Seca em Taiwan opõe fabricantes de chips e agricultores

Ilha se esforça para para manter abastecimento de água na indústria de semicondutores; movimento impacta produção de arroz

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Hsinchu (Taiwan) | The New York Times

A modesta plantação de arroz de Chuang Cheng-deng fica bem perto do centro nervoso da indústria de chips para computadores de Taiwan, cujos produtos acionam grande proporção dos iPhones e outros aparelhos eletrônicos vendidos no planeta.

Este ano, Chuang está pagando o preço pela importância econômica de seus vizinhos do setor de alta tecnologia. Sofrendo uma seca e se esforçando por economizar água para o consumo doméstico e da indústria, Taiwan desligou os sistemas de irrigação que abastecem dezenas de milhares de hectares de terras agrícolas.

As autoridades estão compensando os agricultores pela receita perdida. Mas Chuang, 55, se preocupa com a possibilidade de que a safra perdida leve os compradores a buscar outros fornecedores, o que pode significar anos de faturamento reduzido.

“O governo está usando dinheiro para calar a boca dos agricultores”, ele disse, contemplando seus campos ressecados e marrons.

Tian Shou-shi caminha por um campo seco em sua fazenda em Hsinchu, Taiwan - An Rong Xu - 16.abr.21/The New York Times

As autoridades definem a seca deste ano como a pior que o país enfrenta em mais de meio século. Ela está expondo os enormes desafios que precisam ser superados para manter em atividade a indústria de semicondutores da ilha, que representa um elo cada vez mais indispensável nas cadeias mundiais de suprimentos de smartphones, automóveis e outros produtos essenciais à vida moderna.

Os fabricantes de chips usam grande volume de água para limpar suas fábricas e as bolachas de silício finíssimas que são usadas como base para os chips. E com o desgaste no suprimento mundial de semicondutores causado pela alta na demanda por eletrônicos, a incerteza adicional causada pelos problemas de abastecimento de água em Taiwan não deve aliviar as preocupações sobre a dependência do planeta com relação à ilha, e especialmente com relação a um fornecedor: a TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Co.).

Mais de 90% da capacidade mundial de produção dos chips mais avançados está em Taiwan, e é operada pela TSMC, que fabrica chips para a Apple, Intel e outros grandes nomes. A companhia anunciou na semana passada que investiria US$ 100 bilhões, nos próximos três anos, a fim de ampliar sua capacidade de produção, o que provavelmente reforçará ainda mais sua posição dominante no mercado.

A TSMC afirma que a seca não afetou sua produção, até o momento. Mas as chuvas de Taiwan não estão se tornando mais previsíveis, e o setor de tecnologia continua a crescer no país. Por isso as autoridades estão tendo de se esforçar cada vez mais para manter o abastecimento de água.

Nos últimos meses, o governo tem enviado aviões que queimam produtos químicos nos ares por sobre os reservatórios do país, para semear as nuvens. Construiu uma usina de dessalinização de água em Hsinchu, a cidade que abriga a sede da TSMC, e um aqueduto que conecta a cidade à região norte do país, mais chuvosa. Ordenou que as indústrias reduzissem seu uso de água. Em alguns lugares, as autoridades reduziram a pressão da água distribuída às residências e começaram a suspender o fornecimento dois dias por semana. Algumas companhias, entre as quais a TSMC, vem trazendo água de outras regiões em caminhões.

Mas a medida mais abrangente foi a suspensão da irrigação, que afeta 74 mil hectares de terras aráveis, cerca de um quinto das terras irrigadas de Taiwan.

“A TSMC e os outros fabricantes de semicondutores não sentem a crise de jeito nenhum”, disse Tian Shou-shi, 63, que planta arroz em Hsinchu. “Nós agricultores só queremos o direito de ganhar a vida decentemente”.

Em entrevista, o diretor assistente da Agência de Recursos Hídricos de Taiwan, Wang Yi-feng, defendeu as políticas do governo, afirmando que o período de seca significava que as safras seriam ruins mesmo que houvesse acesso à irrigação. Desviar a água escassa para as fazendas, em lugar de para as fábricas e residências seria “desvantajoso para todos”, ele afirmou.

Quando questionada sobre os problemas dos agricultores com a água, uma porta-voz da TSMC, Nina Kao, disse que era “muito importante que cada indústria e cada companhia” usasse a água de maneira eficiente, e apontou para o envolvimento da TSMC em um projeto para aumentar a eficiência da irrigação.

Que Taiwan, uma das regiões mais chuvosas entre os países desenvolvidos do planeta, esteja sofrendo de falta de água é um paradoxo que beira a tragédia.

Boa parte da água usada pelos moradores é depositada pelos tufões do verão. Mas as tempestades também carregam terra do terreno montanhoso da ilha para seus reservatórios. E isso gradualmente reduziu o volume de água que os reservatórios são capazes de abrigar.

As chuvas também variam fortemente de ano a ano. Na temporada chuvosa do ano passado, nenhum tufão chegou às costas do país, a primeira vez que isso acontece desde 1964.

A última vez que Taiwan havia suspendido a irrigação em larga escala de terras aráveis, para economizar água, foi em 2015, e a suspensão anterior a essa aconteceu em 2004.

