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'É um passeio de montanha-russa': falta global de chips deixa indústrias atordoadas

Alta dependência da produção de semicondutores se agrava com estoques em baixa

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Don Clark
The New York Times

Dan Rozycki, presidente de uma pequena firma de engenharia, teme que a escassez global de semicondutores prejudique o endurecimento do concreto.

A empresa de Rozycki, o Transtec Group em Austin, no Texas, vende pequenos sensores que são colocados no local onde o concreto é despejado em obras de edifícios, pontes e estradas. Os equipamentos tomam a temperatura e enviam os dados para computadores, para que os trabalhadores verifiquem se o material está endurecendo adequadamente.

Como muitas outras coisas no mundo moderno, de computadores e carros a caixas registradoras e eletrodomésticos, os sensores exigem alguns semicondutores comuns e baratos que de repente se tornaram um produto muito raro.

"A cada mês nosso produto está ficando mais popular", disse Rozycki. "Mas talvez não possamos fabricá-lo durante vários meses."

Display no estande da empresa americana Qualcomm mostra a jornada dos primeiros chips de telefone 5G - Yves Herman - 2.mar.18/Reuters

A falta de semicondutores, alimentada pelas interrupções da pandemia e problemas de produção em fábricas de vários bilhões de dólares, causaram abalos por toda a economia. As questões sobre chips estão repercutindo entre empresas e políticos que tentam superar a dependência mundial dos pequenos componentes.

As limitações na oferta de chips não são um fenômeno novo. Mas os problemas do passado geralmente envolveram chips especiais, como os que ajudam a armazenar memória nos computadores ou a processar grande quantidade de dados. Desta vez, os clientes também estão com dificuldade para encontrar uma série de chips mais simples, feitos em fábricas mais antigas. E estas são difíceis de modernizar.

O presidente Joe Biden ordenou em fevereiro uma revisão de cem dias da cadeia de suprimentos de semicondutores, processo que atraiu presidentes de 19 grandes empresas para uma reunião virtual na segunda-feira (12). O Congresso tinha apoiado legislação destinada a promover a fabricação de chips no país, para reduzir a dependência de Taiwan e da Coreia do Sul. Biden propôs financiar a iniciativa com US$ 50 bilhões em seu plano de infraestrutura.

A maior parte da atenção se concentrou no fechamento temporário de grandes montadoras de carros americanas. Mas o problema está afetando muitos outros setores, especialmente os sistemas de servidores e PCs usados para fornecer e consumir serviços de internet, que se tornaram cruciais durante a pandemia.

"Cada aspecto da existência humana está indo para a rede mundial, e cada aspecto disso depende de semicondutores", disse Pat Gelsinger, novo presidente-executivo da fabricante de chips Intel, que participou da reunião com o presidente na segunda. "As pessoas estão nos suplicando por mais."

A escassez de chips afeta potencialmente todas as companhias que incluem em seus produtos funções de comunicação ou computação. Muitos exemplos foram descritos em 90 comentários enviados à revisão da cadeia de suprimentos de Biden por companhias e grupos setoriais, incluindo uma lista de necessidades de gigantes da indústria, como Amazon e Boeing.

A gigante dos computadores pessoais HP disse que a falta de semicondutores impediu a companhia de atender à demanda de computadores encomendados por escolas. O aumento dos preços também tornou mais difícil oferecer hardware acessível para distritos escolares menos ricos durante a pandemia, disse a empresa.

A firma de engenharia de Rozycki em Austin está por enquanto entre as felizardas usuárias de chips. Ela planejou antecipadamente e tinha chips suficientes para fazer os cerca de 50 mil sensores que fornece por ano a obras. Mas seu distribuidor lhe avisou que talvez não consiga entregar mais até o final de 2022, disse ele.

"Isso vai impedir esses projetos?", perguntou Rozycki. Ele está vasculhando o mercado em busca de distribuidores que possam ter em estoque os dois chips necessários. Outras possibilidades incluem redesenhar os sensores para usar chips diferentes.

Os problemas são tão multifacetados quanto o negócio de semicondutores, de US$ 500 bilhões. Os fabricantes transformam lascas de silício em chips em processos complexos que usam substâncias químicas, gases e máquinas caras. Os chips acabados cruzam fronteiras nacionais dezenas de vezes para parceiros que os testam, embalam e remetem para fabricantes e distribuidores de hardware.

