Na Crimeia, Putin leva a melhor em conflito ortodoxo contra a Ucrânia

Domínio da Rússia sobre locais de peregrinação serve como trunfo para o presidente

Estátua de são Vladimir, fundador da Igreja Ortodoxa Russa, à frente de porto de reparo de navios de guerra em Sebastopol.
Estátua de são Vladimir, fundador da Igreja Ortodoxa Russa, à frente de porto de reparo de navios de guerra em Sebastopol. - Igor Gielow/Folhapress
Igor Gielow
Sebastopol

O conflito entre Rússia e Ucrânia tem raízes culturais e religiosas profundas, e em poucos lugares Moscou parece levar tanta vantagem na disputa quanto num canto perdido da periferia ao leste de Sebastopol.

Ali, não muito distante de onde os franceses desembarcaram para derrotar os russos na Guerra da Crimeia (1853-56), fica a catedral de São Vladimir, o marco zero da Igreja Ortodoxa em terras eslavas.

Segundo a lenda, foi numa capela grega do então porto comercial de Kersoneso que o príncipe Vladimir, o Grande, se converteu ao cristianismo em 988 —levando junto todos os seus domínios, o chamado Rus de Kiev.

A etimologia mostra a interligação dos atuais rivais.

Rus era um povo de origem nórdica, e Kiev, a hoje capital ucraniana, seu centro de poder. Entre os séculos 9 e 13, dominou uma federação de principados e reinos da Finlândia até o mar Negro.

Rússia e Belarus, herdeiros do Rus como a Ucrânia, tiram seu nome diretamente dos ancestrais.

A cristianização ortodoxa e a introdução do helenismo a partir de uma aliança instável com o Império Bizantino formou a base da cultura na região.

A rivalidade atual é tanta que, no começo do ano, a Ucrânia conseguiu autorização do patriarca de Constantinopla para estabelecer sua própria igreja ortodoxa, separando-se do patriarcado de Moscou —chefiado por Cirilo, aliado de Vladimir Putin.

Isso foi um baque para o presidente russo, que promoveu, em nome da unidade nacional, um forte ressurgimento da Igreja Ortodoxa.

A denominação lidera 150 milhões de fiéis em diversos países, metade do contingente mundial ortodoxo, mas perdeu 30 milhões com o cisma ucraniano, o maior entre igrejas cristãs desde a Reforma Protestante do século 16.

Com a retomada da Crimeia para a Rússia, o Kremlin assumiu total controle sobre o simbólico lugar.

Segundo Pavel, o segurança que controlava o acesso ao sítio arqueológico que abriga a catedral na quarta (13), foram raros os fiéis ucranianos que por lá estiveram desde a anexação—nenhum nos últimos dois anos.

Não que seja um ponto de peregrinação vibrante como Serguiev Posad, um magneto para fiéis ortodoxos perto de Moscou.

Quando a Folha esteve lá, havia tantos visitantes religiosos quanto interessados nas escavações da antiga cidade grega que fizeram aflorar templos e um teatro na encosta. Era pouca gente, menos de 15 pessoas.

“Antes tinha mais gente, russos e ucranianos, mas também muitos turcos”, contou Pavel em inglês titubeante auxiliado por aplicativo de tradução. É possível visitar o sítio por 100 rublos (quase R$ 6).

A catedral conta um pouco da história da região. O templo original virou ruína e foi violado pelos franceses no século 19, fornecendo a desculpa ideal para atrocidades russas nos campos de batalha.

Depois da guerra, uma catedral nova foi erigida, ficando pronta em 1876. Os restos do príncipe que virou santo, contudo, foram mandados para São Petersburgo.

Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas ocuparam a Crimeia de 1942 a 1944, deixando um rastro de destruição que incluiu a igreja.

A oficialmente ateia União Soviética não mexeu com o assunto da restauração, e ela acabou reconstruída em 2001 com o esforço pessoal do presidente ucraniano de então, Leonid Kutchma.

É ele que está ao lado de um ainda jovem —e desconfortável em seu terno de três botões— Vladimir Putin em um retrato da inauguração do prédio, no mural de fotografias da igreja.

Fotos subsequentes de celebrações ecumênicas vão dando lugar àquelas em que o presidente russo já está mais velho e à vontade, como em um registro com calça jeans e camisa branca em 2015.

O agora senhor do lugar tem apreço especial pela Crimeia, que visita com regularidade.

A considera, com razão, o berço da cultura ortodoxa que ele diz defender, assim como seus antecessores da dinastia Románov (1613-1917).

Para tanto e para fazer avançar interesses russos, usa a força militar quando considera necessário, como a Ucrânia (2014) e a Geórgia (2008) bem sabem.

Assim, não deixa de ser simbólico o fato de que a estátua de são Vladimir, ao lado da catedral, olhada por trás, pareça abençoar as docas militares cheias de corvetas logo abaixo, na baía de Karantina.

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