Ataques de Trump levam preocupação e indignação ao FBI

Agência é alvo do presidente por investigar a interferência russa na eleição

Devlin Barrett Matt Zapotosky
Washington

Nos 109 anos de existência do FBI, a organização já foi criticada muitas vezes por abusos de poder, de privacidade ou direitos civis. Por razões que vão do perigo vermelho até gravar e ameaçar expor a conduta privada de Martin Luther King Jr., sem falar em beneficiar-se da espionagem em massa na era digital, o FBI está acostumado a ser alvo de críticas intensas.

O que é tão incomum no momento atual, dizem atuais e antigas autoridades de justiça e da polícia, é a origem dos ataques.

O birô está sendo atacado não pela esquerda, mas por conservadores, que historicamente sempre foram seus maiores apoiadores, e pelo presidente, que escolheu o diretor do FBI a dedo.

O atual diretor do FBI, Christopher Wray durante sua posse em Washington
O atual diretor do FBI, Christopher Wray durante sua posse em Washington - Saul Loeb - 28.set.2017/AFP

Críticos republicanos alegam que a origem da investigação sobre uma possível coordenação entre a campanha de Trump e agentes do governo russo foi contaminada fatalmente pelo viés político de líderes seniores do FBI. E o presidente Donald Trump tuitou no sábado que a divulgação do memorando sobre essa questão confirma totalmente sua própria posição.

Líderes do FBI dizem que as acusações contidas no documento produzido por republicanos da Câmara de Representantes são inexatas e, o que seria mais nocivo no longo prazo, erodem a capacidade do FBI de continuar a ser independente e fazer seu trabalho.

Um funcionário do setor resumiu o problema com franqueza: "Há muita raiva e indignação. A ironia é que o FBI é uma organização de viés conservador e está sendo criticada destrutivamente por conservadores. No início, o sentimento era apenas de perplexidade. Agora é de indignação, porque as críticas não estão indo embora."

O diretor do FBI, Christopher Wray, enviou uma mensagem de vídeo na sexta-feira às pessoas que lidera, pedindo que "mantenham a calma e enfrentam a situação com força".

"Vocês passaram por muita coisa nestes últimos nove meses, e sei que tem sido perturbador, para dizer o mínimo", ele disse no vídeo. "E os últimos dias não ajudaram muito a acalmar a situação. Então quero me certificar que vocês saibam qual é minha posição e o que quero que façamos."

A maioria dos agentes do FBI enxerga sua missão como sendo fundamentalmente apolítica. Trata-se de investigar delitos, mesmo quando ocorrem em campanhas políticas ou no governo.

O FBI é encarregado há décadas de investigar a corrupção no governo, mesmo em seus escalões mais altos, incluindo a Casa Branca. Na década de 1970, sua investigação do arrombamento do edifício Watergate acabou levando à renúncia do presidente Richard Nixon. No final dos anos 1990 o presidente Bill Clinton acabou detestando o então diretor do FBI, Louis Freeh, mas a desconfiança entre os dois não levou o próprio presidente a lançar ataques destrutivos contra a organização.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, a agência foi reformulada para focar sua atenção principalmente sobre a prevenção de terrorismo, e a confiança pública em seu trabalho cresceu. Nos últimos dois anos, porém, a investigação sobre o uso feito por Hillary Clinton de um servidor de e-mails pessoal enquanto ela foi secretária de Estado e uma investigação separada sobre ligações da campanha de Trump com a Rússia estão pondo à prova a possibilidade de o FBI continuar a contar com a confiança do Congresso, dos tribunais e do país.

A visão de Wray para tirar a agência da situação difícil em que se encontra agora é voltar ao tipo de gestão de baixo perfil favorecida pelo ex-diretor do FBI Robert Mueller 3º. A informação é de várias pessoas que conversaram com Wray sobre os desafios atuais.

Seu predecessor, James Comey, foi demitido por Trump em maio, em meio às tensões crescentes de uma investigação criminal sobre Michael Flynn, ex-assessor de Segurança Nacional de Trump. Na época, Trump chamou Comey de "exibido" e disse que ele queria chamar a atenção para si mesmo.

Faz sentido, portanto, que o sucessor de Comey queira agir com discrição.

