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Financial Times Guerra na Ucrânia

Por que os preços do petróleo podem subir ainda mais

Novas sanções financeiras podem causar danos duradouros à capacidade de produção de petróleo russa

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Derek Brower
Financial Times

As tropas russas se preparavam para invadir mais uma ex-república soviética. Os preços do petróleo estavam subindo. Os países ocidentais imploravam à Arábia Saudita que abrisse as torneiras.

Isso foi em 2008, pouco antes de Vladimir Putin enviar tanques russos através da fronteira para a Geórgia. O preço do petróleo nos Estados Unidos acabou atingindo uma alta histórica de quase US$ 150 (R$ 758,59) o barril.

Torre de gás em Sailiya, perto no Qatar - Karim Sahib - 19.nov.2012/AFP

Negociado em torno de US$ 116 (R$ 586,64) o barril nesta segunda-feira (7), os preços dos EUA ainda estão fora desse pico, enquanto o benchmark internacional Brent atingiu um pico de US$ 139 (R$ 702,96) antes de cair para US$ 120 (R$ 606,87). Mas os ecos de 2008 —da guerra aos apelos das autoridades ocidentais em Riad— estão ficando cada vez mais difíceis de ignorar.

A sede implacável da China por energia sustentou a recuperação 14 anos atrás. Desta vez, até as economias desenvolvidas estão entrando numa farra de combustíveis fósseis pós-pandemia.

Lembra quando a pandemia aceleraria o pico da demanda por petróleo? O consumo nos EUA atingiu um novo recorde nas últimas semanas. O consumo global fará o mesmo este ano, diz a Agência Internacional de Energia.

Os suprimentos não estão acompanhando —um legado de menor investimento global a montante nos últimos anos, agora agravado pelos profundos cortes nos gastos de capital feitos em todo o setor de xisto dos EUA após a crise do petróleo induzida pela pandemia. Alguns produtores da Opep —historicamente os fornecedores de último recurso— estão lutando para atingir suas cotas de produção.

Um mercado convencido há alguns anos de que a revolução do xisto nos EUA trouxe uma era de abundância sem fim agora se preocupa com a escassez.

A possibilidade de que as remessas de petróleo da Rússia —que atendem a cerca de 5% da demanda global de petróleo e 10% do mercado de exportação de produtos refinados— sejam sancionadas está aprofundando esses temores.

Mesmo sem um embargo, as novas sanções financeiras e o êxodo de empresas e tecnologia ocidentais podem causar danos duradouros à capacidade de produção de petróleo russa.

Isso deixa os preços do produto, que já subiram 25% em duas semanas, prestes a saltar mais alto, dizem analistas otimistas.

"Em última análise, o que estamos vendo é uma reavaliação do preço do petróleo", diz Christyan Malek, diretor administrativo do JPMorgan. Seu banco, que há dois anos previu um novo superciclo da commodity, diz que o petróleo bruto pode chegar a US$ 150 (R$ 758,59) até 2023. Mas a crise na Rússia ainda pode trazer um "excesso maciço", diz Malek.

Os preços do petróleo nos EUA quase triplicaram em três meses durante o embargo do petróleo árabe de 1973, e novamente dobraram em dois meses após a Revolução Iraniana em 1979, quando a produção do país entrou em colapso. Outros fornecedores intervieram, minimizando o déficit global. Em 1979, foi o medo da escassez, não a escassez em si, que causou a alta.

Ainda há razões para ser pessimista agora. O fervor especulativo diminuiu um pouco, diz Pierre Lacaze, fundador da corretora LCM Commodities.

A chamada "gama negativa" —traders de opções cobrindo suas posições vendidas à medida que os preços sobem rapidamente— foi um fator significativo, pois os preços do petróleo subiram de US$ 70 (R$ 354,01) para US$ 100 (R$ 505,73) o barril. Mas há suficientes posições curtas "não realmente significativas" que indicariam alta nos preços apenas com base em "gama negativa", diz Lacaze. O mercado está respondendo à geopolítica e aos fundamentos.

E essas forças ainda podem se voltar contra os preços do petróleo. As consequências da guerra na Ucrânia podem prejudicar a economia global. Um acordo diplomático com o Irã permitiria mais petróleo do país no mercado.

Analistas do Citi, entre os poucos em Wall Street que apostam em queda do petróleo, dizem que o aumento da produção global, inclusive do Irã, reduzirá os preços este ano "à medida que o foco muda do risco geopolítico para o excesso de oferta sustentada e o pico da demanda por petróleo".

Os EUA e outros países também mostraram que vão liberar estoques estratégicos de petróleo para tentar domar os preços, aponta Amy Myers Jaffe, professora da Escola Fletcher na Universidade Tufts.

No entanto, as perdas sustentadas do suprimento russo seriam difíceis de reparar. Mesmo a prolífica mancha de xisto dos EUA precisaria de anos para fazer sua parte.

A disrupção poderia elevar os preços do petróleo acima de US$ 200 (R$ 1.011,46) o barril, avalia Rob West, chefe da empresa de pesquisas Thunder Said Energy.

Com o tempo, um choque de preços ofereceria mais uma razão convincente para parar de queimar os combustíveis fósseis que causam a mudança climática. A mudança para veículos elétricos, que já roda em ritmo rápido, aceleraria. Preços altos curariam preços altos.

Mas ninguém sabe qual é esse limite de destruição de demanda. Ao contrário do pico de preços de julho de 2008, quando a mãe de todas as crises de crédito estava se formando em segundo plano, o cenário econômico de hoje também é otimista. Muitos consumidores estão cheios de dinheiro de estímulo pós-pandemia e ansiosos para queimar energia.

"Continuamos a subestimar o preço do petróleo com o qual o mundo pode lidar", diz Malek. Se este é o seu primeiro choque de petróleo e você já está estremecendo na bomba de gasolina, prepare-se. O mercado acha que você provavelmente pode aguentar preços mais altos.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

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