Descrição de chapéu The New York Times

Acusação ao papa foi arquitetada como vingança por arcebispo

Carta em que pede renúncia de Francisco desatou guerra civil na Igreja Católica

Jason Horowitz
Roma

Às 9h30 da quarta-feira passada (22), o arcebispo Carlo Maria Viganò foi ao apartamento em Roma de um jornalista conservador que cobre o Vaticano. Usava gola clerical simples e um boné de beisebol da liga Rocky Mountain e tinha uma história explosiva para contar.

Ex-diplomata chefe do Vaticano nos EUA, Viganò passou a manhã trabalhando com o jornalista em sua mesa de jantar, redigindo uma carta de 7.000 palavras que pedia a renúncia do papa Francisco, a quem acusava de acobertar abuso sexual e reconfortar uma “ala homossexual” no Vaticano.

O jornalista, Marco Tosatti, disse que revisou o texto. Segundo ele, o arcebispo enfurecido não trouxe provas, mas deu declarações bombásticas, condenando as redes homossexuais na igreja que atuam “com a força dos tentáculos de um polvo” para “estrangular vítimas inocentes e vocações sacerdotais”.

“A poesia do texto é toda dele”, falou Tosatti.

O arcebispo Carlo Maria Viganò - Divulgação

Quando a carta ficou pronta, Viganò se despediu, desligando seu celular. Mantendo seu destino em segredo porque “estava preocupado com sua segurança”, disse Tosatti, o arcebispo então simplesmente “desapareceu”.

Publicada no domingo, a carta desafiou o pontificado de Francisco e abalou a Igreja Católica até o âmago. O papa disse que não a dignificará com uma resposta, mas as acusações desencadearam uma guerra civil ideológica. As rixas e disputas internas do Vaticano geralmente mantidas em segredo deram lugar a um enfrentamento aberto.

A carta expôs conflitos ideológicos profundos, com os conservadores se armando para combater a visão inclusiva de Francisco de uma igreja menos focada sobre questões divisivas como o aborto e a homossexualidade. Mas Viganò –ele próprio acusado de ter obstruído a investigação de erros de conduta sexual no Minnesota— parece estar se vingando por desfeitas antigas.

Como núncio, ou embaixador do Vaticano, nos EUA, Viganò tomou o partido dos guerreiros culturais conservadores e utilizou seu papel na nomeação de bispos novos para instalar conservadores ferrenhos em San Francisco, Denver e Baltimore. Mas foi posto de escanteio após a eleição do papa Francisco.

Em 2015, ele entrou em conflito pessoal com Francisco. A decisão de Viganò de convidar uma crítica ferrenha dos direitos dos gays a saudar o papa em Washington, durante visita de Francisco aos EUA, desafiou diretamente a mensagem de inclusão do papa e desencadeou uma controvérsia que quase dominou a visita pontifical.

Juan Carlos Cruz, uma vítima de abuso sexual com quem Francisco conversou longamente, disse que o papa lhe falou recentemente que Viganò quase sabotou essa visita ao convidar a crítica, Kim Davis, funcionária de um condado no Kentucky que virou “cause célèbre” dos conservadores quando se recusou a dar licenças de casamento a casais homossexuais.

“Eu não sabia quem era aquela mulher, e ele a mandou para lá na surdina para me cumprimentar, e é claro que fizeram toda uma publicidade em torno do caso”, disse Francisco, segundo Cruz.

“Fiquei horrorizado e demiti o núncio”, Cruz se recorda de o papa ter dito.

Agora, três anos depois, Viganò parece estar tentando devolver o favor.

Conhecido por sua ambição e seu temperamento explosivo, Viganò já entrou em conflito com superiores que frustraram sua ascensão na igreja. E exerceu papel chave em alguns dos maiores escândalos do Vaticano nos tempos recentes.

Enquanto Viganò, que no passado chegou a ser criticado por tradicionalistas da igreja por excesso de pragmatismo, se alinhou com um grupo pequeno porém influente de tradicionalistas que há anos procura frear Francisco, muitos de seus críticos pensam que seus ressentimentos pessoais estão entre suas principais motivações.

Depois de um líder da igreja tê-lo transferido do Vaticano para os EUA, frustrando suas esperanças de ser promovido a cardeal, os memorandos particulares de Viganò de 2011, muitos deles profundamente críticos do líder responsável por seu afastamento de Roma, foram vazados e divulgados pelo mundo afora.

Defensores de Viganò, que não respondeu a um pedido de comentários, reagem com irritação à sugestão de que sua carta pedindo a renúncia do papa represente a fúria de um dignitário eclesiástico ofendido. Eles o descrevem como sendo movido por princípios e chocado pelo que vê como sendo a destruição da igreja que ele ama.

