Descrição de chapéu The New York Times

Como vencer no mercado de ações sendo preguiçoso

Não há necessidade de incendiar o sistema para ter retorno; basta seguir uma abordagem simples, e ter um pouco de paciência

Neil Irwin
Nova York | The New York Times

Muitas partes do caso GameStop –as ferozes oscilações, nas duas últimas semanas, nos preços das ações cadeia de varejo de videogames e de aguns papéis desfavorecidos– não são exatamente novidade.

Muitos antes do Reddit, os fóruns do Yahoo no final da década de 1990 democratizaram a expressão de opiniões fortes sobre ações (mas na época elas não eram chamadas de “stonks”).

Esquemas de venda a descoberto e de manipulação do mercado eram manobras conhecidas muito antes da infância cobiçosa de Randolph e Mortimer Duke –os velhotes que manipulam títulos como vilões do filme “Trocando as Bolas”, comédia de 1983.

O que vem sendo estranho de acompanhar, para quem passou a vida batalhando a fim de economizar para a aposentadoria, lendo livros sobre finanças pessoais, avaliando estruturas de tarifas e as implicações tributárias dos diversos veículos de investimento, é a mistura de ira indignada e anarquismo jubiloso que propele o movimento todo. Muitos dos operadores que promoveram a mania da GameStop nos últimos dias querem enriquecer e, enquanto o fazem, derrubar o que veem como um sistema corrupto e distorcido.

Sim, existe cobiça e venalidade de sobra em Wall Street. Mas a realidade é que o mercado de ações também oferece um caminho para que pessoas comuns acumulem riqueza –e, na mais recente geração, em escala maior do que em qualquer momento do passado. Não há necessidade de incendiar o sistema. Basta seguir a mais preguiçosa e mais simples abordagem quanto a investir em ações que alguém pode imaginar, e ter um pouco de paciência.

Desde que a Vanguard criou seu fundo de investimento que acompanha o índice S&P 500, 45 anos atrás, os investidores comuns têm a capacidade de investir em índices amplos de ações de uma maneira eficiente em termos tributários, e com tarifas extremamente baixas. Qualquer zé mané nas ruas pode colocar seu dinheiro para trabalhar, e colher uma pequena porção dos lucros de centenas das maiores companhias do país, lideradas por alguns dos executivos mais brilhantes do planeta e por seus milhões de empregados. O investidor não precisa fazer praticamente coisa alguma!

Os retornos seriam fortes mesmo que o investidor fosse péssimo em termos de timing. Suponha que um investidor tivesse US$ 10 mil disponíveis em março de 2000, o pico da bolha da internet e um momento sobre o qual todos podemos concordar em que os preços das ações estavam sendo superestimados.

Mesmo investindo em um momento infeliz como aquele, quem tivesse aplicado seu dinheiro em um fundo que acompanha o índice S&P 500 e cobra tarifas baixas, e reinvestido os investimentos durante os últimos 20 anos, teria transformado os US$ 10 mil originais em quase US$ 28 mil, pelo final do mês passado – um retorno anual da ordem de 5%, considerada a inflação do período.

E estamos falando do pior mês em décadas para quem estivesse começando a investir. Um investidor que tivesse começado a investir em um mês médio, no período 1990-2019, teria um retorno anualizado de 9,8% até janeiro de 2021, considerada a inflação norte-americana. E isso simplesmente por ter a paciência de esperar sem nada fazer.

(Esses retornos teriam sido reduzidos em alguns centésimos de ponto percentual por tarifas de fundos mútuos e um pouco mais por impostos, se o dinheiro não estiver em uma conta que desfrute de vantagens tributárias.)

E as coisas ficam ainda melhores. A maioria das pessoas não recebe um bolo acumulado de dinheiro para investir, e sim investe gradualmente o dinheiro que consegue ir economizando.

Assim, suponha que o investidor tivesse começado a guardar US$ 100 por mês no começo do ano 2000 –uma vez mais, perto do pico da bolha– e continuasse a fazê-lo desde então, elevando sua poupança de forma a acompanhar a inflação e aplicando o dinheiro em um fundo do S&P 500, e reinvestindo os dividendos. Nos últimos 21 anos, ele teria aplicado cerca de US$ 32,5 mil, mas seu portfólio no final de janeiro teria valor superior a US$ 103 mil.

O investidor teria obtido um retorno anual da ordem de 10,5%, porque embora parte de suas economias tivesse sido investida em picos de mercado, a abordagem de investimento gradual mas constante que ele adotou também resultaria na compra de ações em períodos de depressão no mercado, como 2002 e 2009.

Até a década de 1970, uma estratégia como essa teria sido difícil de aplicar. Os modernos fundos de índices não existiam, até que John Bogle inventou o conceito, para a administradora de fundos Vanguard, em 1976. Os fundos mútuos do passado cobravam tarifas mais altas que os atuais. Comprar diferentes ações individuais teria acarretado comissões de corretagem altas, além disso, tornando praticamente impossível que pessoas com economias modestas investissem.

