Dataminer. O valor representa 17% a mais que os US$ 2,97 bilhões de 2019. Em número de rodadas, foram 469, ante 408 feitas em 2020.

Especialistas e empreendedores atribuem o crescimento do venture capital aos juros baixos, que atraem novos investidores, e à aceleração de processos de digitalização devido à pandemia, que acabaram beneficiando startups que oferecem serviços virtuais.

"Anos de crise são sempre ótimos nesse sentido, porque muita coisa muda e abrem muitas janelas para empreendedores criativos resolverem problemas. O Airbnb, por exemplo, nasceu na crise de 2008", diz Renato Valente, da Iporanga, gestora focada em investimentos de estágios iniciais.

Renato Valente, da Iporanga, gestora focada em investimentos de estágios iniciais
Renato Valente, da Iporanga, gestora focada em investimentos de estágios iniciais - Divulgação

A Iporanga apostou na Loggi quando a startup era ainda um "projeto em um PowerPoint", e na Quero Educação, hoje dois gigantes em suas respectivas áreas. O fundo tem R$ 500 milhões sob gestão em cerca de 40 startups dos mais diversos setores. Em 2020 a gestora realizou dez aportes.

Segundo Valente, a Iporanga não nasceu como fundo de venture capital, mas mudou seu foco de atuação depois de perceber um boom no setor há alguns anos.

"Antes você levantava o primeiro investimento, e não sabia se receberia o segundo ou o terceiro, porque não havia fundos voltados para aquele momento da empresa. Hoje vemos que o mercado é muito mais maduro, com o ciclo de investimentos clássico difundido, investidores especializados em cada etapa", diz.

Ele cita como exemplo empresas hoje consolidadas, como o Mercado Livre, que também começaram recorrendo ao venture capital. "É para onde o mundo vai. O venture capital veio para ficar, e mercado com ciclo completo", diz.

Entre as investidas mais recentes da empresa, está a Fluke, uma operadora digital de telefonia móvel que começou a operar em março do ano passado.

"Esses aportes feitos no começo servem para garantir que os fundadores estejam focados na operação. Depois usamos para trazer mais gente para a equipe e trabalhar na expansão, melhorias e produtos", explica Marcos Antônio Oliveira Jr., presidente-executivo da startup.

"Essa modalidade de investimento é muito pró-empreendedor. Nos meios tradicionais de financiamento você precisa se virar para ter resultado, mas quando trabalha com anjos, eles estão dispostos a compartilhar os riscos contigo e vão trabalhar para que o negócio avance e evolua", diz.

"É um fenômeno mundial, achei que teríamos um atraso muito grande, mas em certos aspectos, como qualidade de empreendedores, dá para dizer com segurança que não deixamos a desejar", diz Dan Yamamura, da Fuse, gestora de venture capital fundada no Rio em 2019 e que funciona de forma híbrida.

Parte dos US$ 25 milhões que a Fuse pretende captar será destinado para participação em startups, outros 30% para o que o que é chamado venture dept, espécie de crédito para as empresas de inovação que ainda não estão recebendo aporte.

Marcos Antônio Oliveira Jr., presidente-executivo e um dos fundadores da Fluke
Marcos Antônio Oliveira Jr., presidente-executivo e um dos fundadores da Fluke - Divulgação

Assim como a Iporanga, a gestora carioca é voltada para startups jovens. Segundo o levantamento da Distrito, as primeiras etapas de investimento concentram o maior número de rodadas. Só nos estágios anjo, pré-seed e seed foram feitos 352 aportes em 2020, 36% a mais que os 259 do ano passado.

Yamamura chama atenção para o fato de que embora o total de investidas seja maior nessas fases, os valores dos cheques são consideravelmente menores do que em rodadas de investimentos mais avançadas.

Em 2020, foram depositados ao todo US$ 192 milhões no início das jornadas das startups. A título de comparação, a única captação feita em 2020 em uma rodada de investimento série G, quando a empresa já está mais madura, chegou a US$ 300 milhões. No caso, feita pela fintech Neon em uma rodada liderada pela General Atlantic em setembro.

Isso acontece principalmente porque empresas novas têm mais dificuldade de arranjar financiamentos tradicionais, de forma que o venture capital surge como alternativa importante para elas. Em contrapartida, pelo fato de o risco ser maior, os tickets são pequenos. Tanto que fundos voltados para esses estágios, como é o caso da Fuse, tendem a acompanhar as startups, oferecendo mentorias e contatos.

"Hoje a gente percebe que nesse mercado muitas vezes o dinheiro não é o ativo mais importante, mas sim você efetivamente contribuir com o conhecimento do empreendedor", diz Yamamura.

Entre áreas potenciais no Brasil, investidores destacam startups de software como serviço, fintechs e agritechs, segundo eles ainda incipientes, mas que têm muito espaço para inovar e crescer.

Já entre os gargalos, citam a escassez de mão de obra especializada, e questões regulatórias -algumas das quais esperam ser resolvidas com a aprovação do Marco Legal das Startups, em tramitação no Congresso Nacional.

"Vemos um cenário brilhante para o empreendedorismo e gestoras de venture capital. Há muito espaço para a indústria, para investidores aprenderem a tomar risco e investir a longo prazo", conclui Yamamura.

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