Tosatti disse que Viganò lhe explicou que, como arcebispo, sente uma responsabilidade profunda pela igreja e que, como homem de 77 anos, quer ter a consciência limpa para quando sua hora chegar. Mas ele disse que o arcebispo também está enfurecido com um artigo publicado recentemente na imprensa italiana que manifesta apoio a Francisco e critica seu predecessor, Bento 16, e que achou que precisava retaliar.

Viganò conhece bem as rivalidades internas no Vaticano. Em 1998 ele chegou a um cargo central no poderoso gabinete do secretário de Estado do Vaticano. Na carta, ele escreve que suas responsabilidades incluíam supervisionar embaixadores no mundo, mas também “examinar casos delicados, incluindo os relacionados a cardeais e bispos”.

Foi então, ele disse, que Viganò primeiro tomou conhecimento dos abusos cometidos pelo cardeal Theodore McCarrick. Viganò diz que Francisco sabia do histórico desse líder católico americano havia anos e o acobertou.

Em 2009 o então bispo Viganò foi transferido para outro cargo no Vaticano, no qual ele tinha menos influência sobre as políticas do Vaticano mas exercia poder sobre parte de sua receita.

Conhecido como parcimonioso, ele converteu o déficit da Cidade do Vaticano em superávit. Mas seu estilo de gestão intransigente suscitou queixas, e começaram a circular pelo Vaticano e-mails anônimos alegando que ele estaria promovendo de maneira imprópria a carreira de seu sobrinho.

Seu estilo e o rigor com que verificava os contratos do Vaticano também desagradaram a alguns líderes, incluindo o secretário de Estado Tarcisio Bertone, e um artigo anônimo publicado no jornal italiano Il Giornale alegou que ele ambicionava exercer controle sobre os serviços de segurança do Vaticano.

O cardeal Bertone, que Viganò acusou na carta de “favorecer notoriamente a promoção de homossexuais”, o baniu para os EUA.

Ao longo dessa disputa pelo poder, Viganò escreveu apelos urgentes ao papa Bento 16 pedindo para permanecer no Vaticano porque seu irmão, um estudioso bíblico jesuíta, estaria doente e precisaria de cuidados. Ele acusou Bertone de descumprir sua promessa de promovê-lo a cardeal.

Em 2012, quando já estava nos EUA como núncio, ou embaixador, as cartas começaram aparecer em vazamentos que acabaram sendo atribuídos ao mordomo do papa. O escândalo consumiu o Vaticano e levou a reações intensas.

Mas o irmão de Viganò, Lorenzo Viganò, disse a jornalistas italianos que seu irmão havia “mentido” a Bento 16. Disse que vivia em Chicago, que estava bem e que não falava com seu irmão havia anos devido a uma disputa em torno de uma herança.

Viganò conservou seu cargo de embaixador nos EUA após a eleição de Francisco. Mas, na carta publicada no domingo, alegou que o ex-cardeal McCarrick “orquestrou” a seleção de bispos cegados por uma ideologia gay que ele considera ser culpada pela crise dos abusos sexuais.

Entretanto, o próprio Viganò já foi acusado de acobertar erros de conduta. Segundo documentos divulgados como parte de uma investigação criminal sobre a arquidiocese de St. Paul-Minneapolis, em abril de 2014 Viganò ordenou a bispos que arquivassem uma investigação sobre acusações de que o arcebispo John Nienstedt teria cometido erros de conduta sexual com homens adultos e seminaristas adultos.

Prevendo a crítica, Viganò na quarta-feira deu uma declaração a Tosatti negando essas acusações.

Depois de aborrecer Francisco com o episódio envolvendo Kim Davis, Viganò foi chamado de volta a Roma para se explicar. Em um sinal de seu desejo de voltar a Roma permanentemente, ele se negou a abrir mão de seu apartamento no Vaticano. Segundo relatos da mídia italiana nesta semana, depois de afastar Viganò de seu cargo, o papa Francisco também o despejou do apartamento.

Cerca de um mês atrás Tosatti disse que recebeu uma ligação do arcebispo, convidando-o para um encontro em um local discreto. Viganò contou sua história ao repórter, mas não estava preparado para que ela fosse divulgada “on the record”.

Mas com a publicação da notícia de décadas de abusos cometidos por clérigos na Pensilvânia, Tosatti pediu ao arcebispo que fizesse seu relato. Viganò voltou no dia 22 de agosto, desta vez com uma declaração escrita.

Tosatti disse que não viu nenhum documento ou outra prova e que, depois de três horas, eles concluíram a carta.

Tradução de Clara Allain

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