Fuja de modismos e nichos na hora de montar restaurante temático

Ambiente ajuda a atrair fãs e curiosos, mas qualidade é fundamental para fidelizar clientes

Alvaro Vannucci, doutor em física, em seu café com tema científico, em São Paulo
Alvaro Vannucci, doutor em física, em seu café com tema científico, em São Paulo - Alberto Rocha/Folhapress
Mariana Janjacomo
São Paulo

Unir uma paixão pessoal a uma oportunidade de negócio e montar um café, restaurante ou bar temático pode, à primeira vista, parecer perfeito. Se for bem-sucedido, o empreendimento tem chances de se tornar um ponto de visitação de fãs do assunto e atrair curiosos.

Para que dê certo, porém, é preciso tomar alguns cuidados, a começar pela escolha do tema. Se for muito de nicho, como por exemplo, um bar dedicado a um clube de futebol, acaba afastando uma parcela grande do público, afirma Hugo Roth, analista do Sebrae. 

Também é preciso avaliar se o tema é apenas um modismo, e não uma tendência com potencial para durar. 

“Quem aposta tudo em algo que está fazendo bastante sucesso agora, mas que é passageiro, corre o risco de abrir um negócio que não vai durar tempo suficiente nem para recuperar o dinheiro investido.”

Uma vez escolhida a temática, é necessário ter atenção aos detalhes. “Tudo no local precisa estar de acordo com o tema: do cardápio aos móveis, passando pelas paredes e janelas”, afirma Roth. 

Ao abrir no ano passado o restaurante Vassoura Quebrada, inspirado na saga do bruxinho Harry Potter, Otávio Amâncio de Oliveira Júnior, 27, e seus quatro sócios, transformaram o espaço numa taverna semelhante às frequentadas pelos personagens dos livros e dos filmes.

Há dezenas de objetos que remetem à série, como capas e chapéus que os clientes podem vestir para tirar fotos. Assim que as pessoas se sentam à mesa, recebem uma varinha para chamar um dos garçons vestidos de bruxos.

O cardápio também é inspirado em bruxos. Há, por exemplo, uma “cerveja espumosa”, um milk shake com sorvete de creme, canela, noz-moscada e açúcar mascavo, que lembra a cerveja amanteigada da história de Potter.

A casa, na zona oeste de São Paulo, não faz, no entanto, menções diretas à história criada por J.K. Rowling. 

Quem quer adotar produtos da cultura pop como tema do espaço precisa tomar cuidado com os direitos autorais: para usar os nomes das franquias precisa entrar em contato com as empresas responsáveis e pagar pelos direitos. 

“Isso costuma ser bastante caro, mas, sem isso, o empresário corre risco de ser processado e ter o estabelecimento fechado”, diz Roth, do Sebrae.

Só o clima é suficiente para atrair fãs da série, diz Otávio. “Já vimos pessoas que choraram quando entraram aqui porque também cresceram com essas histórias. Mas tem também gente que só vem para comer um hambúrguer”, afirma o empresário.

Há cerca de dois meses, o Vassoura Quebrada passou a funcionar, além de todas as noites, dois dias no horário do almoço, às quintas e às sextas-feiras. A ideia é diversificar o público e aproveitar o movimento de pessoas que trabalham nos arredores.

Um estabelecimento temático pode ter também um tema mais abstrato. Depois de 35 anos lecionando na USP, o doutor em física Alvaro Vannucci, 64, resolveu empreender e descobriu uma nova forma de divulgar a ciência pela qual é apaixonado. 

As leis da física são o atrativo do Physics Café, espaço que inaugurou em abril deste ano na zona oeste de São Paulo.

O lugar é cheio de experimentos. Há ali, por exemplo, um tubo com duas hastes metálicas sob tensão de 12 mil volts —dá para ver a descarga elétrica por meio de uma faísca que percorre a estrutura. 

Bolas penduradas por fios parecem dançar sozinhas, mas são controladas por cordões que produzem oscilações. Máquinas que lembram passarinhos bebendo água funcionam, na verdade, graças a um sistema de troca de calor.

Na maior parte do tempo, Alvaro está no Physics Café, sempre pronto para explicar a lógica por trás de seus aparelhos. Apesar de a física ser o pesadelo de muita gente na escola, o professor aposentado diz que o assunto pode ser, sim, muito interessante. 

“O objetivo é fazer todo mundo sair daqui com um sorriso no rosto”, afirma.

Por enquanto, o cardápio do Physics Café conta com café, salgados e doces. Em breve, deve incluir opções de bebidas com nomes inspirados em fenômenos da física. 

O primeiro produto da nova leva já foi batizado: o Efeito Doppler, usado para explicar a mudança na percepção de sons, deve nomear uma mistura de café e creme de avelã.

Alvaro também aluga as demais salas do imóvel onde está o café para palestras e aulas de física, matemática e química —é ele mesmo quem indica os professores.

Esse entusiasmo pelo tema é essencial para o futuro do negócio, de acordo com Hugo Roth, do Sebrae. “E não basta vir só do dono: os funcionários têm que compartilhar da paixão, para entregar aos clientes uma experiência que corresponda às expectativas.”

E, é claro, além de tudo isso é preciso investir naquilo que todo restaurante ou bar deve entregar: um bom produto. “Muita gente vai a esses espaços diferentes uma vez só, pela curiosidade. Mas o que faz essas pessoas voltarem? No fim das contas, estamos falando de bons produtos e bons preços”, diz Roth.

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