Tártaros da Crimeia revivem pesadelo de avós perseguidos

Minoria expulsa por Stálin em 1944 passa por dificuldades sob gestão russa

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Crimeia

“Minha avó foi levada pelos alemães para um campo de concentração. Depois da guerra, não tinha mais casa e foi enviada para o Uzbequistão. Parece que tudo está acontecendo de novo, só que ao contrário: não consigo sair daqui.” 

O relato é de um taxista, Diliaver Kubedinov, e resume as queixas e os sentimentos da minoria mais vulnerável da Crimeia após o território ter sido anexado pelos russos em 2014: os tártaros.

O grupo étnico muçulmano é descendente dos invasores mongóis que expulsaram, no século 13, os eslavos da região, viraram vassalos dos otomanos e acabaram sendo dominados em 1793 pelo ascendente Império Russo.

A grande tragédia nacional dos tártaros viria em 1944, quando a invasão nazista da Crimeia de dois anos antes foi repelida pelos soviéticos.

Houve colaboração de políticos tártaros com os invasores, que viam nos alemães uma forma de se emancipar do regime comunista.

Mas o ditador Josef Stálin culpou a etnia toda, deportando os 240 mil membros da comunidade para a distante Ásia Central. Talvez 8.000 tenham morrido no processo.

Repúblicas como o Uzbequistão receberam gente como Safie, a avó de Kubedinov, que já tinha sido capturada pelos nazistas e colocada em uma fábrica de trabalhos forçados em Darmstadt.

Depois do fim da guerra, quando foi devolvida à União Soviética, teve de ir para Samarcanda. “Ela tinha aqueles números que a gente acha que só judeus tinham tatuados nos braços”, conta.

Sob a perestroika, a abertura promovida pelo último líder soviético, Mikhail Gorbatchov, os tártaros começaram a voltar, em 1989, à península.

Ela era, então, parte da Ucrânia soviética, que a recebeu como um presente de Nikita Krushchov, que crescera na região, em 1954.

Para a família de Kubedinov, foi uma reviravolta. Todos, avós e os pais, que ainda estão vivos, mudaram-se para a região do balneário de Ialta em 1990, quando ele servia ao Exército soviético em Riga (Letônia).
Fizeram o mesmo caminho cerca de 250 mil pessoas.

Em 1991, ele estava de volta à península a tempo de ver Gorbatchov preso em agosto numa datcha, a casa de campo dos abastados do regime, na costa crimeia.

“Foi logo ali, havia muitos soldados bloqueando o acesso. Mas o golpe da KGB (serviço secreto soviético) durou só três dias, e ele voltou a Moscou”, disse, apontando na estrada entre Ialta e Sebastopol para o balneário de Foros.

Hoje com 47 anos, aparentando algo mais, Kubedinov diz que era feliz sob o domínio ucraniano. Virou tradutor de sueco, que havia aprendido na faculdade, e guia turístico.

“Isso aqui era uma maravilha no verão, cheio de gente. Nunca faltava emprego de março a dezembro e dava para guardar para os meses frios”, conta ele, que fala também tártaro (uma língua próxima do turco), turco, ucraniano, russo e arranha o inglês.

Quando ocorreu o referendo da anexação, em 16 de março de 2014, o horizonte voltou a se turvar. Os tártaros, 12% da população da península, se abstiveram ou votaram contra a reunificação.

Pior, dois de seus líderes foram implicados nas duas mortes de manifestantes ocorridas em 26 de fevereiro.

Akhtem Chigoz e Ilmi Umerov foram julgados culpados, mas um acordo do presidente russo Vladimir Putin e seu colega turco Recep Tayyp Erdogan os levou a um exílio na Turquia em 2018.

“De repente, não tinha mais emprego. Primeiro, não havia turistas. Segundo, eu era tártaro, ninguém me queria. Virei taxista para tentar a sorte”, disse.

Não deu muita. Numa das primeiras corridas, pegou um jovem jornalista de São Petersburgo, interessado em saber como viviam os tártaros.

“Eu falei muito mal do Putin. Só que na verdade ele era um espião do FSB (a agência de segurança interna, principal sucessora da KGB) recolhendo informação, e no dia seguinte eu estava na delegacia”, afirmou.

Ao contrário de 134 outros tártaros, segundo contas da ONG de direitos humanos Memorial, ele não virou um preso político. “Disseram para não falar nunca mais”, disse, para uma certa incredulidade do repórter —que tem fenótipo e prenome russos, logo poderia ser outro espião.

“Está tudo bem, me mostre seu passaporte”, disse Kubedinov com tom monocórdico e sorriso inconvincente parecidos com o do agente soviético vivido por Mark Rylance em “Ponte dos Espiões” (Steven Spielberg, 2015).

O táxi denuncia sua condição. Um amuleto com a mão de Fátima e uma almofadinha com dizeres do Corão estão pendurados no retrovisor. “Não há problema com a religião, nem com o povo. 
É a política”, afirma.

Pode ser, mas uma visita às mesquitas de Ialta e Sebastopol mostra uma realidade alterada. Os fiéis entram e saem com rapidez do prédio, e muitos jovens viram a cara quando abordados.

Um deles, Mustafa, aceitou falar rapidamente com ajuda de um aplicativo de tradução, mas no shopping TTS, que fica a duas quadras da mesquita da rua Kulikova, em Sebastopol.

Ele tem o mesmo prenome de Mustafa Djemilev, o líder do Mejlis —o órgão consultivo dos tártaros, que existiu no pós-Guerra Fria até 2016, quando foi dissolvido e a celebração anual da denúncia do crime de 1944, suspensa.

Proibido de voltar à Crimeia, ele virou protegido do presidente ucraniano e rival de Putin, Petro Porochenko.

“Temos raiva, e muitos amigos meus falam em vingança”, disse o rapaz na casa dos 20 anos. Ele não entra em detalhes, mas daí para chegarmos à palavra jihad (guerra santa) numa região que já viu insurgências islâmicas famosas contra o Império Russo parece ser um perigoso pulo.

Kubedinov não quer nada disso. Só lamenta estar preso à Crimeia, e não expulso dela, embora divida com a avó a sensação de insegurança.

Metade dos cerca de 40 mil donos de documentos ucranianos que deixaram a Crimeia desde 2014 é de tártaros, segundo o Ministério das Relações Exteriores em Kiev.

“Já eu, com meu passaporte russo, não posso ir para a Ucrânia ou para a Suécia. E ele garante a escola e o hospital das minhas filhas”, afirma.

Com dois e sete anos, as garotas estão com sua mulher, de quem ele não fala nem o nome. Ganha cerca de US$ 500 (R$ 1.600), salário compatível com a média da região.

Procurado pela Folha, o governo local não comentou a questão. Oficialmente, afirma que os tártaros sabem de suas culpas, mas que não há revanchismo sobre eventos passados.

E Kubedinov pensa o que do futuro? “Já houve reviravoltas no passado, quem sabe?”.

Erramos: o texto foi alterado

Riga é a capital da Letônia, não da Estônia, cuja capital é Tallin. O texto foi corrigido. 

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