Descrição de chapéu Venezuela

Hospital da Venezuela incentiva 'método canguru' com bebês para poupar incubadoras

Maior maternidade do país expandiu sistema de contato pele a pele com recém-nascidos prematuros

Vivian Sequera
Caracas

O maior hospital-maternidade da Venezuela está pedindo que as mães cuidem de bebês prematuros em estado não crítico com o contato pele a pele, conhecido como "método canguru", em vez de usar incubadoras, pois o hospital luta com a falta de equipamento.

No Hospital Concepción Palacios na semana passada, médicos carregavam tutoriais para mostrar às enfermeiras e às mães como segurar os recém-nascidos de encontro ao peito, com a ajuda de um suporte ou um pano.​

Pesquisadores identificaram o método canguru —que ganhou seguidoras em países como os EUA, a Noruega e a Finlândia— como uma maneira de reduzir a mortalidade infantil e melhorar o desenvolvimento de bebês prematuros e abaixo do peso.

Na Venezuela, onde os hospitais públicos enfrentam a falta de medicamentos básicos e a fuga de enfermeiros e médicos para o exterior, depois de cinco anos de crise econômica, o método canguru também pode representar uma maneira de reduzir a pressão sobre os recursos escassos.

Um antigo médico do Concepción Palacios, falando sob a condição do anonimato, disse que o hospital carece de quase todo o material necessário para tratar pacientes, como água, desinfetantes, leitos e consultórios utilizáveis.

O Ministério da Informação da Venezuela não respondeu a um pedido de comentários sobre a falta de equipamentos nos hospitais.

Segundo as últimas estatísticas divulgadas pelo Ministério da Saúde da Venezuela, a mortalidade infantil (de crianças até 2 anos) aumentou 30% em 2016, para 11.466 casos, em relação ao ano anterior.

O relatório citou infecção neonatal, pneumonia, síndrome de dificuldade respiratória e prematuridade como as principais causas.

A pediatra Lide Díaz, coordenadora do programa "Mamãe Canguru" no hospital citado, disse que o novo enfoque para os cuidados pele a pele garante que as incubadoras estejam disponíveis para os bebês em situação crítica.

"Tiramos o bebê da incubadora e o colocamos aqui", disse Díaz, indicando seu peito.

O Concepción Palacios é o único hospital público da Venezuela com o programa canguru, pois os outros não têm condições de oferecer o ano de acompanhamento necessário, explicou Díaz. Os quartos do programa são bem cuidados e têm imagens de cangurus nas paredes.

A agência da ONU para a infância, Unicef, forneceu ao hospital assistência técnica e equipamento médico para avaliar a saúde dos bebês.

"O método canguru salva a vida de bebês prematuros... por isso apoiamos o programa no hospital Concepción Palacios", disse a Unicef em um comunicado de imprensa em setembro.

Chances de sobrevivência

Díaz afirma que aproximadamente 880 bebês prematuros foram tratados com o método canguru desde o início do programa, em 2015, e em setembro deste ano eles começaram a treinar médicos e enfermeiras para expandir o sistema no hospital.

"A experiência foi gratificante. Entendi que era importante para ele sentir meu calor", disse Milagros Márquez, 33, sobre seu filho Sebastián, que nasceu com 33 semanas.

Médicos da Colômbia adotaram o método canguru no final dos anos 1970, em reação à limitação de incubadoras e ao alto índice de mortes de bebês prematuros. Pesquisadores descobriram que os bebês que ficavam junto ao corpo das mães durante várias horas por dia tinham uma probabilidade muito maior de sobreviver.

O método canguru inclui amamentação exclusiva, alta hospitalar precoce e acompanhamento de perto em casa.

Os bebês experimentam os mesmos movimentos que quando estão no útero e são reconfortados pelos batimentos cardíacos da mãe, segundo Nathalie Charpak, pediatra francesa e uma das fundadoras da Fundação Canguru da Colômbia.

"O que mais me impressionou foi a qualidade do sono. É profundo, o bebê não tem esse tipo de sono na incubadora", disse ela em uma entrevista por telefone de Bogotá.

Se a mãe estiver ocupada ou doente, o pai ou um avô ou avó pode substituí-la.

Joel Martínez, professor de 53 anos, passou um mês e meio no Concepción Palacios cuidando de seus dois netos. Sua filha, Cristina, precisou de ajuda depois de se separar do marido durante a gravidez.

Os gêmeos nasceram com 35 semanas de gestação e o menor, Miguel, pesava apenas 1,5 quilo, mas hoje, com oito meses, pesa saudáveis 7,6 quilos.

"No início fiquei nervosa... mas sabia do benefício que teria em longo prazo", disse Martínez.

Reuters

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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