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Melania usa chapéu branco durante visita de Macron para marcar posição

Peça, feita sob medida, manda recado de que a primeira-dama americana tem uma agenda própria

A primeira-dama Melania Trump com seu chapéu durante a visita do presidente francês Emanuel Macron a Washington
A primeira-dama Melania Trump com seu chapéu durante a visita do presidente francês Emanuel Macron a Washington - Brian Snyder - 24.abr.2018/Reuters
Vanessa Friedman
The New York Times

Talvez Melania Trump seja a verdadeira heroína desta história particular.

De que outra forma interpretar sua decisão de usar um severo chapéu branco de aba larga na manhã da terça-feira (24) para receber o presidente francês, Emmanuel Macron, e sua esposa, Brigitte, na chegada deles à Casa Branca no segundo dia de sua visita de Estado aos EUA?

Interpretações diversas foram propostas por comentaristas online. Algumas pessoas enxergaram a influência de Beyoncé (as pessoas enxergam Beyoncé em tudo). Uma usuária do Twitter escreveu: “Não estou querendo fazer pouco caso da @FLOTUS [a primeira-dama], mas por que ela está aqui com cara de Carmen San Diego fazendo o papel de @Beyonce no vídeo de 'Formation'?”

Outras pessoas enxergaram paralelos com Jude Law em “The Young Pope”. Ainda outras pensaram em Olivia Pope, de “Scandal”.

A comparação com o seriado “Scandal” talvez seja a mais instrutiva, se não a mais divertida. Quando Olivia usava seu chapéu branco, que combinava com seus casacos brancos, sempre era para deixar claro que, na realidade, era uma das “mocinhas” da história.

Poderia a lógica ter sido a mesma no caso de Melania Trump?

Afinal, segundo o dicionário Merriam-Webster, uma das definições de “white hat” (chapéu branco) é “uma pessoa admirável e honrada”. O chapéu branco também seria “um sinal ou símbolo de bondade”. Na iconografia do western, os mocinhos usavam chapéus brancos e os bandidos, chapéus pretos. A mesma coisa se vê hoje na comunidade dos hackers.

É possível que Melania Trump não tivesse consciência disso e tivesse simplesmente gostado da ideia do decoro dado pelo uso do chapéu. Só que ela tem um histórico de usar tailleurs brancos para transmitir mensagens que parecem ser bastante pontuais. Basta ver sua decisão de usar branco —cor ligada aos direitos da mulher, na forma do movimento sufragista, e também a Hillary Clinton— no primeiro discurso do Estado da União de seu marido, que, por acaso, foi sua primeira aparição pública importante ao lado dele depois da eclosão do escândalo de Stormy Daniels.

Fomos descobrir que o chapéu que ela ostentou na terça-feira foi feito especialmente para ela a pedido de seu stylist ocasional, Hervé Pierre, para ser usado com o tailleur de Michael Kors que ela vestia. Que, caso alguém esteja se perguntando sobre isso, não foi o mesmo tailleur branco de Michael Kors que ela usou em Israel em sua primeira viagem oficial ao exterior com seu marido, apesar de ser semelhante.

Mas, voltando ao chapéu: não foi um acessório acidental.

A atenção que seria dedicada a cada elemento da primeira visita de Estado da administração Trump, além do simbolismo ligado a tudo, não pode ter passado despercebida nem dos Macron nem dos Trump (considere os detalhes em torno do uso dos conjuntos de louças dos Clinton e dos Bush, dos ingredientes do jantar vindos de uma horta plantada originalmente nos anos da presidência de Obama e do uso de flores de cerejeira como decoração).

Brigitte Macron parece ter encarado a questão simplesmente se atendo a um guarda-roupa (o casaco cor-de-rosa que ela trajava ao descer do avião, o casaco amarelo visto na visita ao palácio Mount Vernon e o vestido e casaco brancos que ela usou na terça-feira) criado pela Louis Vuitton, a grife francesa em que ela parece confiar sempre, desse modo promovendo uma marca francesa e reduzindo o volume de comentários que poderiam ser feitos acerca de suas escolhas.

Mas Melania Trump já vestiu uma abundância de grifes, tanto francesas quanto americanas. No dia antes do tailleur de Michael Kors, por exemplo, ela exibiu uma capa preta de Givenchy, sapatos de Christian Louboutin e uma bolsa preta Dior, todas grifes francesas, acompanhados de um cinto largo da Ralph Lauren, a grife ultra-americana também responsável pelo figurino à moda de Jackie Kennedy pelo qual ela optou no dia da posse de seu marido.

Até agora, tudo muito diplomático e resumido aos dois países em questão na terça-feira. Só que o cinto acompanhou um vestido preto da Dolce & Gabbana, uma grife italiana pela qual Melania demonstra apreço há muito tempo (ela usou um casaco rendado D&G para um encontro com o papa e um tailleur da grife em seu retrato oficial, entre outras ocasiões).

Foi como se, ao mesmo tempo em que reconhecia a necessidade de fazer gestos visíveis de aproximação com outros, Melania ainda quisesse marcar sua própria posição. Ela concorda em moldar-se às exigências de seu papel atual, mas apenas até certo ponto.

De fato, a constante mais perceptível até agora em suas escolhas de figurino, o elemento que as vincula à imagem que ela vem desenhando aos poucos desde que seu marido chegou ao poder, é a etiqueta de preço (alto), a silhueta (simples, ligeiramente militar e com um toque de cobertura protetora) e o fato de que, seja qual for a mensagem que esteja sendo transmitida, ela parece ter sua própria agenda oculta sob a agenda óbvia de Estado.

Tradução de Clara Allain

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