A escassez neste ano foi intensificada por episódios que incluem um incêndio na fábrica de chips Renesas no Japão, uma seca em Taiwan e uma frente fria no Texas que fechou temporariamente fábricas operadas pela Samsung, a NXP Semiconductors e a Infineon.

"Agora está um inferno", disse Frank McKay, diretor de compras na Jabil, que compra bilhões de dólares em chips a cada ano para montar produtos para clientes como Apple, Amazon, Cisco e Tesla.

Hoje em dia sua companhia está enfrentando a falta de aproximadamente cem componentes e tem de usar todo o seu poder de negociação para consegui-los, até agora com sucesso. "Mas é um passeio de montanha-russa todos os dias", disse McKay.

A solução de outros problemas provavelmente se estenderá até 2022. Gelsinger disse que a Intel está conversando com fornecedores da indústria automobilística sobre transferir parte da produção para antigas fábricas da Intel, possivelmente daqui a seis ou nove meses. Mas acrescentar novas ferramentas de produção a uma fábrica de chips existente pode levar um ano. Construir uma nova leva três anos.

"Será um longo processo de cura", disse Thomas Caulfield, presidente-executivo da GlobalFoundries, grande fabricante de chips dos EUA que está duplicando os gastos de capital neste ano para suprir a demanda. Por enquanto, os cronogramas de entregas de chips se estenderam de aproximadamente 12 semanas para mais de um ano em certos casos, segundo compradores e corretores de chips. Isso é má notícia para companhias como a startup de webcams Wyze Labs.

"Vamos ser francos com vocês sobre algumas más notícias que tivemos nesta semana", escreveu a companhia em uma nota aos clientes em janeiro. "Alguns de nossos principais fornecedores nos informaram que só poderão entregar cerca de um décimo dos chips de que precisamos para fazer as Wyze Cams."

A companhia, sediada em Kirkland, no estado de Washington, previu problemas para estocar a terceira versão de sua webcam mais famosa. O site da empresa diz que ela está esgotada, com mais estoque esperado para dentro de uma ou duas semanas. A Wyze não respondeu a pedidos de comentários adicionais.

Os problemas de fornecimento podem ser um assunto delicado, disse Zach Supalla, presidente-executivo da Particle, empresa de San Francisco que compra chips para fazer equipamentos de comunicação e computação.

Ela vende seus dispositivos para milhares de companhias que fazem produtos como banheiras, aparelhos de ar-condicionado e equipamento médico e industrial.

A Particle até agora garantiu chips suficientes para continuar fazendo seus produtos, disse ele. Mas a companhia está pedindo que os clientes façam os pedidos com antecedência cada vez maior para garantir a entrega, disse Supalla.

Quando os chips são encontrados, os preços podem ser bem mais altos. Um elemento particularmente simples, um capacitor de cerâmica que geralmente custa por volta de US$ 0,03, ficou difícil de encontrar quando o surto de Covid fechou temporariamente uma fábrica na China.

A falta do capacitor prejudicou a produção de um popular modem para celular. Esse aparelho, que normalmente é vendido por US$ 10 a US$ 20, subiu para US$ 200 no mercado à vista, disse Supalla.

Clientes como fábricas de carros podem se dispor a pagar tais somas para continuar produzindo veículos de US$ 40 mil, disse ele. Mas nem todos podem.

Alguns compradores suspeitam de exploração. Jens Gamperl, presidente-executivo de uma bolsa de peças online chamada Sourcengine, contou sobre um telefonema de um executivo furioso porque um chip que normalmente custa US$ 1 estava listado a US$ 32. Gamperl teve de explicar que sua empresa foi forçada a pagar US$ 28 pela peça.

"É o tipo de loucura que vemos em toda parte hoje", disse ele.

Além do efeito direto sobre fabricantes de hardware, a falta de chips pode reduzir as remessas e aumentar os custos de servidores e equipamentos de redes para oferecer serviços como entretenimento em streaming, aprendizado e medicina à distância. Também podem afetar fabricantes de software.

A Tripp, startup de Los Angeles que faz um aplicativo de meditação que utiliza equipamento de realidade virtual da Sony e outras, estava apostando no novo PlayStation 5 para aumentar a demanda pelo software, disse Nanea Reeves, presidente-executivo da Tripp. Mas a escassez de chips prejudicou o lançamento do console.

"Estávamos esperando um grande salto em relação ao PS5", disse ela. A companhia espera que cheguem mais consoles no segundo trimestre.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

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