“Se dentro de dois ou três anos as mesmas condições ressurgirem, poderemos dizer que Taiwan ingressou em uma nova era de grande escassez de água”, disse You Jiing-yun, professor de engenharia civil na Universidade Nacional de Taiwan. “No momento, estamos esperando para ver”.

Em 2019, as instalações da TSMC em Hsinchu consumiam 63 mil toneladas de água por dia, de acordo com a companhia, ou mais de 10% do total fornecido pelos dois reservatórios locais, Baoshan e Baoshan

Segundo a TSMC reciclou mais de 86% da água usadas em seus processos industriais naquele ano, informa a companha, e economizou 3,6 milhões de toneladas a mais do que no ano anterior, ampliando a reciclagem e adotando outras medidas novas de economia. Mas a quantidade ainda é pequena comparada aos 63 milhões de toneladas de água que a companhia consumiu em todas as suas instalações em Taiwan no ano de 2019. Kuo Yu-ling, sócia de Chuang em sua fazenda em Hsinchu, não gosta de demonizar a indústria de chips.

“Se o Parque Científico de Hsinchu não tivesse se desenvolvido como se desenvolveu, tampouco estaríamos funcionando”, disse Kuo, 32, se referindo à principal zona industrial da cidade.

Os engenheiros da TSMC são importantes clientes do arroz que os agricultores plantam, ela disse. Mas também é errado acusar os agricultores de desperdiçar água e contribuir pouco para a economia.

“Será que não seria possível calcular com exatidão quanta água as fazendas utilizam e quanta água a indústria utiliza, e deixar de estigmatizar a agricultura o tempo todo?”, ela disse.

O “maior problema” pode trás da crise de água em Taiwan é que o governo mantém preços baixos demais para a água, disse Wang Hsiao-wen, professor de engenharia hidráulica na Universidade Nacional Cheng Kung.

Os domicílios em Taiwan usam em média 283 litros de água por pessoa/dia, de acordo com estatísticas do governo. A maioria dos europeus ocidentais usa menos que isso, embora os americanos usem mais, de acordo com dados do Banco Mundial.

Wang, da Agência de Recursos Hídricos, disse que “ajustar os preços da água teria grande efeito sobre os grupos mais vulneráveis da sociedade, e por isso precisamos ser extremamente cautelosos ao realizar ajustes”. O primeiro-ministro de Taiwan declarou no mês passado que o governo estudaria impor preços mais elevados a 1,8 mil fábricas que utilizam grande volume de água.

Lee Hong-yuan, professor de engenharia hidráulica que foi ministro do Interior de Taiwan, também culpa as complicações burocráticas que dificultam a construção de novas instalações de reciclagem de água e a modernização da rede hidráulica.

“Outros países pequenos são extremamente flexíveis”, disse Lee, “mas nós operamos com a lógica de um país grande”.

Ele acredita que isso aconteça porque o governo de Taiwan foi estabelecido décadas atrás, depois da guerra civil chinesa, com o objetivo de governar toda a China. Desde então, o país abandonou essa ambição, mas a burocracia persistiu.

O sudoeste de Taiwan é tanto o coração agrícola do país quanto um centro industrial em ascensão. As instalações mais avançadas de fabricação de chips da TSMC ficam em Tainan, uma cidade no sul do país.

O reservatório de Tsengwen, nas imediações, se reduziu a um laguinho enlameado, em algumas áreas. Ao longo de um trecho conhecido como Parque dos Amantes, famoso pela paisagem, o piso do reservatório parece uma paisagem lunar. O volume de água disponível no momento equivale a 11,6% da capacidade, de acordo com dados do governo.

Nas cidades agrícolas perto de Tainan, muitos agricultores disseram que não se incomodavam por sobreviver com os pagamentos do governo, ao menos por enquanto. Eles removem as ervas daninhas de seus campos em desuso. Bebem chá com os amigos e fazem longos passeios de bicicleta.

Mas também precisam fazer planos para o futuro. O público taiwanês parece ter decidido que o cultivo de arroz é menos importante, tanto para a ilha quanto para o planeta, do que os semicondutores. Os céus – ou ao menos as grandes forças econômicas – parecem estar dizendo aos agricultores que é hora de encontrar um novo trabalho.

“O fertilizante está se tornando mais caro. O pesticida está se tornando mais caro”, disse Hsieh Tsai-shan, 74, que planta arroz. “Ser um agricultor é a pior coisa”.

Terras agrícolas serenas cercam a aldeia de Jingliao, que se tornou um local turístico popular depois de aparecer em um documentário sobre as mudanças na vida dos agricultores.
Só resta uma vaca na cidadezinha. Ela passa seus dias puxando uma carroça que leva visitantes em passeios, e não puxando um arado.

“Por aqui, uma pessoa de 70 anos é considerada jovem”, disse o agricultor Yang Kuei-chuan, 69, que planta arroz.

Os dois filhos dele trabalham para empresas do setor industrial.

“Se Taiwan não tivesse indústria alguma e dependesse da agricultura, todos nós teríamos morrido de fome, a esta altura”, disse Yang.

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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