Pequenas marcas miram público plus size com lingerie sob medida

Ateliês se aproveitam de lacuna no mercado, mas preço alto e mão de obra escassa são desafios

 
Mulher sentada em frente a uma mesa na qual há uma máquina de costura
Ingrid Bento no ateliê de sua marca, Boutique do Sutiã, em Santo André, na Grande São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress
São Paulo

Às vésperas de seu desfile de lingeries em 2018, a Victoria’s Secret disse não ter planos de diversificar seu plantel de modelos com mulheres plus size. Mas, enquanto grandes grifes têm poucas peças acima do número 50, pequenas empresas apostam nesse público e crescem fazendo sutiãs sob medida, em uma gama maior de tamanhos.

Com estoques menores e contato direto com as clientes, essas marcas conseguem adaptar mais rapidamente seu produto para atender as demandas de consumidoras, que cada vez mais querem personalização e conforto.

Criada há cinco anos em Porto Alegre, a Boobtique nasceu de uma necessidade de sua dona, Priscilla Martinez. Quando conheceu o marido, foi a três shoppings na cidade em busca de um sutiã bonito.
“Não ia nem olhar o preço, queria só que servisse”, conta. “Do meu tamanho, não tinha em nenhuma loja. Chorei, chorei, chorei.”

Então, pediu à mãe, costureira, que fizesse um sob medida para ela. Uma cliente ouviu a conversa e resolveu ajudar: comprou o material e mandou fazer dois sutiãs, um para ela e outro para Priscilla. “Usei aquele sutiã um ano inteiro. Tirava do corpo, lavava, secava e colocava de novo.”

Na Boobtique, todos os modelos são feitos sob demanda: a cliente vai ao ateliê, tira as medidas, escolhe um modelo e volta de cinco a sete dias depois para fazer uma prova, sem acabamentos. Se tudo der certo, o sutiã é costurado e entregue em três dias. 

Também é possível tirar as próprias medidas em casa e encomendar pela internet, mas nesse caso não há prova.

O processo é parecido com o de Patricia Galves, que lançou a Pati Galves em 2016, em São Paulo. Sem loja física, ela conversa com as clientes por mensagem para discutir modelos, alterações. Cada sutiã tem um tempo de confecção diferente e, a partir dele, os custos são determinados.

Como marcas pequenas compram matéria-prima em menor quantidade e demoram mais tempo para produzir uma peça, o preço é inevitavelmente mais caro do que o de lojas grandes. 

“Você tem que convencer a cliente, porque a lingerie às vezes é o dobro ou triplo do preço de uma fast fashion”, diz Ingrid Bento, dona da Boutique do Sutiã, em Santo André.

Para ela, a competição de preços com a concorrência é a principal dificuldade enfrentada por profissionais na área. “A pessoa tem que entender que é um produto diferenciado, que ela não vai achar em outro lugar, então tem valor.”

A Boutique do Sutiã trabalha com sutiãs prontos, em tamanhos do 40 a acima de 60, com diferentes combinações de tamanho de seio e costas. 

Há também produção personalizada no ateliê. A maioria das clientes chega a ela buscando sutiãs sob medida ou plus size na internet e cerca de metade prefere ir ao local e conversar, por ter dúvidas sobre o processo e o resultado final.

Nos Estados Unidos, as conversas sobre inclusão na moda estão mais avançadas. Enquanto a Victoria’s Secret tem tido uma queda nas vendas desde 2016, outras marcas ganham espaço investindo na diversidade de corpos. 

A Aerie, que teve crescimento de 32% no terceiro trimestre do ano passado, usa em suas propagandas modelos de diferentes tamanhos e afirma não retocar as imagens, investindo no marketing nas redes sociais.

No Brasil, a falta de propagandas com modelos maiores inspirou Bianca Reis a criar a For All Types, de Curitiba. Ela acompanhava discussões de mulheres plus size na internet e notou que elas não se viam nas campanhas. 

“Quando a loja tinha [lingerie] no tamanho, elas não tinham como saber porque a modelo era sempre magra”, diz. Antes mesmo de lançar seus produtos, em 2015, sua página já era seguida por mais de mil pessoas, vindas de comunidades nas redes.

Nos últimos anos, essas marcas brasileiras relatam expansão. Patricia Galves diz que desde a criação os números foram positivos e neste ano projeta crescer 50%.

Se, por um lado, os preços são maiores do que os de peças de redes, por outro, a disputa por vendas é, de certa forma, menor, diz Bianca. 

“Os tamanhos que eu atendo as grandes marcas não atendem. Eu não tenho tamanho máximo. Muitas das minhas clientes são negligenciadas no mercado, então não tem concorrência”, afirma.

Marilene Veiga, dona da escola de costura Couture.Lab, com unidades em São Paulo e Porto Alegre, conta que há muitos alunos se especializando em lingerie. 

As modelagens utilizadas no país ainda são dos anos 1960 e não levam em consideração o fato de que as brasileiras têm corpos muito diferentes. Assim, nem sempre é fácil encontrar uma lingerie que sirva no mercado. Para quem quer costurar, há, então, um bom mercado potencial.

O trabalho com lingeries tem ainda como vantagem a necessidade de pouco espaço e a possibilidade de trabalhar, enquanto a empresa não cresce, com máquinas domésticas. 

“Não exige um ateliê gigante e o produto tem um valor agregado enorme”, diz Marilene. “Cada vez mais as pessoas valorizam a peça de uso íntimo. Antes a gente comprava calcinha bege, mas hoje não: as pessoas querem cor, renda.”

Se a produção aumentar, aponta Ana Paula Alves, professora de modelagem no Senac-SP, é preciso investir em maquinário específico ou terceirizar a produção. É preciso, porém, encontrar oficinas que tenham costureiras especializadas, o que, segundo Ingrid, é uma das dificuldades na área.

Encontrar bons fornecedores também é fundamental, pois as lingeries maiores demandam aros, ganchos e bojos em tamanhos nem sempre fáceis de achar. “É preciso estudar a peça para encontrar alternativas de material para suprir necessidades que houver”, diz Ana Paula.

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