Descrição de chapéu drogas

Explosão do cultivo de coca na Colômbia divide candidatos à Presidência

Direitista Duque planeja destruição química; Petro quer apoio a substituição de cultivos

SYLVIA COLOMBO
Bogotá

Os dois candidatos que foram ao segundo turno da eleição presidencial na Colômbia, a ser realizado no dia 17, têm posições opostas em relação a como domar a crescente expansão da área de cultivo de coca para a produção de cocaína, um dos principais legados negativos do governo de Juan Manuel Santos (2010-2018), como ele mesmo vem admitindo em entrevistas.

Policial corta pés de folha de coca em Tumaco, no sudoeste da Colômbia
Policial corta pés de folha de coca em Tumaco, no sudoeste da Colômbia - Fernando Vergara - 18.abr.18/Associated Press

Enquanto o direitista Iván Duque, 41, favorito nas pesquisas, propõe a volta da fumigação aérea com elementos químicos, suspensa em 2015, e fazer da erradicação algo obrigatório, o segundo colocado, o esquerdista Gustavo Petro, diz que seguirá a política de Santos para não provocar inquietação nas áreas rurais.

Desde que o presidente proibiu o uso dessas substâncias, por considerar, a partir de estudos, que eram cancerígenas e afetavam a população rural, a produção inicialmente duplicou e depois seguiu aumentando, ainda que a níveis menores.

A proposta de Santos foi oferecer aos produtores um programa de substituição de cultivos não obrigatório e fazer erradicação manual nos terrenos em que se tem certeza de que a produção é destinada ao refinamento da droga.

O presidenciável direitista Iván Duque (à esq.) e o ex-guerrilheiro Gustavo Petro, candidato da esquerda no 2º turno da eleição colombiana
O presidenciável direitista Iván Duque (à esq.) e o ex-guerrilheiro Gustavo Petro, candidato da esquerda no 2º turno da eleição colombiana - Henry Romero - 24.mai.18/Reuters

O certo é que a posição de Santos, considerada leve também pelo atual governo dos EUA —Barack Obama era favorável, mas Donald Trump, não—, pode trazer problemas para a implementação do acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). 

Obama havia prometido uma ajuda financeira incondicional nos próximos anos para seguir o programa santista.

Já Trump sugeriu vincular a continuidade da ajuda a uma verdadeira redução da produção de coca. A maioria dos parlamentares republicanos no Congresso dos EUA diz que o apoiaria nessa decisão.
Mas quem produz cocaína na Colômbia, depois que as Farc foram desmobilizadas?

Uma mistura de grupos, formada pelos bandos criminosos, que reúnem ex-paramilitares, ex-guerrilheiros e narcotraficantes, dissidentes das Farc (entre 800 e 1.000 pessoas, segundo o governo), o ELN (Exército de Libertação Nacional, ainda ativo, apesar de estar negociando um acordo de paz) e o Clã do Golfo, cartel que também está em conversas para se dissolver.

“O Estado precisa controlar as áreas rurais se quiser que o futuro da Colômbia seja de desenvolvimento econômico e geopolítico, e isso não tem a ver com uma agenda pró ou contra acordo de paz. É essencial fazer um verdadeiro esforço contra o cultivo de coca destinada à produção de cocaína. É um desafio muito sério e não resolvido”, diz Cynthia Arnson, diretora do programa latino-americano do Wilson Center, dos EUA.

Em 2012, quando começaram as negociações com as Farc, estimava-se que o território destinado ao cultivo de coca era de 78 mil hectares, capazes de produzir 165 toneladas de cocaína. Em 2016, aprovado o acordo, o governo americano calculava haver 188 mil hectares, capazes de produzir 720 toneladas.

Embora não exista uma contagem oficial para 2017, imagina-se que o perímetro pode ter atingido os 230 mil hectares, o que resultaria em 900 toneladas da droga.

As diferenças entre Duque e Petro não param no modo como combater os cultivos. O primeiro não cogita o debate sobre a legalização das drogas, enquanto Petro, com uma visão mais alinhada à de Santos, acredita que é hora de rever as políticas de guerra ao narcotráfico e pensar alternativas, como a experiência uruguaia.

O aumento da produção ilícita e do narcotráfico não está ligado apenas ao fim da fumigação aérea. Com o ocaso dos grandes cartéis (Cali e Medellín) nos anos 1990, o crime organizado colombiano mudou seu modo de atuar. 

Em vez de obedecer a estruturas verticais com um “lorde da droga” à frente, agora opera-se em pequenos cartéis, de estrutura horizontal, portanto mais difíceis de rastrear, segundo estudo da ONG Insight Crime, que monitora a violência e o crime organizado na América Latina.

Outra organização, a Fundação Ideias para a Paz, divulgou um estudo no qual diz que o “Estado não esteve preparado para acompanhar essa transição dos modelos de produção e distribuição”.

A estratégia de Santos, de estimular a erradicação manual, funciona, mas caminha a passos muito lentos. Em 2015, alcançou 13.445 hectares. No ano seguinte, esse número subiu para 17.642 e, no ano passado, para 20.914 hectares.

Segundo um estudo da ONU, a maior parte da produção se concentra nos departamentos (equivalente a províncias) de Cauca, Nariño e Putumayo, regiões em que o Estado e o Exército ainda não conseguiram se estabelecer devido aos bandos criminosos, segundo a Insight Crime.

A droga que chega ao Brasil vem principalmente dos departamentos de Meta e Guaviare, onde a produção é menor, mas escoa por nossas fronteiras e para a Venezuela.

Apesar da seriedade do tema, esse não aparece como prioritário nos debates nem na campanha eleitoral.

“Santos vem propondo muito timidamente uma mudança no modo de encarar o problema, mas nenhum candidato, a essa altura da campanha, quer se arriscar em tocar num assunto delicado como esse, mas que coloca o lugar da Colômbia na América Latina em risco”, diz à Folha o analista político Juan Gabriel Tokatlian.

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