Desejo de ser o próprio chefe é um ótimo motivo para não empreender

Glamorização do mundo das startups esconde uma rotina de burocracias, cálculos e imprevistos

Guilherme Botacini
São Paulo

Abrir um negócio só pela vontade de se tornar o próprio patrão é um caminho rápido para o fracasso. Quem busca liberdade ao empreender possivelmente vai acumular uma lista de frustrações.

"As pressões de abrir um negócio próprio são ainda maiores. O cliente exige tanto quanto o chefe, com a diferença de que o salário não está garantido no fim do mês", diz Gilberto Sarfati, professor de empreendedorismo da FGV-SP (Fundação Getulio Vargas).

A glamorização do mundo das startups esconde uma rotina burocrática e o peso sobre o empreendedor, responsável por tomar todas as decisões.

Impulsionados por histórias de sucesso, muitos profissionais decidem deixar o emprego e abrir uma empresa sem ter experiência no ramo escolhido ou em gestão. 

Mas ninguém deve empreender sem antes buscar capacitação na área, de acordo com Sarfati. A falta de conhecimento é uma das principais causas de insucesso.

"Existe a crença de que bom é quem está com a mão na massa, mas isso não é generalizável", completa Guilherme Fowler, professor do Insper. 

Cansado de trabalhar como metalúrgico, Diego Santos de Miranda, 26, decidiu pedir demissão e montar um negócio com dois amigos, que também largaram o emprego.

O professor de educação física Diego Santos de Miranda, 26, na academia onde trabalha, em São Paulo
O professor de educação física Diego Santos de Miranda, 26, na academia onde trabalha, em São Paulo - Lucas Seixas/Folhapress

Cada sócio investiu R$ 9.000. De início, eles pensaram em uma barbearia. Como nenhum dos três sabia cortar cabelo, mudaram de planos e inauguraram uma sorveteria em Suzano, na Grande São Paulo, no começo de 2017.

Era verão, e o bom faturamento dos três primeiros meses empolgou os sócios. Com a chegada do frio, o movimento caiu, e as dívidas acabaram se acumulando.

O planejamento do trio não contava com capital de giro. Eles tinham reservado somente o valor equivalente a dois aluguéis. Também perderam o controle das entradas e saídas. Em alguns momentos, faltaram produtos.

Para manter a empresa funcionando, tiveram que fazer um empréstimo. Em 2018, a situação ficou insustentável e, em agosto, a sorveteria fechou as portas.

"Hoje eu tentaria começar mais simples, num lugar menor, com um estoque maior", afirma Miranda, que se formou em educação física depois da falência da empresa. Atualmente, ele é professor em uma academia e pensa em ter o seu próprio negócio nessa área.

Miranda aprendeu na prática que quem não tem uma reserva de dinheiro não deve empreender. Antes, é preciso juntar uma quantia suficiente para se manter em atividade até começar a ter lucro.

O empresário deve ter um capital de giro que dure de três a seis meses, segundo Davi Jerônimo, do Sebrae-SP.

Para fazer uma estimativa realista desse valor, ele indica que o cálculo mensal deve levar em consideração três fatores: as contas a receber, o estoque e as contas a pagar.

Além disso, é preciso avaliar quanto o empresário vai precisar para sobreviver antes de conseguir tirar o seu primeiro salário. E estar preparado para imprevistos.

Aqueles que não estão prontos para fracassar nem devem começar um negócio.

"O empreendedor tem que saber qual é sua perda suportável, até onde ele pode ir. Não pode ser o fundo do poço, porque a pessoa jurídica fecha, mas a física tem que se reinventar", diz Flavio Pripas, investidor da Redpoint Eventures, fundo de investimentos em startups.

Pripas defende que, nesse cálculo, esteja um plano de, no mínimo, seis meses de recursos pessoais para o caso de a ideia não vingar. 

Formada em gastronomia, Tatyany Monteiro, 29, investiu R$ 300 mil para abrir uma pizzaria em Goiânia, há quatro anos. O plano era transformar o restaurante em uma rede de franquias.

No entanto, um problema de saúde de seu pai, e sócio, exigiu que o capital reservado para o funcionamento da empresa durante o período inicial fosse usado para pagar uma cirurgia.

"Deveríamos ter planejado um capital de giro maior, tínhamos o suficiente para um mês. Achamos que o lucro viria mais rápido, mas infelizmente não foi assim. Os imprevistos viraram uma bola de neve", afirma.

Ela conta que a ideia era caprichar na matriz para alavancar o interesse de franqueados, que nunca existiram. Neste ano, a pizzaria encerrou as atividades.

Hoje, Monteiro avalia que o alto investimento inicial não foi uma boa ideia. 

"Não pesamos muito bem as prioridades no começo. Poderíamos ter gastado R$ 100 mil a menos na abertura, com estrutura mais simples", diz.

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