Descrição de chapéu The Washington Post

Partido pró-legalização da maconha pode influenciar eleição em Israel

Legenda também defende que israelenses não judeus deixem o país

Moshe Feiglin, líder do partido Zehut, em ato de campanha em Jerusalém
Moshe Feiglin, líder do partido Zehut, em ato de campanha em Jerusalém - Thomas Coex - 4.abr.19/AFP
Ruth Eglash
Tel Aviv | The Washington Post

Ele foi condenado por revolta contra a ordem pública, anos atrás. Devido a seu discurso inflamatório, é proibido de entrar no Reino Unido. Foi expulso do partido Likud no início de 2015.

Mas Moshe Feiglin pode vir a ser o maior sucesso da eleição geral israelense desta semana.

O colono israelense de 56 anos, rejeitado há anos pelo mainstream político devido às suas posições radicais, parece ter tocado a fundo um setor do eleitorado graças a uma mensagem simples e direta: legalizem a maconha.

“A questão da legalização da maconha levou as pessoas a me dar ouvidos”, disse Feiglin ao Washington Post.

Mas o político, que chegou a ser vice-presidente do Parlamento e estava ascendendo os escalões do partido governista Likud até o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu bloquear seu avanço, defende muito mais do que apenas a legalização da maconha.

“Estamos falando de liberdade”, ele disse. “Liberdade e identidade andam de mãos dadas. Não podemos ser livres sem saber quem somos. A partir do momento em que as pessoas compreendem quem são, elas vêm para o Zehut.”

O Zehut é o partido que Feiglin formou em 2015, depois de ser expulso do Likud. Segundo o site do partido, sua plataforma defende um estado judaico e “de liberdade”.

É o libertarismo à moda judaica.

O slogan do Zehut é “Liberdade. Propósito. Identidade judaica.” O partido defende um estado “que amadureça do sionismo da existência ao sionismo do destino” e diz que pretende reduzir a ingerência do governo na vida privada dos cidadãos.

Ele defende o que descreve como livre mercado; a liberdade de escolhas educacionais, culturais e de saúde, o enxugamento do sistema de bem-estar social e uma separação completa entre religião e Estado.

O Zehut, cujo nome significa “identidade”, considera que Israel é um estado judaico com instituições que precisam aderir aos valores judaicos tradicionais e com fronteiras que se estendem “do rio Jordão ao mar Mediterrâneo”.

Como parte da plataforma do partido, cidadãos israelenses não judeus seriam incentivados a emigrar.

Um vídeo de divulgação do partido afirma: “Aqueles que permanecerem e declararem lealdade receberão residência permanente. Os que quiserem ser cidadãos leais e servir o Exército receberão cidadania plena, depois de passar por um extenso processo de verificação”.

O Zehut também quer que Israel afirme seu controle sobre os territórios palestinos da Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

Mas a legalização da maconha parece uma questão estranha para ser abraçada pelo partido.

Inicialmente esse ponto de sua campanha foi fartamente ironizado, especialmente porque parecia improvável que Feiglin e seu partido conseguissem o mínimo necessário de votos para serem representados no Knesset, o Parlamento.

Mas com a eleição se aproximando, o apoio ao Zehut vem crescendo. Um comício recente do partido em Tel Aviv atraiu alguns milhares de eleitores, em sua maioria jovens, vindos de todos os setores da sociedade israelense e de todas as vertentes políticas.

As pesquisas mais recentes indicam que Feiglin pode conquistar até sete vagas no Parlamento, um número expressivo para um partido pequeno que inicialmente foi visto como completamente irrelevante.

“Quando as pessoas verem que propomos uma ideologia que lhes devolve seu país, e não estou falando da perspectiva territorial, mas em termos de livre mercado, livre escolha na educação –quando as pessoas perceberem que nosso partido torna os cidadãos de Israel donos de seu próprio Estado, elas vão olhar para nossa plataforma política inteira com a mente mais aberta”, disse Feiglin.

Seu plano controverso de remover a fundação religiosa islâmica que administra o complexo da mesquita de Al Aqsa, a esplanada elevada que os israelenses chamam de Monte do Templo e que também abriga a Cúpula da Rocha, é, segundo Feiglin, a única maneira de levar paz a Jerusalém. O local é visto como sagrado por judeus, muçulmanos e cristãos.

“É a Wakf no Monte do Templo que está causando tensão”, disse Feiglin, aludindo à fundação islâmica. “Permitir sua permanência eterniza a doença e a agrava. O que estou sugerindo é a abordagem oposta.”

Apesar de sua visão de linha dura, quase messiânica, Feiglin não deixa de ser pragmático. Disse que está disposto a formar uma coalizão “com quem nos oferecer o melhor acordo”.

Em um sistema político como o israelense, em que os partidos raramente conquistam uma maioria suficiente para formar o governo sozinho, as facções menores ganham o poder de decisão.

O Likud, de Netanyahu, e a aliança mais recente Azul e Branco, liderada pelo ex-chefe do Estado-Maior militar Benny Gantz, estão pau a pau nas pesquisas de intenção de voto. Quem emergir com o maior número de votos terá que buscar o apoio de partidos menores para obter o mínimo de 61 cadeiras necessário para formar o governo.

Dan Avnon, diretor do departamento de ciência política da Universidade Hebraica, em Jerusalém, disse que cada ciclo eleitoral em Israel propicia a ascensão de um partido que os eleitores encaram como “renovador”.

Avnon disse que Feiglin começou com uma base “ultramessiânica e nacionalista” pequena e engajada, mas, ao somar à plataforma de seu partido a defesa da legalização da maconha, conseguiu atrair seguidores do Partido Folha Verde, outra facção que propõe a legalização da droga, mas que não está disputando esta eleição.

“Feiglin diz que não fuma, mas incluiu a legalização da maconha em sua plataforma e deu destaque a ela”, disse Avnon. “Agora temos dois grupos de interesses especiais. O que os une é uma forte agenda libertária e anti-Estado que funciona bem para ambos.”

Tradução de Clara Allain

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