Descrição de chapéu The New York Times

Entenda por que a Califórnia sofre tantos incêndios

Clima seco, mudança climática e atividade humanas estão entre as principais causas

Kendra Pierre-Louis
The New York Times

Uma mulher grávida entrou em trabalho de parto enquanto estava sendo retirada. Vídeos mostraram dezenas de imagens aflitivas de carros percorrendo paisagens em chamas. Nas redes sociais, pessoas divulgavam pedidos de informação sobre o paradeiro de entes queridos. Sobreviventes de um massacre com tiros foram obrigados a fugir das chamas que se aproximavam.

Esta é a realidade da Califórnia desde que o incêndio Camp começou, no início da manhã da quinta-feira (8), queimando uma área de 32 hectares por minuto e devastando a cidade de Paradise, no norte do estado. Mais tarde nesse mesmo dia o incêndio Woolsey começou ao sul, nos condados de Ventura e Los Angeles, levando à evacuação da população inteira de Malibu.

Quais são as características da Califórnia que tornam os incêndios florestais nesse estado tão catastróficas? Há quatro ingredientes principais.

O clima (em processo de mudança)

O primeiro elemento é o clima da Califórnia.

“O fogo é uma coisa muito simples, de certo modo”, disse Park Williams, bioclimatologista do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Columbia. “Desde que as coisas estejam suficientemente secas e que haja uma faísca, essas coisas vão queimar.”

Como ocorre na maior parte do oeste dos Estados Unidos, boa parte da chuva na Califórnia cai no outono e inverno. A vegetação passa o verão secando pouco a pouco devido à ausência de chuva e da temperatura mais alta. A vegetação seca pega fogo com facilidade.

Embora o clima californiano sempre tenha favorecido os incêndios, o vínculo entre mudança climática e incêndios maiores é evidente. “Por trás de tudo isso temos a temperatura, entre dois e três graus Fahrenheit mais quente do que teria estado sem o aquecimento global”, disse Williams. Isso deixa a vegetação ainda mais ressecada, elevando a probabilidade de ela queimar.

O registro oficial dos incêndios na Califórnia começou a ser feito em 1932. Dos dez maiores incêndios ocorridos desde então, nove aconteceram desde 2000, cinco desde 2010 e dois este ano, incluindo o incêndio do Complexo de Montecino, o maior na história do Estado.

“A receita perfeita para um incêndio está presente na Califórnia de praticamente todas as maneiras”, disse Williams. “A natureza cria as condições ideais para incêndios, desde que pessoas estejam presentes para iniciá-los. Mas, de algumas maneiras diferentes, a mudança climática parece também elevar a chance de mais incêndios no futuro.”

As pessoas

Mesmo que as condições sejam apropriadas para um incêndio, é preciso alguma coisa ou alguém que o acenda. Às vezes o gatilho vem da natureza, como um raio, mas com frequência maior a responsabilidade é humana.

“Muitos dos grandes incêndios aos quais estamos assistindo no sul da Califórnia e que impactam áreas habitadas tiveram causa humana”, disse Nina S. Oakley, professora pesquisadora de ciência atmosférica no Instituto de Pesquisas do Deserto.

No ano passado, incêndios mortais no condado de Sonoma e proximidades foram provocados por cabos elétricos derrubados. Este ano, o incêndio Carr, o sexto maior que a Califórnia já sofreu, começou quando o pneu de um caminhão estourou e a roda raspou sobre o asfalto, gerando faíscas.

“A Califórnia tem uma população grande e uma estação seca muito longa”, explicou Williams. “As pessoas sempre criam faíscas possíveis, e, enquanto a estação seca se arrasta e a vegetação fica mais e mais ressecada, as chances de uma faísca ser gerada por uma pessoa na hora errada apenas aumentam. E isso sem levar em conta os casos de incêndio criminal.”

Há outro modo pelo qual as pessoas contribuem para incêndios: pela escolha de onde viver. Cada vez mais pessoas vêm se radicando em áreas próximas a florestas, conhecidas como a interface urbana-florestal, que tendem a queimar.

“Em Nevada temos muitos incêndios de grandes proporções, mas geralmente eles devastam áreas abertas”, disse Oakley. “Normalmente não destroem bairros habitados.”

O combate ao fogo

Parece um contrassenso, mas a história de combate a incêndios florestais nos EUA na realidade vem agravando os incêndios recentes.

“Nos últimos cem anos temos combatido incêndios bastante bem em toda a parte oeste dos Estados Unidos”, disse Williams. “Cada vez que combatemos um incêndio com sucesso, muita vegetação que teria sido consumida pelo fogo é preservada. Assim, ao longo dos últimos cem anos a vegetação se adensou em muitas áreas.

“Por essa razão, em boa parte da Califórnia, onde incêndios começam hoje em dia eles devastam lugares que têm muito mais vegetação a queimar do que haveria se tivéssemos deixado os incêndios arder livremente nos últimos cem anos.”

O Serviço Florestal americanos vem tentando nos últimos anos retificar a prática anterior por meio de queimadas ordenadas, ou “controladas”.

Os ventos de Santa Ana

Todos os anos, no outono, rajadas fortes conhecidas como os ventos de Santa Ana trazem ar seco da área da Grande Bacia do Oeste para o sul da Califórnia, como explicou Fengpeng Sun, professor assistente do departamento de geociências da Universidade do Missouri-Kansas City.

Sun é coautor de um estudo de 2015 que sugere que a Califórnia tem duas estações distintas de incêndios. Uma delas vai de junho a setembro e é motivada por condições climáticas mais secas e quentes. É a estação de incêndios ocidental da qual pensa a maioria das pessoas. Esses incêndios tendem a ocorrer mais no interior, em florestas em altitudes maiores.

Mas Sun e seus coautores também identificaram uma segunda temporada de incêndios que ocorre entre outubro e abril e é provocada pelos ventos de Santa Ana. Esses incêndios tendem a arder três vezes mais rapidamente e a ocorrer mais perto de áreas urbanas. Eles foram responsáveis por 80% das perdas econômicas com incêndios ao longo de duas décadas, começando em 1990.

Não é apenas porque os ventos de Santa Ana ressecam a vegetação, mas também porque transportam brasas de um lugar a outro, levando os incêndios a se alastrar.

Se as chuvas do outono, que geralmente começam em outubro, não começam na época prevista, como foi o caso este ano, os ventos podem ressecar ainda mais uma região que já está seca.

O norte da Califórnia pode receber mais de cinco centímetros de chuva em um mês de outubro mediano, segundo Derek Arndt, chefe do setor de monitoramento do Centro Nacional de Informação Ambiental, que integra a Administração Oceanográfica e Atmosférica Nacional. Este ano algumas áreas receberam menos da metade desse volume.

“Nada disso representa uma seca recorde ou histórica para o mês de outubro”, disse Arndt. “Mas cria condições mais secas que a média histórica.”

Tradução de Clara Allain

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