Startups permitem a motoristas encontrar e reservar vaga de casa

Empresas agenciam espaços ociosos em estacionamentos e garagens residenciais

A empresária Carolina Edelstein, 29, cofundadora da Coopark, na sede da empresa, em São Paulo
A empresária Carolina Edelstein, 29, cofundadora da Coopark, na sede da empresa, em São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress
Dante Ferrasoli
São Paulo

Permitir que motoristas possam escolher e reservar uma vaga antes de sair de casa: é nisso que empresas novas apostam. Para prestar o serviço, algumas disponibilizam até espaços em garagens particulares.

A Coopark, que opera há apenas oito meses, nasceu a partir de uma experiência ruim de uma de suas fundadoras. “Parei meu carro na Paulista e paguei R$ 45. Andei um quarteirão e vi um lugar que custava R$ 20”, conta Carolina Edelstein, 29. 

Ela percebeu, então, que não havia um serviço na internet que listasse estacionamentos, seus horários e preços. Resolveu criar uma plataforma com essas informações, acrescentando a possibilidade de reservar a vaga.

Depois de algum tempo de pesquisa, ela criou com um sócio a Coopark. Funciona assim: o usuário coloca o endereço aonde vai na plataforma, acessível por aplicativo ou site, e o sistema lhe indica estacionamentos na região, informando horário de funcionamento e valores. 

O motorista escolhe o que lhe convém e reserva sua vaga. Ao chegar ao local, a cobrança é feita na própria plataforma, sem precisar se dirigir ao caixa. Assim, evitam-se filas, o que é uma vantagem especialmente para quem vai a um evento grande, como um show ou um jogo de futebol. Quem reserva a vaga com antecedência tem desconto. 

“Essa informação, que muitas vezes falta, é importante para o motorista. Por exemplo, você vai de Uber a algum lugar e vê que a corrida sai R$ 30. Mas às vezes tem um estacionamento próximo por R$ 15 e você não sabe”, diz.

Samantha Barbieri, 36, e Michele d’Ippolito, 42, sócios e fundadores da Unpark, em São Paulo
Samantha Barbieri, 36, e Michele d’Ippolito, 42, sócios e fundadores da Unpark, em São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

Carolina afirma nunca mais ter usado aplicativos de transporte ao aeroporto para viagens curtas depois que descobriu um estacionamento barato e próximo ao local.

Segundo a empresária, o modelo de negócios também é vantajoso para os estacionamentos, que chegam a à internet, ambiente no qual não costumam estar presentes. “Muitos deles ainda não estavam lá, onde os clientes todos estão”, diz Carolina.

A startup, por sua vez, lucra recebendo uma porcentagem de cada pagamento processado em sua plataforma.

Hoje, a Coopark tem cerca de 500 estacionamentos parceiros, principalmente em São Paulo e no Rio. Com seis funcionários, espera faturar cerca de R$ 100 mil neste ano.

Em operação desde junho do ano passado, a Unpark tem um modelo parecido, mas disponibiliza também vagas de pessoas físicas. Quem tem espaço livre na garagem pode alugá-lo para motoristas usuários do aplicativo —basta fazer um cadastro.

“Se você sai para trabalhar de carro, sua vaga no seu prédio fica disponível no período comercial. Você pode alugá-la para alguém durante esse intervalo de tempo”, diz Michele d’Ippolito, 42, sócio-fundador.

Seu exemplo serve para mostrar o quão maleável o aluguel de vagas particulares pode ser —desde algumas horas específicas do dia até períodos mais longos.

Essa modalidade requer, porém, alguns cuidados extras, como ter a anuência do condomínio —alguns só liberam a entrada para quem visita um morador e alugou a vaga de um vizinho que não está em casa. É necessário também capacitar o porteiro, que irá registrar a chegada do locatário no próprio aplicativo.

“Nos estacionamentos, o processo é mais simples, porque o colaborador que recebe o carro faz o protocolo que ele está acostumado a fazer o dia todo”, diz Samantha Barbieri, 36, a outra sócia-fundadora.

Por isso, a maior parte das 3.000 vagas disponíveis na plataforma —quase todas em São Paulo—estão dentro de estacionamentos.

“Para residências há uma maturação mais lenta. Passa pelas reuniões de condomínio para discutir o tema e pelo próprio entendimento das pessoas”, diz Michele.

A empresa pretende chegar ao fim do ano com entre 20 mil e 30 mil vagas disponíveis e faturamento de R$ 200 mil. Assim como no caso da Coopark, a receita vem de uma porcentagem das transações.

A falta de informações sobre estacionamentos pode ser um entrave a negócios do tipo. No Rio, a Jump Park fornecia serviços similares à Coopark e à Unpark, mas teve que tirar o aplicativo do ar para dar um passo atrás: hoje, coleta dados de estacionamentos na cidade e lhes oferece um sistema para sua gestão.

“Atualmente meus clientes são os estacionamentos, e eu recebo mensalmente deles por fornecer um sistema de controle interno”, diz Gustavo Cabral, 28, diretor-executivo. 

A Jump Park pretende voltar ao aplicativo de reserva de vagas quando tiver uma base robusta de estacionamentos e informações sobre eles em seu banco de dados.

Para o consultor do Sebrae-SP Claudinei dos Santos Fermino, há espaço para crescimento desse tipo de modelo.

“São negócios que resolvem problemas reais, e a gente já usa muitos aplicativos, estamos acostumados a isso”, diz.

Em sua opinião, a tendência de as pessoas utilizarem cada vez menos o carro não afetará quem gosta de dirigir para atividades de lazer. 

Já Junior Bornelli, fundador da StartSe, empresa de educação executiva continuada, diz crer que as perspectivas de longo prazo não são boas para esse mercado.

“A tendência é que realmente as pessoas tenham menos carros no futuro. E também haverá automóveis autônomos, o que significa que a necessidade de encontrar vagas será menor”, diz. 

Segundo ele, há um intervalo de “entre cinco e dez anos” no qual esse tipo de serviço pode ter sucesso no Brasil.

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