Eleição na Hungria testa terreno para partidos populistas europeus

Dono de retórica anti-imigração, Viktor Orbán deve ser reconduzido, mas pode perder supermaioria

O premiê húngaro Viktor Orbán no comício de encerramento de sua campanha, na sexta-feira (6), em Szekesfehervar - Ferenc Isza/AFP
Diogo Bercito
Madri

O premiê da Hungria, Viktor Orbán, 54, deve vencer as eleições deste domingo (8). Até aí, nada de novo na Országgyulés, a Assembleia Nacional, onde esse populista de direita triunfou também em 2010 e em 2014.

Mas as sondagens preveem uma importante mudança para este ano: Orbán pode perder pela primeira vez a supermaioria de mais de dois terços com que governou nos últimos oito anos, implementando suas políticas sem oposição —no que ele próprio chama de uma “democracia iliberal”.

Ele terá vencido, mas após sofrer uma derrota em termos. Esse cenário já é discutido dentro do partido. O líder de seu grupo parlamentar, Gergely Gulyas, disse recentemente à revista Hetek que a manutenção da supermaioria é “improvável”.

“Nossa meta é formar um governo. Uma centena de assentos é o suficiente”, afirmou. A Assembleia Nacional tem hoje 199 cadeiras, 131 nas mãos do governo.

“Tudo o que vier acima disso será um presente bastante apreciado”, completou Gulyas.

Uma pesquisa do instituto Republikon feita de 10 a 23 de março estima que o partido de Orbán, o Fidesz, de direita, receberá 49% dos votos. O Jobbik, de direita ultranacionalista, chegará a 19%, enquanto o Partido Socialista Húngaro, de centro-esquerda, conquistará 17% do eleitorado.

O levantamento foi feito com mil entrevistados, e a margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.

Ainda cabem surpresas eleitorais, em um país cuja imprensa é controlada pelo governo e onde pesquisas de voto são questionadas.

Analistas começam a notar a exaustão das campanhas contrárias à imigração, tema que foi uma das peças-chave na política de Orbán nos últimos anos.

A possível perda de fôlego de Orbán tem implicações no restante da União Europeia e pode servir de alerta a outros países e partidos populistas com discursos anti-imigração.

Governos como o da Polônia têm seguido o modelo húngaro em uma guinada autoritária que preocupa o restante do bloco. Por isso, seguem o pleito de domingo atentamente.

Eleitores do primeiro-ministro Viktor Orbán assistem comício de encerramento de sua campanha, em Szekesfehervar - Darko Vojinovic/Associated Press

REFUGIADOS

Quando um enorme fluxo de refugiados se dirigiu à Europa, com ápice em 2015, países europeus reagiram de maneiras diferentes.

A Alemanha da chanceler Angela Merkel acolheu quase um milhão de pessoas naquele ano. Orbán, de seu lado, ergueu uma cerca na fronteira sul, monitorada com câmeras infravermelhas. A rota de refugiados foi bloqueada ali.

Nas eleições de agora, o governo espalhou outdoors com dizeres em tom de desafio: “A ONU quer que aceitemos migrantes de forma contínua. A Hungria é que decide, e não a ONU”.

A retórica de Orbán, no entanto, pode ter perdido apelo, em paralelo à diminuição do fluxo de migrantes. Foram 174 mil pedidos de asilo na Hungria em 2015, mas apenas 3.115 em 2017 (uma redução de 98%).

“A imigração ainda é fundamental para a base de Orbán, e por isso ele continua a usá-la na campanha”, afirma o analista András Bíró-Nagy, do influente instituto húngaro Soluções de Política. “Mas essa questão perdeu um pouco a força, e a oposição tem discutido outras visões de futuro para o país, agora com foco em temas como a corrupção.”

Uma empresa outrora controlada por um genro de Orbán foi acusada por autoridades antifraude da União Europeia de apresentar “graves irregularidades”. “A oposição tem se concentrado nisso, em como os oligarcas têm roubado dos fundos europeus”, diz Bíró-Nagy.

São essas acusações que têm sacudido a popularidade de Orbán, ameaçando sua supermaioria. Mas o resultado depende agora, avalia o analista, do quanto a população vai comparecer às urnas —o voto não é obrigatório, e apenas 61% participaram das eleições de 2014.

Há alguns sinais de que o premiê pode realmente perder apoio.

Um deles é a vitória da oposição nas eleições municipais de Hodmezovasarhely, uma fortaleza do Fidesz nos últimos 20 anos. Os partidos oposicionistas conseguiram o feito ao se unir, no que indicou ao governo que sua hegemonia não está garantida.

O premiê húngaro Viktor Orbán encerra campanha, em Szekesfehervar - Attila Volgyi/Xinhua

TRUNFOS

A favor de Orbán, porém, pesa o bom estado da economia húngara. O PIB (Produto Interno Bruto) deve crescer 3,8% neste ano, segundo projeções do Banco Mundial. Já o desemprego estava em 3,9% em novembro de 2017.

Outra vantagem do Fidesz é o fato de que a oposição segue fragmentada e não goza de grande apelo popular.

As siglas que a compõem não ensaiaram nenhum movimento na direção de formar uma frente unida contra o Fidesz, ao contrário do que fizeram na cidade de Hodmezovasarhely —tal aliança teria de incluir o partido nacionalista Jobbik, algo que a esquerda por ora rechaça.

ELEIÇÕES NA HUNGRIA

Populista Viktor Orbán deve garantir quarto mandato

PRINCIPAIS FORÇAS

Fidesz - Liderada pelo premiê Viktor Orbán, essa sigla de direita populista governa desde 2010

Jobbik - Movimento de direita ultranacionalista acusado de ser neonazista e antissemita

MSZP - O social- democrata Partido Socialista Húngaro é herdeiro da sigla que governou de 1956 a 1989

LMP - O LMP (Política Pode Ser Diferente), de Bernadett Szél, tem como foco a política ambiental e o combate à corrupção

POR QUE É IMPORTANTE?

O governo húngaro tem enfrentado as autoridades europeias em Bruxelas e as políticas de países como França e Alemanha. A provável reeleição de Orbán reforça um eixo bastante crítico à União Europeia, uma tendência na região

ASSEMBLEIA NACIONAL

199 membros

106 serão escolhidos diretamente em suas circunscrições

93 serão apontados de maneira proporcional

MIGRAÇÃO

É um dos principais temas eleitorais, apesar de analistas já sugerirem alguma queda de sua importância em relação ao pleito anterior

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