Descrição de chapéu The New York Times

Deputadas muçulmanas dos EUA são acusadas de antissemitismo por republicanos

Polêmicas expõem divisão dentro do Partido Democrata em relação a posições sobre Israel

A deputada somali-americana Ilhan Omar no Capitólio, em Washington
A deputada somali-americana Ilhan Omar no Capitólio, em Washington - Alex Wong-10.jan.2019/Getty Images/AFP
Sheryl Gay Stolberg
Washington | The New York Times

As deputadas Rashida Tlaib, do Michigan, e Ilhan Omar, de Minnesota, foram saudadas como símbolos de diversidade quando, no mês passado, se tornaram as duas primeiras mulheres muçulmanas a servir no Congresso americano, Tlaib usando o “thobe” palestino bordado à mão de sua mãe e Omar de hijab, rompendo tradições.

Quatro semanas mais tarde, suas posições intransigentes em relação a Israel as converteram nas figuras mais polêmicas da nova maioria democrata na Câmara. Quase diariamente, republicanos acusam Tlaib e Omar de antissemitismo, em um esforço para convertê-las em versões democratas do deputado republicano Steve King (repreendido recentemente pela Câmara por ter aparentemente endossado a supremacia branca) e macular o Partido Democrata inteiro com as críticas delas ao estado judaico.

Enquanto líderes democratas defendem publicamente as duas deputadas, alguns de seus colegas de partido estão claramente perturbados. O deputado Ted Deutch, da Flórida, fundador de uma força-tarefa bipartidária para combater o antissemitismo, disse que algumas das declarações de Omar e Tlaib “coincidem com argumentos antissemitas tradicionais”.

Quando Omar foi nomeada para integrar o Comitê de Relações Externas da Câmara, o deputado de Nova York Eliot Engel, que preside o comitê, lhe disse reservadamente que não vai permitir que algumas das observações “especialmente ofensivas” de Omar sejam “varridas para debaixo do tapete”.

A deputada palestino-americana Rashida Tlaib
A deputada palestino-americana Rashida Tlaib - Alex Wong-9.jan.2019/Getty Images/AFP

A disputa em torno de Tlaib e Omar expôs uma divisão generacional crescente no Partido Democrata, opondo uma velha guarda de defensores ferrenhos de Israel a uma ala ascendente de jovens liberais –entre os quais muitos judeus jovens— dispostos a acusar o governo israelense de violações dos direitos humanos e a exigir movimento em direção a um Estado palestino.

Para o Partido Democrata, há anos o lar político da maioria dos judeus, os riscos são claros –e são visíveis do outro lado do Atlântico. Partidos esquerdistas na Europa cortejam eleitores imigrantes muçulmanos com posições cada vez mais contrárias a Israel, ao mesmo tempo em que a direita populista corteja judeus e se alia ao governo israelense de direita. No Reino Unido, o líder do Partido Trabalhista é acusado de antissemitismo, levando judeus britânicos às ruas de Londres em protesto.

O presidente Donald Trump e republicanos estão procurando identificar as mesmas divisões entre os democratas. Na próxima semana, o Senado deve aprovar facilmente uma legislação que visa coibir o movimento em favor do boicote a Israel –e, de quebra, sufocar novas vozes democratas que o apoiam, como Tlaib e Omar.

A lei proposta permitirá que governos estaduais e locais cortem laços com empresas que participam do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que busca, entre outras coisas, pressionar Israel a acabar com a ocupação da Cisjordânia. Ela tem o apoio de alguns setores que defendem um Estado único com direitos iguais para todos, em lugar de um Estado palestino ao lado de Israel.

Os partidários do BDS, incluindo Tlaib e Omar, argumentam que boicotes econômicos são protegidos pelo direito constitucional à livre expressão. Seus adversários insistem que a verdadeira meta do movimento é destruir Israel como estado judaico. A legislação submetida ao Senado, que conta com apoio considerável do Partido Democrata, está destinada a ser derrotada na Câmara, onde o deputado Hakeem Jeffries, presidente do caucus democrata, a tachou de “manobra política”.

Mas a discussão é mais do que meramente política. Ela é travada na intersecção incômoda de raça, gênero e religião em um Capitólio cuja composição mudou dramaticamente com a chegada de uma classe extraordinariamente diversa de calouros políticos. Aliados de Tlaib e Omar acusam republicanos de bullying e preconceito; dizem que os republicanos estão procurando um “gêmeo” democrata de Steve King.

“Para mim, isto é um ataque islamofóbico contra duas mulheres não brancas que não se deixam calar e estão agitando as coisas com sua defesa corajosa de questões cruciais”, disse Yousef Munayyer, diretor executivo da Campanha Americana pelos Direitos Palestinos.

Segundo ele, os críticos de Tlaib e Omar não reconhecem que “a Palestina está, cada vez mais, tornando-se parte da política progressista em favor da justiça para todos”.

As duas deputadas são criticadas por declarações dadas no Twitter, e, no caso de Tlaib, por seus vínculos com ativistas pelos direitos dos palestinos que utilizam as redes sociais para exprimir ou compartilhar opiniões extremas, como equacionar o sionismo com o nazismo.

As duas se negaram a ser entrevistadas; em vez disso, enviaram declarações por escrito em que manifestaram seu compromisso em combater o ódio de qualquer tipo e, ao mesmo tempo, defender os oprimidos.

“Esse respeito pela livre expressão não equivale a antissemitismo”, escreveu Tlaib, defendendo boicotes econômicos como sendo pacíficos e protegidos pela Constituição. “Sonho com minha avó palestina um dia vivendo com direitos iguais e dignidade humana. Eu nunca deixaria esse sonho ser maculado por qualquer forma de ódio.”