Os defensores de Wray dizem que existe uma razão mais estratégica da abordagem seguida pelo novo diretor. Segundo pessoas familiarizadas com seu pensamento, ele acredita que o FBI poderá se orientar no meio das tempestades políticas atuais e recuperar a confiança ampla de todo o espectro político se usar os procedimentos e políticas que sempre foram empregados pelo Departamento de Justiça.

"É importante seguir os processos reconhecidos", disse uma pessoa. "Os processos podem nos salvar".

Mas essa abordagem representa uma rejeição sutil de algumas das decisões mais controversas de James Comey. Em julho de 2016, Comey deu uma entrevista coletiva à imprensa para anunciar que não recomendaria a formulação de acusações criminais na investigação sobre o uso de um servidor privado de e-mails por Hillary Clinton quando ela foi secretária de Estado. Então, em outubro do mesmo ano, menos de duas semanas antes da eleição presidencial, ele enviou uma carta ao Congresso informando que o FBI estava investigando novos e-mails ligados ao caso.

As duas iniciativas destoaram significativamente dos procedimentos normais do Departamento de Justiça, e Hillary e seus seguidores dizem que Comey lhe custou a eleição.

A demissão de Comey chocou a força de trabalho do FBI. Muitos funcionários da agência então postaram fotos dele em suas mesas e outros espaços de trabalho.

"Você entrava em alguns escritórios do FBI e não se falava em outra coisa senão Comey, Comey, Comey", disse um agente. "Ainda há muito disso, mas não tanto."

Os ataques públicos do presidente prejudicaram a moral no interior do FBI, segundo antigos e atuais funcionários da organização. Funcionários seniores e agentes da base do FBI frequentemente discutem a melhor maneira de trabalhar de agora em diante. Vários funcionários do setor de Justiça disseram que concordam com a abordagem de baixo perfil de Wray, como uma maneira de voltar ao que um deles descreveu como o "FBI de Mueller".

É uma posição que não deixa de encerrar alguma ironia, já que hoje Mueller é o procurador especial que comanda a investigação sobre a Rússia, tão rejeitada pelo presidente e seus aliados. No sábado, em seu tuite, Trump disse que a "caça às bruxas russa continua sem parar... é uma vergonha americana!"

Outros expressam dúvidas sobre emular a abordagem detalhada de Mueller, temendo que a tática de Wray para não enfrentar o presidente publicamente leve a uma erosão gradual da reputação e influência da agência. Um funcionário de Justiça disse que teme que não seja possível voltar à situação de uma era anterior, porque, em suas palavras, "foi aberta esta caixa de Pandora de política, e pode ser que a gente nunca mais se livre disso".

Segundo uma pesquisa HuffPost/YouGov do mês passado, 51% do público diz que tem confiança razoável no FBI uma queda de 12 pontos em relação a 2015. A maior parte dessa queda, segundo a pesquisa, se deve a republicanos e independentes.

A campanha #DivulguemOMemorando um esforço para que fosse divulgado o documento de quatro páginas redigido pelo deputado republicano Devin Nunes, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, alegando vícios nas apurações do FBIé apenas o lance mais recente em uma guerra crescente travada contra a credibilidade o Departamento de Justiça e a polícia federal. Na sexta-feira Trump autorizou a divulgação do memorando de Nunes, passando por cima das objeções de Wray, e declarou: "Muita gente deveria ter vergonha e muito pior que isso".

O documento que, segundo democratas, não é apropriadamente contextualizado e parece ter sido um pretexto para os conservadores colocarem em descrédito a investigação sobre Trump alega que o FBI enganou o Tribunal de Vigilância de Inteligência Estrangeira (Fisa) para poder obter um mandato secreto que o autorizou a monitorar Carter  Page, um ex-assessor da campanha de Trump.

Isso porque, alegaram republicanos, o FBI não informou ao tribunal do Fisa que estava se baseando em parte sobre informações que recebera de um ex-espião britânico que trabalhara para uma firma de investigações contratada pela campanha de Hillary e pelo Comitê Nacional Democrata. Mas autoridades familiarizadas com o assunto disseram que o tribunal que aprovou o mandado sabia que parte das informações usadas para justificar o pedido foi financiada por uma organização política, mesmo que a organização não tivesse sido citada especificamente.

