Saiba como começar a empreender enquanto você está empregado

Para ter sucesso, profissional precisa gerir bem o tempo e ir além do hobby ao escolher o negócio

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Quem busca empreender enquanto tem um outro trabalho precisa ficar atento a alguns pontos para conciliar as duas atividades. Além da gestão do tempo, é necessário ter um objetivo bem definido.

"Tem gente que, empregada, entra num negócio porque tem um hobby, mas é preciso saber se de fato há um mercado para isso e traçar metas, ou fazer o que você gosta pode acabar dando prejuízo", diz Juliana Segallio, consultora do Sebrae-SP.

"Você pode ter afeto [pelo trabalho], mas precisa de lucro", completa.

Claudia Hernandes, que comanda a doceria The Baundes enquanto trabalha como engenheira na Sabesp 
Claudia Hernandes, que comanda a doceria The Baundes enquanto trabalha como engenheira na Sabesp  - Karime Xavier/Folhapress

A especialista também recomenda levar em consideração aspectos burocráticos. Quem abre um CNPJ como MEI (microempreendedor individual) não tem, por exemplo, direito ao seguro-desemprego se for demitido do outro trabalho.

A engenheira Claudia Patrícia Bauer Hernandes, 59, resolveu conciliar sua rotina de funcionária da Sabesp com a de empreendedora quando percebeu que um hobby antigo, o de fazer doces, poderia virar um negócio. Mas, para isso, ela se capacitou para conseguir gerir a empresa.

Desde que a confeitaria The Baundes foi formalizada, em 2017, ela busca levar as duas vidas em paralelo, sem deixar que uma interfira na outra.

"Não queria que alguém dissesse que eu usava o tempo de trabalho para tocar meu negócio. Então, eu faço as coisas da confeitaria à noite, aos fins de semana e até na hora do almoço", conta ela.

Nesse tempo, Claudia aprendeu a fazer estoque, a controlar qualidade do produto e também buscou nutricionistas para desenvolver os doces.

Durante as capacitações, à época presenciais e à noite, conheceu outros empreendedores. "Foi bom para aumentar minha rede de contatos."

A The Baundes, que fica na zona sul de São Paulo, fatura cerca de R$ 6.500 por mês e tem dois funcionários. Claudia pensa em deixar o outro emprego, no qual está há 24 anos, só quando esse número atingir um patamar entre R$ 15 mil e R$ 20 mil.

Há também quem tenha abandonado o antigo trabalho durante a empreitada. Matheus Boso, 23, de Lençóis Paulista, no interior de São Paulo, trabalhava numa loja de eletrônicos quando, em 2016, fundou a Forever Cabelos, ecommerce do setor da beleza.

"Foi corrido. Eu ia com a minha mãe despachar coisa nos Correios no horário de almoço. À noite, cuidava da propaganda e via cursos online. Além disso, eu ainda estudava na época", relembra.

Até que ele tomou a decisão de sair do trabalho, ainda que ganhasse mais lá.

"Tinha até um bom salário para alguém de 18 anos. O lucro da empresa era maior, mas precisava reinvestir. Não compensava sair. Fiz um sacrifício, comecei a viver com menos."

A aposta deu certo. Cinco anos depois, a Forever Cabelos, agora renomeada como Prohall, que vende online, mas foca a produção de cosméticos, já emprega 52 pessoas.

Durante a pandemia, quando houve um boom no setor de beleza, o negócio cresceu 250%. Deve fechar o ano com faturamento de R$ 25 milhões.

Além de não deixar um trabalho influenciar o seu desempenho no outro, o empreendedor precisa ter uma conversa franca com seu gestor sobre os projetos que desenvolve fora da empresa.

"Há entre empregado e empregador um pacto. Então, se o segundo for desenvolver um negócio, é bom que a outra parte saiba, para que ninguém se sinta lesado com eventuais mudanças", afirma Rubens Massa, professor de empreendedorismo e novos negócios na FGV (Fundação Getulio Vargas).

Caroline Sentinelo, 31, e o marido, ambos funcionários da indústria automobilística, resolveram abrir uma franquia da cafeteria Mais1 Café em Santo André, na região metropolitana de São Paulo, em fevereiro deste ano.

Ela afirma que deixou bem claro para seu gestor, desde o início, que abriria o café. "Eu falei para ele: ‘Olha, isso não vai influenciar no meu trabalho aqui’", conta.

Para que isso não aconteça, ela e o marido se revezam para ir fisicamente ao café após a jornada de trabalho e também aos fins de semana. Com o home office, Caroline já até mesmo trabalhou para seu outro emprego dentro do café.

Ela conta que, num determinado momento, passou por sua cabeça se dedicar apenas à franquia, mas diz ser grata por ter decidido o contrário.

"É necessário ter uma base financeira para manter o negócio por um tempo. Se a pessoa tiver a chance, eu recomendo ficar no outro trabalho enquanto empreende", afirma ela, que é empresária de primeira viagem.

Ser novata no mundo dos negócios foi um dos motivos que levou Caroline e o marido a começar a empreender com uma franquia. "A gente precisava de algo mais estruturado e que, por causa dos nossos outros empregos, desse para administrar a distância em alguns momentos", afirma ela.

A loja, que tem três funcionários, vê as vendas crescerem com o arrefecimento da pandemia. A expectativa do casal é que o faturamento aumente 20% neste semestre em relação ao anterior. Para o futuro, o objetivo é faturar entre R$ 20 mil e R$ 25 mil por mês.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.