Omar tentou virar o jogo contra os republicanos. “Especialmente agora, um momento em que a violência supremacista branca está em ascensão”, ela escreveu, “todos precisamos condenar o ódio contra qualquer grupo religioso –algo que o presidente atual, vergonhosamente, deixou de fazer.”

Os defensores das deputadas avisam que os críticos delas estão ingressando em terreno perigoso ao colocar no mesmo saco o antissionismo (a hostilidade a Israel como Estado judaico) e o antissemitismo (a hostilidade aos judeus) –uma tendência que Jeremy Ben Ami, presidente do grupo liberal de defesa judaica J Street considerou “inquietante”.

O J Street não endossou Omar e rescindiu seu endosso de Tlaib depois de ela ter se negado a defender publicamente a solução de dois Estados, ou seja, Israel e um Estado palestino existindo lado a lado.

Mesmo assim, Ben Ami disse que as duas deputadas estão “abrindo uma discussão sobre política externa americana que é absolutamente necessária” e ajudando a aproximar o Partido Democrata da visão defendida pelo J Street e “judeus liberais mais jovens” para os quais “é possível se solidarizar com o Estado de Israel e também se solidarizar com a situação do povo palestino”.

Tlaib e Omar fizeram história por serem eleitas. Tlaib, 42, é a primeira palestino-americana no Congresso. Sua avó vive na Cisjordânia. Omar, 36, fugiu da Somália em guerra quando era criança, com sua família, e a é a primeira deputada somali-americana no Capitólio. Os deputados democratas mudaram uma norma que existia havia 181 anos, que proibia os deputados de cobrirem a cabeça, para permitir que ela usasse o hijab.

Advogada e ex-legisladora estadual, Tlaib disse durante sua campanha que votaria “sem dúvida” contra a assistência militar dos EUA a Israel. Ela também disse que está aberta a uma solução do conflito israelo-palestino que crie um Estado único que inclua sob um governo democrático Israel em suas fronteiras de 1948, a Cisjordânia e possivelmente a Faixa de Gaza. É uma posição que alguns setores temem que enfraqueceria Israel como a pátria judaica.

Ela acredita que a solução do conflito israelo-palestino “deveria ser encontrada pelas pessoas que vivem ali, não pelos americanos”, segundo seu gabinete.

Educadora nutricional e ex-legisladora estadual, Omar defende a solução dos dois Estados. “Isto dito”, ela escreveu em sua declaração, “jamais vou me desculpar por me posicionar contra a opressão e a injustiça em Israel ou qualquer outro lugar”.

Quando o Senado começou a discutir seu projeto de lei contra o BDS, no início de janeiro, Tlaib foi ao Twitter. “Eles se esqueceram de qual país representam”, escreveu, aludindo aos defensores da lei no Senado.

O senador Marco Rubio, republicano da Flórida e principal promotor da legislação, retrucou: “Esse discurso sobre ‘dupla lealdade’ é um argumento antissemita típico”.

Deutch, presidente do subcomitê de Relações Exteriores da Câmara para o Oriente Médio, também disse que considerou a declaração de Tlaib inquietante, observando que a ideia de lealdade dupla –de que os judeus seriam mais leais a Israel que aos países em que vivem— equivale a “antissemitismo clássico”.

Tlaib disse que seus comentários não visam os judeus. A legislação contra o BDS foi redigida pelos senadores Marco Rubio e Joe Manchin II, este democrata da Virgínia Ocidental; nenhum dos dois é judeu. Mas Tlaib também é fortemente criticada por conservadores e por algumas organizações judaicas, além da imprensa israelense, por declarações e posts feitos nas redes sociais por alguns de seus seguidores. Em sua declaração, ela considerou a crítica injusta.

Omar vem atraindo críticas intensas por ter defendido, até a semana passada, um tuíte de 2012 em que afirmou: “Israel hipnotizou o mundo. Que Alá desperte o povo e o ajude a enxergar os maus feitos de Israel”. Para Deutch, essa linguagem “soa muito como ‘os judeus controlam o mundo’”.

Na semana passada –e novamente na noite de quinta-feira no “The Daily Show With Trevor Noah”— Omar procurou esclarecer sua posição, dizendo no Twitter que sua declaração de 2012 “foi feita no contexto da guerra de Gaza” e reconhecendo que “sem saber disso eu usei um argumento antissemita tradicional, algo que é lamentável e ofensivo”. Mas Engel disse que teria ficado mais aliviado “se ela tivesse pedido desculpas”.

Omar voltou a causar espécie nesta semana quando comparou Israel ao Irã em entrevista à Yahoo News, ao mesmo tempo criticando uma lei israelense de 2018 que definiu o direito nacional à autodeterminação em Israel como pertencendo apenas aos judeus, na prática rebaixando o status da língua árabe. Ela disse que quando ouve americanos descrevendo Israel como uma democracia, “quase dou risada, porque se fosse qualquer outra sociedade nós a criticaríamos. Fazemos isso com o Irã.”

A lei causou controvérsia também em Israel, mas o braço político republicano na Câmara enviou um email explosivo a jornalistas tendo como tópico “Democratas levam o antissemitismo ao mainstream”. Ao mesmo tempo, líderes republicanos na Câmara estão promovendo uma resolução que condena o antissemitismo e cita Tlaib e Omar nominalmente.

A deputada democrata Pramila Jayapal, de Washington, que criticou fortemente o uso de força por Israel contra manifestantes palestinos, descreveu os ataques republicanos cada vez mais pessoais contra Tlaib e Omar como “totalmente inapropriados” e “nada profissionais”.

“Acho que há muitas pessoas em todo o país que estão profundamente perturbadas com alguns dos problemas reais aos quais estamos assistindo no Oriente Médio”, ela acrescentou.

Tradução de Clara Allain 

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