"Isso é tudo?" tuitou  Comey depois de o memorando ter sido divulgado, na sexta-feira. "Memorando desonesto e enganoso arruinou o comitê de inteligência da Câmara, destruiu a confiança na comunidade de inteligência, prejudicou o relacionamento com o tribunal do Fisa e expôs imperdoavelmente uma investigação classificada sobre um cidadão americano. Para quê? Departamento de Justiça e FBI precisam continuar a fazer seu trabalho."

Os ataques de Trump contra o Departamento de Justiça e o FBI não começaram agora. Ele descreveu seu próprio secretário de Justiça como sitiado e alegou que a reputação do FBI estava "em frangalhos". Nas últimas semanas, porém, suas alegações vêm sendo amplificadas por parlamentares republicanos e reforçadas pela divulgação de materiais que colocam em questão as ações de alguns agentes.

No final do mês passado o senador republicano Ron Johnson, do Wisconsin, disse na Fox  News que há "evidências de corrupção —mais que viés, corrupção— nos mais altos níveis do FBI" e apontou para mensagens de texto trocadas entre dois agentes chaves que em certo momento trabalharam nas investigações sobre Hillary e sobre Trump, sugerindo a existência de uma "sociedade secreta" no FBI. Essas mensagens sobre uma sociedade secreta hoje são vistas amplamente como tendo sido brincadeira, mas esse fato não diminuiu o ardor dos republicanos em criticar o que veem como ato condenável por parte do FBI.

Depois disso vieram dias de disputas sobre se o memorando deveria ou não ser levado a público, com o Departamento de Justiça e os republicanos trocando farpas sobre se o documento poderia prejudicar a segurança nacional e sobre sua precisão. Trump acabou tomando o partido de parlamentares republicanos, passando por cima do conselho do diretor do FBI que ele próprio escolheu.

O Departamento de Justiça tradicionalmente exerce um papel singular na administração: ao mesmo tempo em que procura implementar as metas políticas do presidente, como parte do Executivo, conduz investigações criminais independentemente e sem levar em conta a vontade do presidente. Trump desafiou essa praxe. Ele pediu uma promessa de lealdade de Comey e perguntou a Andrew McCabe, que substituiu Comey depois de este ter sido demitido por Trump, em quem havia votado para presidente.

A abordagem de Trump vem confundindo as velhas alianças e criando algumas novas alianças esdrúxulas.

Os defensores da privacidade —cuja missão frequentemente envolve tentar limitar os poderes de vigilância do FBI, que consideram ser excessivos e irrestritos— se veem defendendo a agência na disputa atual, dizendo que as acusações feitas pelo Partido Republicano sobre abuso de privacidade são infundadas.

Christopher  Anders, vice-diretor do escritório legislativo em Washington da União Americana de Liberdades Civis, disse: "Durante anos estivemos preocupados com os procedimentos de autorização de espionagem, um mandado necessário para espionar um cidadão americano e as violações desse processo. Com o memorando do deputado Nunes levantando o receio de violações nesse processo, é evidente que isso é algo que nos preocuparia. Mas o memorando não prova que isso tenha acontecido. Não contém o tipo de provas que seriam necessárias para se afirmar que ocorreu abuso de autoridade."

Ron  Hosko, um ex-diretor assistente do FBI, disse que o comportamento do presidente em relação ao Departamento de Justiça e ao FBI pode causar danos permanentes. O presidente pode achar agora que gostaria de ter o FBI sob seu controle firme, disse Hosko, mas poderia lamentar se um presidente com essa mesma postura assumisse o poder e ordenasse investigações sobre Trump e sua família.

"A batalha é incrível, e quem está saindo em defesa do FBI? Os democratas", disse Hosko. Não faz sentido.

Antigos e atuais funcionários da Justiça e polícia preveem que a luta pelo controle do FBI se intensifique.

"Os republicanos sentem que a Casa Branca está sitiada e desconfiam que o FBI não jogou limpo", disse um ex-funcionário sênior do Departamento de Justiça. "Os republicanos acham que isso é apenas parte da guerra que estão travando."

Washington Post

Tradução de Clara Allain

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