Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Assessor de presidente palestino defende pressão contra Brasil por escritório em Jerusalém

Nabil Shaath diz que interesses brasileiros no mundo árabe são maiores que em Israel

Daniela Kresch
Jerusalém

O veterano político palestino Nabil Shaath, 80, não esconde a frustração com a decisão do presidente Jair Bolsonaro de abrir um escritório comercial em Jerusalém, mesmo não tendo status diplomático.

Assessor para assuntos internacionais do presidente palestino, Mahmoud Abbas, ele defende protestos diplomáticos contra o Brasil e, se não der certo, sanções do mundo árabe contra o país.
 
Para Shaath, o Brasil tem que pensar a longo prazo e não em amizades pessoais entre líderes. E os interesses —principalmente econômicos —  do Brasil estão, segundo ele, como mundo árabe.
 
Nabil Shaath é conhecido como um dos membros da velha guarda da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e do Fatah. Ele foi chanceler da Autoridade Palestina (AP) entre 2003 e 2005 e primeiro-ministro interino em 2005. Na última década, se consolidou como uma das vozes mais influentes na política externa palestina e um dos principais negociadores de paz.

O que o senhor achou de o Brasil anunciar a abertura de um escritório comercial em Jerusalém? Não será uma embaixada nem terá status diplomático. —Certo, mas essa questão do status é uma questão de grau, não da natureza da ação. E a ação é ilegal, é contrária ao Direito Internacional sendo uma embaixada completa, parte de uma embaixada ou uma instituição voltada para comércio.

Tem um status diplomático que viola a resolução do Conselho de Segurança sobre o status de Jerusalém. O presidente Bolsonaro está violando isso. Agora, se é uma grande violação ou uma violação de tamanho médio, não importa. É uma violação.
 
Mas não se trata de uma embaixada e nem de um escritório com status diplomático. É uma repartição de fomento comercial. — Não será um escritório aberto pela Câmara de Comércio do Rio de Janeiro. Será um escritório oficial criado pelo presidente do Brasil. E, portanto, é uma violação.
 
A Palestina chamou de volta seu embaixador no Brasil para consultas. Será essa a única reação à medida de Bolsonaro? — Não, mas devemos começar com protestos diplomáticos. Partiremos para outras ações, dependendo do que o presidente fará. Mas Bolsonaro já veio para cá e visitou o Muro das Lamentações com [o premiê de Israel, Binyamin] Netanyahu, algo que nunca foi feito antes. Quer dizer, não se pode esconder de que lado está.

Trata-se de uma série de eventos projetados para tornar o Brasil, ou o presidente do Brasil, mais próximo da posição de Netanyahu. Isso não aproxima a paz. Apenas consagra a ocupação.
 
Que tipo de medidas a Palestina pode tomar? Pedir o boicote de produtos brasileiros por parte de países árabes é uma delas, por exemplo? —Sim, podemos ir aos nossos amigos árabes e irmãos e aliados. É importante. Mas, antes de pleitear sanções, pedimos a eles que procurem, cada um deles, o governo brasileiro e protestem. Antes de pedirmos sanções, temos de pedir medidas políticas que devem ser tomadas pelos brasileiros, para mostrar o descontentamento e o desacordo árabe com o que o senhor Bolsonaro fez.
 
E se isso não adiantar? — Então, teremos de tomar outras medidas, de acordo com a resolução aprovada recentemente na Tunísia, que requer que medidas sejam tomadas contra os países que estabeleceram suas embaixadas, ou algo como embaixadas, em Jerusalém. Estamos começando com a Hungria, que fez algo parecido com o Brasil.
 
O que o senhor pensa, pessoalmente, da decisão de Bolsonaro? — A questão é por quê? Por que o Brasil não usa seu peso —e o Brasil tem muito peso no mundo– para buscar uma solução real, em vez de apenas agradar o senhor Netanyahu? Por que os judeus não pressionam por um verdadeiro processo de paz? Trata-se de uma questão de interesse. Tenho certeza de que o interesse do Brasil está muito mais no mundo árabe do que nos israelenses.
 
O presidente Bolsonaro afirma que Israel e Brasil compartilham valores. — A questão não pode ser reduzida à amizade entre presidentes. É o interesse do Brasil que importa, não só do senhor Bolsonaro. A longo prazo, o interesse do Brasil, grande exportador para o mundo árabe, com forte relação com o mundo árabe, com envolvimento com o Oriente Médio, incluindo a Arábia Saudita e os países do Golfo, é manter boas relações conosco.
 

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