Piora na pandemia prejudica retomada do setor de serviços

Mutações no coronavírus, com risco de novos isolamentos, e fim do auxílio emergencial traçam cenário mais difícil

Rio de Janeiro e São Paulo

O aumento nos novos casos de Covid-19 e a presença de uma nova e mais contagiosa variante do vírus no Brasil devem impactar a retomada do setor de serviços, que responde por cerca de 70% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

Segundo analistas do mercado, o início da vacinação no Brasil nesta semana não muda as perspectivas negativas para o setor e há o receio de que neste ano a pandemia seja pior do que em 2020.

Segundo o presidente do Instituto do Butantan, Dimas Covas, o quadro pode piorar caso não sejam empregadas medidas para reduzir os casos e aumente a compra de vacinas o quanto antes.

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Com a flexibilização da quarentena, restaurantes voltaram a abrir seus salões para consumo local - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Em live fechada da XP na manhã desta terça (19), Covas também disse ver como inevitável a mudança para a bandeira vermelha em São Paulo, que tem medidas mais drásticas de isolamento social.

“O mercado ajustou a conta. Estamos em compasso de espera. Retomada do varejo não vai acontecer agora e a Bolsa ainda não reflete a alta nos casos", diz Fabio Galdino, diretor de fundos imobiliários da Vero Investimentos.

“As pessoas evitaram fazer consumo e prestação de serviços que possam ter contaminação, e agora essa piora dos casos deve impactar os segmentos que mostraram dificuldade para voltarem ao patamar anterior”, afirma Rodolpho Tobler, professor da FGV.

Além disso, o fim do auxílio emergencial deve deixar ao menos 40 milhões de pessoas desamparadas. Segundo a Caixa Econômica, 67,9 milhões de pessoas receberam o benefício em 2020 —dessas, 19,2 milhões estão inscritos no Bolsa Família.

"A indústria vem no seu ritmo de recuperação forte, o agronegócio tem vida própria, mas serviços depende muito da redução do isolamento social. E agora estamos vendo em alguns lugares uma certa retomada em medidas de isolamento”, diz Écio Costa, professor da UFPE.

Ele classifica a perspectiva para a economia no segundo trimestre como preocupante, especialmente sem vacinação massiva como contraponto à retirada do auxílio e estímulos econômicos no Brasil.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o setor de serviços cresceu 2,6% em novembro, a sexta alta seguida, mas ainda insuficiente para cobrir as perdas da pandemia.

Atividades ligadas a serviços são as mais afetadas pelas medidas de isolamento social. O volume de vendas do setor ainda está 3,2% abaixo do registrado em fevereiro, antes da chegada da Covid-19 ao Brasil.

Os mais afetados são serviços prestados às famílias e atividades turísticas, alojamento, alimentação fora de casa, serviços pessoais e transportes aéreos. O segmento de serviços administrativos está 13,5% distante do pré-pandemia.

“Já esperávamos um recrudescimento da pandemia nesta virada de ano, especialmente pelas festas. A nova linhagem deixa a situação mais preocupante e é algo que pode afetar nossa retomada”, diz João Leal, economista da Rio Bravo Investimentos.

Em dezembro, o setor de serviços teve aceleração do crescimento e melhora da confiança, diante da perspectiva de vacinas contra a Covid-19, segundo dados do PMI (Índice de Gerentes de Compras, na sigla em inglês) divulgados no dia 6 pelo IHS Markit.

O PMI encerrou 2020 a 51,1 pontos, de 50,9 em novembro —a marca de 50 separa crescimento de contração.

Os participantes da pesquisa também associaram o crescimento maior à reabertura de alguns estabelecimentos e condições melhores de demanda.

Em dezembro, as novas encomendas aumentaram pelo quinto mês seguido, com a taxa de expansão acelerando em relação a novembro.

No entanto, o número de empregos caiu no setor naquele mês, depois de aumentar em novembro pela primeira vez em nove meses. Os entrevistados citaram esforços para reduzir gastos e aumento nos casos de Covid-19.

"Embora os dados deem alguma garantia bem-vinda de que a economia de serviços continua a mostrar resiliência na pandemia, a sustentabilidade da recuperação fica em dúvida quando se olha para os dados de emprego", afirma Pollyanna De Lima, diretora econômica da IHS Markit.

"O aumento das infecções antes que as vacinas se tornem amplamente disponíveis pode causar novas restrições e abreviar a recuperação", completou.

Nesse cenário, as ações ligadas a serviços apresentam quedas na Bolsa de Valores brasileira em 2021, especialmente com novos lockdowns em países como Inglaterra , Escócia e Alemanha.

No pregão após o feriado de Natal, em 28 de dezembro, até esta terça (19), a Multiplan, dona de 19 shoppings centers, acumula queda de 12,65%, a terceira maior desvalorização do Ibovespa no período. Iguatemi cai 7,93% e BR Malls, 7,80%

A segunda maior queda do Ibovespa é da Via Varejo, com recuo de 13,68%. Enquanto isso, o índice sobe 1,27%.

Já as açõs da Gol acumulam queda de 4,16% e as da Azul, de 0,47%. Os papéis da CVC sobem 0,96%.

“Podemos esperar atividade econômica do primeiro trimestre bem fraca com piora da pandemia e fim do auxílio. Sem direcionamento claro sobre vacina, ficamos no limbo”, diz Leal.

Segundo Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos, as ações do setor também sofrem pela alta no preço das matérias primas, que levou investidores a preferirem ações de commodities, como Petrobras e Vale.

“Todas as companhias com maior exposição no doméstico estão sofrendo, principalmente pela maior exposição que os fundos têm tomado em relação às commodities”, diz Esteter.

(Com Reuters)

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