Outro fator é que as vantagens da abordagem de “comprar o índice” só vieram a ser bem compreendidas em décadas recentes. As pesquisas acadêmicas sobre finanças na segunda metade do século 20 fizeram uma série de constatações sobre a eficiência dos mercados que, somadas, implicam que a melhor estratégia de investimento em longo prazo, para a maioria das pessoas, é simplesmente colocar dinheiro no mercado como um todo, e minimizar as tarifas e impostos pagos. Os consultores de finanças pessoais e os comentaristas de mercado adotaram amplamente essa posição, com ajustes que dependem das preferências de cada investidor quanto a riscos, especialmente com o investimento de alguma porção do portfólio em títulos mais seguros.

O resultado: nas últimas décadas, seguir a sabedoria convencional sobre como investir se tornou possível mesmo para os pequenos investidores.

Se o mercado é manipulado, ele é manipulado de uma forma que permite que pessoas obtenham retorno substancial sobre seu dinheiro enquanto assistem televisão, jogam golfe ou cochilam, em lugar de terem de passar suas horas vasculhando fóruns de mensagem ou desenvolvendo teorias complicadas sobre como extrair vingança contra pérfidos fundos de hedge ou aprendendo qual é o gama de um contrato de opção.

Pense nas grandes empresas dos Estados Unidos –as centenas de companhias em que o investidor coloca seu dinheiro ao aplicá-lo em fundos de índices– como uma grande franquia esportiva.

Há pessoas que ganham dinheiro apostando em um time, ou contra ele. Elas podem se esforçar muito a fim de calcular as probabilidades corretas, e de vez em quando existe a possibilidade de ganhar muito, transformando uma pequena aposta em uma bonança. Os melhores nessa atividade –os grandes vencedores do mercado e apostas– sairão ganhando mais do que sairão perdendo, e talvez consigam ganhar a vida com essa atividade.

Mas o sistema no geral é um jogo de soma zero, ou seja, alguém precisa perder para que alguém possa ganhar, e a maioria das pessoas que apostam perderá dinheiro, depois de considerada a comissão das casas de aposta. Se o investidor decide tentar fazer fortuna apostando em esportes profissionais, é possível que conclua que o sistema está sendo manipulado em seu desfavor, porque em certo sentido ele está. Os vencedores constantes serão os apostadores altamente capacitados, que fazem o que fazem há muito tempo; e os cassinos, que ficam com uma parcela de cada aposta.

Nessa analogia, os recém-chegados que estão em busca de fortuna são como as pessoas que decidiram apostar nas ações da GameStop e papéis semelhantes, nos últimos meses. E há as pessoas que trabalham duro para fazer com que a equipe esportiva funcione: os executivos, treinadores e jogadores de um time. Eles dedicam horas a fazer da equipe um sucesso e, embora parte de sua remuneração possa estar vinculada ao sucesso da equipe, o grosso dela é em forma de pagamento por seu trabalho. Eles podem ser vistos como muito bem pagos, mas seus talentos são raros e eles precisam trabalhar realmente muito.

Eles são o equivalente dos executivos e dos empregados das companhias cujas ações são negociadas em bolsas de valores.

E há os proprietários passivos de uma equipe esportiva. Por exemplo, o dono de uma cota minoritária em um time que não precisa interferir nem mesmo na seleção e demissão de presidentes para a equipe.

Outras pessoas fazem todo o trabalho, na administração da franquia. Esses proprietários simplesmente desfrutam do benefício de um rendimento constante, ano após ano.

Não é uma atividade desprovida de riscos. A franquia pode contratar um jogador por preço alto demais, ou as vendas de ingressos podem desabar por conta de uma pandemia. Mas se os proprietários passivos forem pacientes, eles podem antecipar que seu investimento dê resultado, um dia. E isso continua a ser verdade mesmo que dediquem seu tempo a fazer outra coisa que não examinar os placares de seus times para avaliar apostas, ou planejar as jogadas que a equipe deve realizar.

Não existem garantias, na vida. Algumas pessoas que hoje estão negociando agressivamente as ações que geram memes presumivelmente sairão do processo com lucros significativos. Os fundos de índices não são capazes de gerar as recompensas grandes e instantâneas que os compradores de ações da GameStop evidentemente estão procurando. E as próximas décadas podem oferecer retornos mais baixos aos investidores do que décadas passadas.

Mas as recompensas extraordinárias de ser um investidor passivo no mercado de ações não são algo que seja possível ignorar. Se alguém lhe oferece um almoço grátis –uma expectativa razoável de bons retornos com esforço zero e risco apenas moderado–, faz sentido comer.

Tradução de Paulo Migliacci

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.