Com discurso em que instrui sucessor, Raúl se torna eminência parda em Cuba

Após posse de Díaz-Canel, seu eleito, general se despede da Presidência sem se afastar do poder

Isabel Fleck
Havana

Em seu discurso de despedida como chefe de Estado cubano, após quase 60 anos de sua família no poder, Raúl Castro, 86, falou três vezes mais que seu sucessor, Míguel Díaz-Canel, 57, dando as diretrizes de como o governo deverá funcionar daqui para a frente e mostrando quem ainda seguirá no comando do país.

Castro sugeriu, por exemplo, que Díaz-Canel o suceda à frente do Partido Comunista Cubano, cargo que o general ocupará até 2021. Também determinou que a Assembleia Nacional crie uma comissão para discutir uma reforma constitucional, a ser apreciada em referendo, mas que não mudaria o “caráter socialista irrevogável” do sistema cubano.

“Quando ele [Díaz-Canel] cumprir seus dois mandatos, se trabalhar bem, deve dar [o poder] ao seu substituto, como está se fazendo aqui”, disse Castro. “Cessados os dez anos de presidência no Conselho, nos três que lhe faltam até o Congresso [do partido comunista], ficaria como primeiro-secretário [do partido] para viabilizar o trânsito seguro e honrando as aprendizagens de seu substituto até que se aposente”, completou.

Castro deixa hoje a presidência do Conselho de Estado, cargo que cabe ao chefe de Estado e de governo da ilha, após dez anos de mandato oficial. Ele, no entanto, havia assumido interinamente a presidência do Conselho já em 2006, quando Fidel Castro adoeceu.    

Agora, ele segue à frente dos postos que têm, na verdade, a palavra final sobre a política em Cuba —as Forças Armadas e o Partido Comunista Cubano. Neste último, seu mandato vai até 2021. “A partir daí, se a minha saúde permitir, serei mais um soldado defendendo, junto ao povo, essa revolução”, disse Castro.

Ao discursar na sessão da Assembleia Nacional nesta quinta (19), Díaz-Canel, que passa a ser a cara oficial do governo cubano dentro e fora do país, deixou claro, no entanto, que as decisões mais importantes seguirão nas mãos de Raúl Castro.

“Afirmo a esta assembleia que o companheiro general do Exército Raúl Castro Ruz, como primeiro secretario do Partido Comunista de Cuba, encabeçará as decisões de maior transcendência para o presente e o futuro da nação”, disse o novo dirigente.

Castro passou boa parte do discurso destacando a biografia de seu sucessor, e elogiou a “solidez ideológica” e a “maturidade” de Díaz-Canel, engenheiro eletrônico que nasceu depois da revolução, mas que, desde os 22 anos, tem ascendido dentro do sistema socialista da ilha.

REFORMA DA CONSTITUIÇÃO

Em sua fala, o general Castro também já ordenou que, na próxima sessão ordinária da Assembleia Nacional —da qual ele é membro— os deputados aprovem uma comissão para elaborar e apresentar um projeto de reforma constitucional, em conformidade com as “transformações na ordem política, econômica e social” em Cuba.

“O Parlamento discutiria [o texto], para logo submetê-lo a consulta popular, e finalmente aprovar o texto definitivo em um referendo”, disse. “É propicia a ocasião para esclarecer que não pretendemos modificar o caráter irrevogável do socialismo em nosso sistema político e social”, completou.

Castro enalteceu pontos de seu mandato, como a permissão para a abertura de alguns tipos de negócios privados, mas ressaltou que também houve efeitos colaterais como “acelerado enriquecimento pessoal” e “manifestações de indisciplina”.

Sem citar diretamente a crise na Venezuela, o comandante disse que é preciso assegurar a entrada de dinheiro no país para “cumprir as obrigações” e, ao mesmo tempo, “garantir os recursos para investir no desenvolvimento dos setores priorizados da economia nacional”.

“Não resta outra alternativa que não planejar bem, e sobre base segura, para suprimir todo gasto não imprescindível, que ainda há bastante”, disse.

“Não nos encontramos em uma situação extrema e dramática, como aquela que o povo cubano soube resistir e superar, sob a direção do partido e de Fidel, nos primeiros anos da década de 90 do século passado, etapa conhecida como período especial. O cenário é muito diferente, contamos com base solida para que isso não se repita, nossa economia se diversificou alguma coisa e cresce”, afirmou.

“No entanto, é dever dos revolucionários se preparar com audácia e inteligência para a pior das variantes, não para a mais cômoda.”

LULA E EUA

Ao falar de política externa, Castro manteve a escalada retórica em relação aos EUA e criticou a prisão do ex-presidente Lula, seu amigo pessoal, no Brasil. 

“[Depois do] golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff, se consumou a prisão arbitrária do companheiro Lula, cuja liberdade reclamamos”, disse o comandante.

“Hoje [Lula está] submetido à prisão política para impedir que ele participe das próximas eleições presidenciais, já que segundo diferentes pesquisas, se houvesse eleições hoje, ninguém poderia ganhar de Lula.”

Sobre os EUA, Castro afirmou que o acordo de reaproximação entre os dois países firmado em 2014 com Barack Obama demonstrou que “apesar das profundas diferenças entre os governos, uma convivência civilizada era possível e proveitosa”.

“O clima político entre os dois países experimentou um avanço inquestionável que trouxe benefício inquestionável para ambos os povos. Só que desde a chegada ao poder do atual presidente, há ocorrido um deliberado retrocesso e permanece um tom agressivo e ameaçador”, disse.

Castro aproveitou então para enviar mais um recado ao governo de Donald Trump: “qualquer estratégia de destruir a revolução pela via da confrontação ou a redução enfrentará o mais decidido rechaço do povo cubano e fracassará”. 
 


 

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