Petição de padre por saída de cardeal na França atrai 100 mil

Philippe Barbarin responde à Justiça por ocultar abusos de menores na Igreja

Lucas Neves
Paris

Um abaixo-assinado pedindo a renúncia de um cardeal francês acusado de acobertar casos de pedofilia envolvendo sacerdotes coletou, em menos de um mês, mais de 104 mil assinaturas. Mas, para além da adesão maciça, chama atenção que um dos idealizadores da petição online seja um padre, o também francês Pierre Vignon, 64.

Na carta que embasa o abaixo-assinado, ele se dirige a Philippe Barbarin, arcebispo de Lyon, em tom inquisitivo. Escreve que não quer ser visto como cúmplice dele e pede, por isso, que o superior entregue seus dois títulos o mais rápido possível.

Padre Vignon é visto de braços cruzados de batina e óculos diante da torre de uma igreja
O padre francês Pierre Vignon diante de sua igreja em Saint-Martin-en-Vercors, sul da França - Pierre Clatot-22.ago.18AFP

“Estamos em um daqueles momentos cruciais em que grandes gestos se impõem”, alega Vignon, para mais adiante ponderar: “Entregar sua demissão [das funções] de cardeal e arcebispo constituiria, sem dúvida, uma morte social. Por outro lado, qual não seria sua elevação de espírito.”

O padre pede em seguida que seus colegas de clero ratifiquem o documento, assim como “todos os membros da Igreja conscientes da importância do mal feito às vítimas de abusos de toda ordem”.

O cardeal é acusado de encobrir abusos sexuais perpetrados pelo padre Bernard Preynat, do fim dos anos 1970 ao começo dos 1990, contra ao menos 70 menores de uma cidade da Grande Lyon. Ele teria ainda ocultado crimes de outros quatro sacerdotes.

Barbarin deve ser julgado em janeiro de 2019. À imprensa francesa, seus assessores dizem que o arcebispo ofereceu sua renúncia em 2016 ao papa Francisco, que a recusou.

Se ele for inocentado, não parecerá injusta a “dura” pública dada por Vignon no fim de agosto? “Respeito a Justiça, mas um cristão precisa realmente da sentença de um tribunal comum para saber qual o seu dever?”, retruca o padre, em entrevista por telefone.

Para ele, o problema é o arcebispo nunca ter acenado para as vítimas. Aos olhos de Vignon, desde que eclodiram as denúncias, Barbarin preferiu adotar “a atitude defensiva de um chefe de empresa, em vez da de um pastor que tenta proteger seu rebanho”.

“Os crimes podem estar prescritos, mas não a dor das vítimas”, diz o padre, lotado há 38 anos na diocese de Valence (a 100 km de Lyon) e morador de Saint-Martin-en-Vercors.

Ali, o telefone de casa começou a tocar uma hora depois de a petição ser publicada online. Logo a praça central se encheu de jornalistas atrás do autor da reprimenda. 

“Não sou um revolucionário, não quero derrubar a Igreja, mesmo lamentando alguns de seus defeitos, como o clericalismo”, afirma. “Mas a experiência mostra que os bispos só agem quando as histórias chegam à mídia. Senão, são só palavras bonitas.” 

E exagera: “É quase como se os jornalistas fossem encarregados por Deus de ajudar a Igreja a fazer a limpeza que ela não faz sozinha”. 

O padre se aproximou das vítimas de abusos cometidos por religiosos ao longo dos anos de trabalho no tribunal eclesiástico interdiocesano, onde atua como conselheiro.

Dois líderes de associações que representam essas pessoas ajudaram a difundir a carta aberta a Barbarin.

Vignon se diz otimista sobre a transformação que a “libertação da palavra” (o acúmulo, ao longo das últimas décadas, de centenas de testemunhos sobre abusos perpetrados por membros do clero) pode ensejar nas fileiras eclesiásticas.

“Essa crise vai permitir que a igreja se desvie do rumo que tradicionalistas tentaram lhe dar nos últimos dez anos do papado de João Paulo 2º e sob Bento 16”, avalia ele. 

“Eles estão perdendo a batalha. Os sucessores dos 12 apóstolos de Cristo precisam aceitar entrar no mundo novo e deixar de se comportar como príncipes do ‘ancien régime’.”

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