Descrição de chapéu The New York Times

Os 7 estranhos anos de Assange na Embaixada do Equador

Fundador do WikiLeaks andava de skate pelos corredores e recebia visitantes constantemente

Julian Assange na janela da embaixada do Equador em Londres, em maio de 2017 - Han Yan/Xinhua
Steven Erlanger Nicholas Casey
The New York Times

Ver Julian Assange, barbado e maltrapilho, tentando resistir à prisão enquanto policiais londrinos o arrastavam pela rua, foi um espetáculo que encerrou de forma estranha os sete estranhos anos que ele passou dentro da Embaixada do Equador, onde vivia com seu gato em uma salinha, se definindo como o refugiado político mais famoso do planeta.

Assange, 47, vem há muito tentando se descrever como um cruzado, por conta dos segredos que revelou. A organização de internet que ele fundou, WikiLeaks, publicou vastos arquivos de mensagens do governo americano e emails obtidos por hackers a serviço das agências de espionagem russa, cujo objetivo claro era prejudicar a candidatura presidencial de Hillary Clinton.

Ainda que tenha sido detido na quinta-feira pelas autoridades brit√Ęnicas por viola√ß√£o dos termos de sua fian√ßa, Assange foi imediatamente acusado nos EUA por conspira√ß√£o para invadir computadores do governo.

Para seus simpatizantes, Assange é um mártir e um defensor da liberdade de expressão. Para o governo dos EUA, ele é um pária e um lacaio do Kremlin. Mas o fator mais importante talvez tenha sido a mudança de opinião do governo do Equador.

Ele havia se tornado um hóspede indesejado.

Na pequena embaixada, em um prédio de tijolos vermelhos, ele continuava a dirigir sua organização de internet, concedia entrevistas coletivas de uma sacada, diante de plateias de centenas de admiradores, andava de skate pelos corredores e recebia uma parada constante de visitantes, entre os quais Lady Gaga e Pamela Anderson, supostamente sua amante, que lhe levou sanduíches veganos.

Na quinta-feira, Anderson postou diversas mensagens e chamou o Reino Unido e os EUA de "dem√īnios e mentirosos e ladr√Ķes".

Em entrevistas ao The New York Times em 2016, como parte de um estudo aprofundado sobre suas liga√ß√Ķes com a R√ļssia, Assange negou qualquer v√≠nculo com os servi√ßos de intelig√™ncia russos, especialmente quanto aos emails vazados do Partido Democrata.

Hillary e os democratas estavam "fomentando uma nova histeria sobre a R√ļssia, como a da era de McCarthy", ele disse. "N√£o h√° qualquer 'prova concreta' de que aquilo que o WikiLeaks publica venha de ag√™ncias de intelig√™ncia", ele disse, ainda que ao mesmo tempo tenha indicado que aceitaria alegremente esse tipo de material.

Por menor que fosse o espaço de que ele dispunha na embaixada, que fica perto da luxuosa loja Harrods, Assange parece nunca ter perdido seu desejo de estar sob os holofotes.

Ele tinha um escrit√≥rio equipado com uma cama, uma l√Ęmpada de bronzeamento, um computador, uma pequena √°rea para cozinhar, um chuveiro, uma esteira rolante de gin√°stica e estantes. Tr√™s anos atr√°s, uma pessoa que conhecia o local o definiu como "um posto de gasolina com dois frentistas".

Vaughan Smith, que apoia Assange há muito tempo e contribuiu com dinheiro para sua fiança, disse que que "Julian é um cara grandão, de ossos largos, e ele ocupa toda a sala, física e intelectualmente".

"√Č uma embaixada min√ļscula, com uma varanda min√ļscula", ele acrescentou, "pequena, quente e sem fluxo de ar, e a situa√ß√£o deve ser bem dif√≠cil para todo mundo l√°".

Mas em sua sala, Assange por anos recebeu admiradores e pessoas famosas interessadas em curiosidades, como o astro do futebol francês Eric Cantona e Nigel Farage, um apresentador de rádio que favorece o brexit e foi líder do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip).

Mesmo assim, o isolamento estava sendo desgastante para Assange, disse um amigo na quinta-feira, especialmente os finais de semana longos e solit√°rios em uma embaixada essencialmente vazia da qual ele n√£o podia sair.

Até mesmo seus amigos o descrevem como difícil, um narcisista que se vê como mais importante do que de fato é, e desinteressado em assuntos menores, por exemplo a higiene pessoal.

Ele estava cada vez mais deprimido e pensava em simplesmente sair da embaixada, disse o amigo, que pediu que seu nome n√£o fosse mencionado. E o relacionamento com os anfitri√Ķes tinha se desgastado muito, e chegava a ser hostil.

