Separatistas e Exército travam na Ucrânia guerra esquecida pela Europa

Combates que já deixaram 10 mil mortos e 1,5 milhão de refugiados se estendem há quatro anos

Soldado com uniforme de camuflagem verde está sentado em um barracão de madeira em um banco à esquerda. Em frente a ele há um reprodutor de DVD portátil com tela, um fuzil e outras armas penduradas. Ao fundo à esquerda há uniformes camuflados pendurados.
Soldados rebeldes separatistas da República Popular de Donetsk estão estacionados em trincheiras e pontos de combate há mais de três anos. A cerca de 400 metros deste posto avançado, 50 km ao Sul de Donetsk, estão as tropas ucranianas - Yan Boechat/Folhapress
Yan Boechat
Donetsk

Sasha acendeu o cigarro sem prazer. Deu um trago longo, daqueles que se dá para ter certeza de que a brasa ganhou vida própria. Ao ter certeza de que o tabaco queimava, espetou o filtro amarelo na terra fofa da sepultura.

"São meus homens, gostavam de fumar e beber", contou ele ao final de uma rara tarde chuvosa no leste da Ucrânia.

Enquanto passava em revista as covas de soldados mortos recentemente em batalha, emocionava-se. "Esses todos aí eram meus comandados, minha família."

A garrafa de vodka que trazia já tinha dois terços vazia. A cada história de um soldado morto, tomava uma dose —por ele e pelo amigo. Sasha ficava com a maior parte, mas jamais deixou de despejar um ou dois dedos da bebida na terra do deprimente cemitério na periferia de Donetsk.

"Essa guerra não acaba nunca, todo dia alguém está morrendo", dizia, com olhos vermelhos pelo choro contido e pela vodka. "Não aguento mais, essa guerra entrou na minha cabeça, e não sai."

O cemitério fica a pouco menos de 200 km de Rostov, uma das sedes da Copa da Rússia e palco do primeiro jogo do Brasil no mundial.

Fica, também, a poucas centenas de metros das trincheiras. Ali, soldados rebeldes separatistas apoiados pela Rússia lutam contra o Exército ucraniano nesta que é a última guerra da Europa. Já são quatro anos de batalhas, com mais de 10 mil mortos e zero perspectiva de solução.

O sol caía, e os disparos das metralhadoras e dos fuzis se intensificavam. Sasha, ainda que bêbado, decide que já não é mais seguro ficar por ali.

"É melhor sairmos, é durante a noite que as coisas realmente acontecem."

Sasha faz parte de um contingente de cerca de 100 mil homens que estão combatendo no leste da Ucrânia desde abril de 2014, quando rebeldes das províncias de Donetsk e Lugansk, na fronteira com a Rússia, decidiram declarar independência de Kiev.

É uma guerra esquizofrênica, em que nenhum lado avança, mas nenhum para de disparar.

Desde que um cessar-fogo foi declarado em fevereiro de 2015, não há ganhos de território. As duas forças estão entrincheiradas em uma linha imaginária que corta o leste do país de norte a sul por quase 500 km.

Além das milhares de mortes, a Guerra na Ucrânia deixou cerca de 1,5 milhão de refugiados e mais aproximadamente 3,5 milhões de pessoas que necessitam de ajuda externa para continuar vivendo.

A economia praticamente entrou em colapso. Sem ter para onde ir, cerca de 600 mil pessoas, muitas delas idosas, vivem num raio de até 15 km das áreas de combate.

É a maior crise humanitária da Europa.

A história desse conflito tem raízes profundas na história ucraniana e é resultado dos interesses geopolíticos de duas das maiores potências globais: EUA e Rússia.

Alimenta-se ainda hoje de feridas nunca cicatrizadas entre as populações do leste e do oeste da Ucrânia.

A parte oriental ucraniana é majoritariamente russa, tanto étnica quanto culturalmente. No extremo oeste, próximo às fronteiras com a Polônia, a República Tcheca e a Eslováquia, quase ninguém se considera russo, e o ucraniano é a língua majoritária. Esses dois grupos, com visões de mundo bastante distintas, entraram em choque no outono de 2013.

Sob pressão do oeste e da parte mais liberal da sociedade, a Ucrânia iniciou um processo de aproximação com a União Europeia, com vistas a se tornar um país membro do bloco e se integrar à Otan (a aliança militar ocidental).

O movimento acendeu o sinal de alerta na Rússia, que vê a Ucrânia como aliado estratégico e país fundamental em sua esfera de influência. Sob pressão de Moscou, o então presidente ucraniano Victor Yanukovich suspendeu as negociações com a União Europeia no final de 2013.

Kiev entrou em chamas. Protestos violentos se estenderam por quase todo o inverno, até que, em fevereiro de 2014, após as forças oficiais matarem mais de 70 pessoas em um só dia, Yanukovich caiu. Forças políticas ligadas ao oeste do país assumiram o poder. A Rússia reagiu.

Primeiro, anexou a Crimeia. Depois, incitou Lugansk e Donetsk a se rebelarem contra o poder central de Kiev.

Na Segunda Guerra, ucranianos do oeste, oprimidos pela mão de ferro do império soviético, aliaram-se a Adolf Hitler para se libertarem do jugo russo. Lutaram lado a lado com os alemães contra o Exército Vermelho. Mais de 70 anos após o fim da guerra, os ódios e paixões que alimentam este conflito ainda são os mesmos de quando soviéticos e alemães dizimaram 15 milhões de seus próprios cidadãos nestas terras.

O tenente-coronel Valeriy Gudz tem uma bandeira do movimento nacionalista ucraniano, o mesmo que se uniu às forças alemãs nos anos 1940, sobre sua mesa no quartel-general da 24ª Brigada do Exército Ucraniano. Mas rejeita a ligação com o nazismo. "Nosso modelo são os EUA", diz.

Não longe dali, na pequena Adviivka, Oleg, comandante de um batalhão do Exército ucraniano, diz a mesma coisa.

E faz questão de mostrar uma posição de combate a menos de 100 metros das forças rebeldes. Ali ele mandou erguer uma bandeira dos EUA.

"Os russos ficam loucos", diz, aos risos. Mas nas trincheiras, distante dos olhos dos comandantes, não é raro encontrar suásticas ou símbolos da SS pichados.

No outro lado, soldados rebeldes gostam de ostentar a bandeira da União Soviética, fotos do ex-ditador Josef Stálin e, mais raramente, algum busto de Vladimir Lênin.

Em uma posição de combate do lado rebelde, Konstantin Kuzmin, comandante de um batalhão da República Popular de Donetsk, tem certeza de que repete, agora, o destino de seu avô, morto lutando pelo Exército Vermelho aqui mesmo no leste da Ucrânia.

"Estamos lutando a mesma guerra, protegendo nosso povo do fascismo e do nazismo", conta, em uma trincheira que lembra os antigos filmes e fotos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Sasha, o comandante deprimido de Donetsk, já não sabe por que luta. Sua família está no que hoje é Ucrânia. Não a vê há quatro anos. Quando a internet está boa, conversam.

Na cozinha de sua casa, sua mulher prepara chá. O tiroteio recomeça. Misha, seu filho do primeiro casamento, joga em um celular. Uma, duas, três bombas caem não muito distante. O menino, como todos aqui, está acostumado. Nada abala sua concentração no jogo. Só quando um estrondo maior é ouvido, Tatyana manda o garoto para o quarto com um alerta: "Não fique perto das janelas, você sabe o que pode acontecer".

O som cessa. Sasha sorri, meio triste, meio nervoso. "Toda noite é assim. Essa guerra entrou na nossa cabeça e nunca mais vai sair."

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