Inovação faz crescer empresas que nascem dentro de outras empresas

Processo chamado de spin-off permite atender demandas do consumidor de maneira mais rápida

São Paulo

Cresce o número de empresas que nascem dentro de outras empresas e ganham vida própria —processo conhecido como spin-off (subproduto, em inglês).

O termo se popularizou nos últimos anos graças a séries de televisão. Personagens de tramas de sucesso ganharam seus próprios enredos, caso de “Better Call Saul”, criada a partir de “Breaking Bad”.

O empresário Henrique Carbonell no escritório da F360º, em São Paulo
O empresário Henrique Carbonell no escritório da F360º, em São Paulo - Adriano Vizoni/Folhapress

No mundo dos negócios, um exemplo de spin-off é a Smiles, programa de fidelidade da companhia aérea Gol que, em 2013, se tornou uma empresa independente.

Hoje, a transformação digital no ambiente corporativo está tornando esse processo tendência no mercado. Companhias tradicionais têm deslocado parte de suas equipes para o desenvolvimento de projetos inovadores, que, quando dão certo, podem trilhar um caminho próprio.

Isso permite que essas novas empresas ofereçam respostas mais rápidas aos anseios dos consumidores com produtos e serviços que fogem à atividade principal da companhia-mãe, de acordo com Antonio Serrano, mentor da Endeavor.

“Por isso, as spin-offs devem crescer nos próximos anos”, diz Guilherme Arradi, gerente de inovação do Sebrae-SP.

A empresa de gestão financeira F360º foi criada pelo franqueado de O Boticário Henrique Carbonell, que enfrentava dificuldades para gerenciar os caixas de suas 14 unidades da marca.

Para solucionar o problema, Carbonell contratou o programador Luiz Saouda, que acompanhou a rotina do empresário por um ano para criar uma plataforma que integra os processos financeiros de uma franquia.

Então, os dois perceberam que outros franqueados também teriam interesse em usar a ferramenta. Em 2013, a plataforma virou uma empresa e Saouda, seu sócio.

Hoje, a F360º atende 180 marcas em todo o país e é parceira de O Boticário, fornecendo o software de gestão financeira a cerca de 85% dos franqueados da rede, com mensalidades e taxas de implantação mais vantajosas.

No ano passado, a companhia faturou R$ 8 milhões. Em 2020, deve dobrar de tamanho, segundo previsão de Carbonell, que ainda administra 18 unidades de O Boticário.

O advogado Francisco Figueiredo em seu escritório de contabilidade em SP
O advogado Francisco Figueiredo em seu escritório de contabilidade em SP - Zanone Fraissat/Folhapress

Já o empresário Maurício Cardoso deixou o cargo de diretor da empresa de ecommerce WebContinental para se arriscar em uma nova empreitada. Em 2011, a partir de dificuldades em mapear a concorrência da companhia, ele desenvolveu a WebGlobal, tecnologia para monitoramento do mercado online.

O investimento inicial, de aproximadamente R$ 200 mil, foi todo bancado pelo empresário e seu sócio. Cinco anos depois, Cardoso se separou da empresa-mãe para apostar no produto derivado.

A decisão foi motivada pelo potencial de crescimento no setor. “Poucas companhias têm muita participação no mercado do varejo, e a tecnologia de inteligência cada vez mais faz a diferença nesse segmento”, afirma Cardoso. No ano passado, a WebGlobal cresceu 70%.

A economia tributária e a oportunidade de melhor explorar comercialmente o negócio são outros motivos para empreendedores decidirem separar seus negócios.

O advogado Francisco Figueiredo, dono de um escritório de contabilidade, detectou demanda de seus clientes pelo serviço de assessoria empresarial, que auxilia na abertura de negócios e na modificação do contrato social.

Em 2017, ele decidiu dividir as duas empresas, que ainda hoje compartilham o mesmo espaço físico. Seu único gasto foi de R$ 2.000, para a criação de um novo CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica).

Assim, Figueiredo pôde investir no desenvolvimento de redes sociais e sites separados, que aumentaram o alcance dos anúncios de seus serviços. Juntas, as duas empresas têm faturamento de R$ 2 milhões por ano.

A spin-off também trouxe economia de 30% no pagamento de impostos, afirma Figueiredo. Isso porque, ao separar as receitas, as taxas tributárias também mudaram.

“Além disso, se um cliente tem algum problema com a empresa de assessoria empresarial, ele não vai associá-la ao escritório de contabilidade, e vice-versa.”

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