Uma c√≥pia de uma carta enviada em 2014 por Juan Falconi Puig, ent√£o embaixador equatoriano ao Reino Unido, ao Minist√©rio do Exterior de seu pa√≠s, vista por The New York Times, delineava o crescente ressentimento dos diplomatas com rela√ß√£o a Assange, por conta de seu comportamento na embaixada.

Entre as principais preocupa√ß√Ķes de Falconi estava o pendor de Assange por andar de skate e jogar futebol com seus visitantes. O uso do skate, Falconi afirmou, "estragou pisos, portas e paredes".

A longa presen√ßa de Assange na embaixada, depois que o presidente equatoriano que lhe concedeu asilo foi substitu√≠do, por fim se tornou um fardo pesado demais para o governo do Equador. O presidente Len√≠n Moreno, eleito em 2017, explicou a decis√£o no Twitter e em um v√≠deo.

"Em uma decis√£o soberana, o Equador revogou o asilo concedido a Julian Assange, depois de suas repetidas viola√ß√Ķes das conven√ß√Ķes internacionais e dos protocolos da vida cotidiana", o presidente afirmou.

Moreno acusou Assange de instalar "equipamento eletr√īnico e de distor√ß√£o" proibido, de acessar os arquivos de seguran√ßa da embaixada sem permiss√£o, de bloquear as c√Ęmeras de seguran√ßa da embaixada e de tratar mal os funcion√°rios, incluindo os seguran√ßas.

Em março do ano passado, o governo equatoriano cortou a conexão de internet de Assange, afirmando que ele havia violado um acordo que determinava que parasse de comentar sobre, ou de tentar influenciar, as políticas de outros países.

O governo tamb√©m limitou o n√ļmero de visitantes que ele podia receber e exigiu que ele limpasse seu banheiro e cuidasse de seu gato. Assange ent√£o abriu um processo contra o governo equatoriano, em outubro, afirmando que seus direitos estavam sendo violados.

A editora-chefe do WikiLeaks, Kristin Hrafnsson, acusou em uma entrevista coletiva nesta semana que "espionagem extensa" havia acontecido contra Assange, e que o Equador era parte de um compl√ī para extradit√°-lo aos EUA.

"O que estabelecemos foi que a segurança monitorava todos os seus movimentos e todos os seus encontros com visitantes", disse Hrafnsson. "Também sabemos que existia uma solicitação de entrega dos arquivos de vídeo e de visitantes da embaixada".

"Acreditamos que esses arquivos tenham sido entregues ao governo Trump", ela disse.

Hrafnsson tamb√©m acusou que a espionagem era parte de um compl√ī de extors√£o em valor de tr√™s milh√Ķes de euros contra Assange, envolvendo v√≠deos de sexo.

A pol√≠cia brit√Ęnica deteve Assange na quinta-feira por viola√ß√£o de condicional, depois de sua deten√ß√£o inicial em 2010, que aconteceu a pedido da Su√©cia.

Os suecos queriam interrogar Assange quanto a acusa√ß√Ķes de delitos sexuais e estupro; em junho de 2012, Assange, que j√° temia extradi√ß√£o aos EUA, buscou asilo pol√≠tico na embaixada equatoriana, o que levou seus colaboradores a perder o dinheiro da fian√ßa.

Policiais brit√Ęnicos chegaram √† rua da embaixada √†s 9h15 da quinta-feira, onde o embaixador apresentou a Assange documentos de revoga√ß√£o de seu asilo. Ele n√£o se rendeu facilmente.

Assange resistiu à prisão e teve de ser imobilizado pelos policiais, que se esforçaram por algemá-lo e receberam assistência de outros policiais, que aguardavam fora da embaixada.

"Isso é ilegal. Não vou sair", disse Assange aos policiais, de acordo com o relato feito ao tribunal de Westminster, ao qual ele compareceu mais tarde, com os cabelos grisalhos presos em um coque e os lábios finos visíveis por trás de uma barba longa e branca; ele se comportou com compostura, e usava um terno azul escuro.

Do lado de fora, uma legi√£o de c√Ęmeras estava apontada para uma entrada protegida, e um grupo de manifestantes gritava, desanimadamente: "libertem, libertem, libertem Assange".

Quando Assange se acomodou no tribunal, um simpatizante que usava um casaco fluorescente puído ergueu um polegar na direção dele, da área de espectadores.

Assange voltou a cabeça na direção do sujeito, ergueu o braço e retribuiu a saudação.

Enquanto aguardava a chegada dos advogados, Assange lia um livro que ele ergueu para que a mídia visse: "History of the National Security State" [história do Estado de segurança nacional], de Gore Vidal.

Tradução de Paulo Migliacci

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