Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro frustra Netanyahu com escritório em vez de embaixada em Jerusalém

Presidente recua de promessa de campanha para mudar representação diplomática brasileira de Tel Aviv

Daniela Kresch
Tel Aviv

No primeiro dos quatro dias da visita a Israel, Jair Bolsonaro foi recebido neste domingo (31) por Binyamin Netanyahu no aeroporto, gesto raro que o primeiro-ministro israelense ofereceu a apenas outros quatro chefes de Estado em dez anos.

Netanyahu referiu-se a Bolsonaro muitas vezes como “Yair”, nome de seu filho mais velho, e disse que ele encontrará em Israel um povo que ama o Brasil.

Já Bolsonaro chamou o premiê de “prezado irmão”, “capitão”, “paraquedista” e repetiu “ani ohev Israel” (eu amo Israel, em hebraico) três vezes.

Mas a recepção amistosa não mudou o que vinha se desenhando há semanas: Bolsonaro não cumpriu a promessa da campanha presidencial de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, movimento que impulsionaria Netanyahu a nove dias das eleições que vão definir o futuro do líder israelense.

O presidente Jair Bolsonaro troca aperto de mão com o premiê israelense Benjamin Netanyahu em Israel
O presidente Jair Bolsonaro troca aperto de mão com o premiê israelense Benjamin Netanyahu em Israel - Tomer Neuberg/Xinhua

Para frustração do premiê, Bolsonaro anunciou apenas a abertura de um “escritório, em Jerusalém, para promoção do comércio, investimentos e intercâmbio em inovação e tecnologia” —uma repartição sem status diplomático para estimular negócios entre os países.

“Saúdo a decisão de abrir (...) um escritório oficial do governo do Brasil, em Jerusalém”, afirmou Netanyahu. “Espero que este seja o primeiro passo para a abertura da embaixada brasileira em Jerusalém.”  

Nas redes sociais, Bolsonaro escreveu que reconhecia “os vínculos históricos de Jerusalém com a identidade judaica e também que a cidade é o coração político do Estado de Israel”. A frase pode ser considerada morna por quem —como Netanyahu— gostaria de ouvir um Bolsonaro mais contundente, afirmando que Jerusalém é a capital indivisível de Israel.
 

Bolsonaro, pressionado para não afastar os países árabes, grandes importadores da carne brasileira, decidiu recuar, o que não impediu que a Autoridade Palestina condenasse “nos termos mais fortes” a decisão de abrir um escritório de negócios em Jerusalém.

Em comunicado, o Ministério palestino das Relações Exteriores anunciou na noite de domingo que convocará seu embaixador no Brasil para consultas e afirmou considerar o gesto brasileiro “uma violação flagrante da legitimidade e das resoluções internacionais e uma agressão direta ao nosso povo e a seus direitos”.

Em entrevista coletiva neste domingo, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, foi indagado por que Bolsonaro não irá a territórios palestinos durante a passagem por Israel. Segundo o general, não há tempo suficiente para realizar a visita. Um jornalista então citou o ex-presidente Lula, que em 2010 foi a Israel e à Palestina numa viagem com a mesma quantidade de dias da de Bolsonaro. Irritado, Heleno respondeu “não vamos comparar, pelo amor de Deus” e deixou a entrevista..

A proposta de mudar o local da embaixada, porém, contraria a tradição diplomática brasileira de seguir a orientação das Nações Unidas e esperar uma resolução do conflito entre israelenses e palestinos para definir o status de Jerusalém, que ambos os povos clamam como sua capital. 

Atualmente, apenas EUA e Guatemala mudaram suas embaixadas para Jerusalém.

Nesta segunda (1º/4), o primeiro-ministro israelense tentará outra forma ganhar pontos junto a seu eleitorado. Ele acompanhará Bolsonaro no Muro das Lamentações, localizado na parte oriental de Jerusalém, que os palestinos querem como sua capital. 

Ao ir com o premiê ao Muro, Bolsonaro estaria sinalizando que reconhece a soberania de Israel no território, contrariando a comunidade internacional.

Mais cedo, ao desembarcar em Tel Aviv, Bolsonaro celebrou o alinhamento a Israel. “Estivermos separados algum tempo tendo em vista um governo ideologicamente de esquerda, mas nossas origens falaram mais alto”, afirmou, em referência aos governos do PT. “Felizmente retornamos o tratamento equilibrado às questões do Oriente Médio.”

O presidente também mencionou a internação no hospital Albert Einstein, gerido pela comunidade judaica em São Paulo, para se recuperar do atentado a faca que sofreu durante a campanha para as eleições presidenciais, além da equipe israelense enviada para ajudar nos resgates de vítimas em Brumadinho.

O encontro também serviu para a assinatura de acordos de cooperação em seis áreas: energia, ciência e inovação, investimentos, aviação civil, segurança pública e defesa. Em inovação, por exemplo, haverá um programa para atrair startups israelenses ao Brasil e fazer chamadas conjuntas para financiar empreendedores. 

A Petrobras, por sua vez, participará de um leilão para exploração de petróleo e gás em águas israelenses no Mediterrâneo, segundo o ministro de Energia do país, Yuval Steinitz.

Do lado de fora da residência do premiê, onde os líderes jantaram, cerca de 30 pessoas protestaram contra a presença do presidente brasileiro em Israel. 

A manifestação foi organizada pela Associação Pró-LGBT de Israel, ONG israelense em defesa dos direitos dos homossexuais, com apoio de grupos em defesa dos direitos humanos. 


Principais compromissos de Bolsonaro em Israel

Segunda, 1º.abr 
Condecoração da brigada israelense que participou de resgates em Brumadinho
Visita ao Muro das Lamentações

Terça, 2.abr 
Almoço com empresários
Visita ao Yad Vashem, Centro de Memória do Holocausto

Quarta, 3.abr 
Visita à comunidade brasileira na cidade de Raanana 
Retorno ao Brasil

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