Ortega lança ofensiva contra reduto da oposição na Nicarágua

Moradores da cidade relatam disparos em diversos bairros; acessos são bloqueados

Fabiano Maisonnave
Manágua

Policiais e paramilitares lançaram na manhã desta terça (17) uma grande ofensiva contra a cidade de Masaya, na Nicarágua, principal bastião da onda de protestos contra o regime do presidente Daniel Ortega

Ao menos três pessoas morreram, segundo Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH): um adolescente de 15 anos, uma mulher e um policial.

O foco do ataque foi o bairro de Monimbó, principal reduto dos manifestantes, que se protegem com barricadas e morteiros artesanais. Ao final do dia, os confrontos cessaram, e as forças governistas patrulhavam as ruas da região. 

Todos os acessos à cidade estão bloqueados ou com pontos de controle. Jornalistas e representantes de organizações de direitos humanos não tiveram acesso à zona do conflito. Masaya tem cerca de 160 mil habitantes e está a 30 km de Manágua.

“Forças antimotim e de choque assediam Monimbó! Que o governo da Nicarágua pare este massacre! Por favor, irmãos de Monimbó, salvem as suas vidas!”, escreveu, no início da manhã, o bispo auxiliar de Manágua, Silvio José Baéz. 

“Há disparos por todos os lados, com fuzilaria de diversos calibres, fogo cruzado. Há uma ordem expressa de limpar Monimbó”, disse pela manhã à Folha o repórter-fotográfico Manuel Esquivel, do jornal La Prensa, que mora na região do ataque com a mulher e o filho.

No fim do dia, Esquivel diz que as ruas estavam sob controle do governo, mas que não havia segurança para trabalhar. Durante os protestos, jornalistas tiveram o equipamento confiscado ou danificado por policiais e paramilitares. 

No fim de semana, uma ofensiva contra a mesma cidade deixou um saldo de ao menos 10 mortos, dos quais 4 policiais, segundo a Associação Nicaraguense Pró-Direitos Humanos (ANPDH). A ONG estima que ao menos 360 morreram durante os protestos, que completam três meses nesta semana. 

As marchas começaram contra uma reforma da Previdência que diminuía os benefícios e aumentava contribuições. Diante dos protestos, Ortega recuou, mas a repressão violenta alimentou mais manifestações, desta vez exigindo a renúncia do presidente esquerdista.

A crise mudou a rotina do país. Na capital, Manágua, o comércio fecha mais cedo, e há um toque de recolher informal a partir das 19h, quando as ruas passam a ser patrulhadas por paramilitares. Os turistas, que procuram principalmente as cidades históricas de Granada e León e a costa do Pacífico, desapareceram.

O bairro indígena de Monimbó tem um alto valor simbólico para os sandinistas, liderados por Ortega. Em 1979, o bairro virou refúgio dos guerrilheiros de esquerda antes da bem-sucedida investida final contra a ditadura da família Somoza.

Neste ano, Ortega não conseguiu fazer o tradicional ato comemorativo em Monimbó. A celebração ocorreu na última sexta-feira (13) em outra área de Masaya, sob forte presença policial e com 17 dias de atraso.

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