Narendra Modi tem vitória avassaladora na Índia e fortalece nacionalismo hindu

Partido do premiê vai ampliar sua maioria no Parlamento, apontam os resultados parciais da eleição

São Paulo e Nova Déli

O premiê Narendra Modi foi reeleito para mais um mandato à frente da Índia, com ampla maioria, segundo os resultados preliminares da apuração do pleito divulgados nesta quinta-feira (23). 

Dados oficiais parciais da Comissão Eleitoral do país mostram que a coalizão de Modi, liderada pelo BJP (Bharatiya Janata Party, ou partido do povo indiano) estava à frente em 350 dos 542 assentos em disputa, segundo dados divulgados por volta das 23h30 em Nova Déli (15h30 em Brasília). O BJP somava, sozinho, 303 cadeiras. 

Apoiadores do partido BJP celebram vitória em Siliguri - Diptendu Dutta/AFP

Para governar, uma coalizão precisa obter ao menos 272 cadeiras na câmara baixa do Parlamento. Na última eleição, em 2014, a aliança de Modi conseguiu 336 assentos.

Em segundo lugar, com 84 assentos, está a principal aliança de oposição, liderada pelo Congresso Nacional Indiano (CNI). A comissão eleitoral não informou o total de votos já apurados.

O líder do CNI, Rahul Gandhi, foi um dos principais derrotados na disputa e perdeu até mesmo seu assento no Parlamento para um aliado do premiê. 

Rahul é o líder do mais importante clã familiar da Índia, conhecido como Nehru–Gandhi. Seu bisavô foi Jawaharlal Nehru, líder da independência, primeiro-ministro por 17 anos e discípulo e herdeiro político de Mahatma Gandhi (que, apesar da coincidência de sobrenomes, não pertence a família Nehru–Gandhi). 

A avó de Rahul (Indira) e seu pai (Rajiv) também ocuparam o cargo de premiê e a esperança dos opositores é que ele conseguisse devolver o comando do país a família. Em vez disso, porém, se viu obrigado a reconhecer a derrota na votação. 

"Quero parabenizar o senhor Modi. Minha luta com o senhor Modi é sobre ideologia. Vamos continuar trabalhando duro e vamos ganhar ao final", afirmou ele.  

"Eu fiz um voto de que nunca responderei insultos feitos a mim, e continuarei a fazer isso. O amor nunca perde. Hoje um novo premiê foi eleito e vamos desejar sorte a ele", acrescentou. 

Dividida em sete fases, esta foi a maior eleição realizada no mundo, com 900 milhões de eleitores, que votaram ao longo de mais de 40 dias.

Modi celebrou a vitória em publicações nas redes sociais e prometeu unir o país. "Juntos nós crescemos. Juntos nós prosperamos. Juntos, vamos construir uma Índia forte e inclusiva. A Índia vence mais uma vez!"

"As pessoas da Índia se tornaram chowkidars [vigilantes] e prestaram um grande serviço à nação. Chowkidar se tornou um símbolo poderoso para proteger a Índia do mal do casteísmo, comunalismo [divisão em etnias], corrupção e nepotismo", publicou em uma rede social.

Pouco depois, o premiê fez um discurso em Déli para correligionários, no qual agradeceu o apoio e disse que só existem duas castas no país. "Os pobres e aqueles que lutam para mudar isso. E precisamos fortalecer as duas", afirmou. 

O premiê da Índia, Narendra Modi, à esq., ao lado de Amit Shah, presidente de seu partido, o BJP, acena para apoiadores em Nova Déli
O premiê da Índia, Narendra Modi, à esq., ao lado de Amit Shah, presidente de seu partido, o BJP, acena para apoiadores em Nova Déli - Money Sharma/AFP

O premiê recebeu felicitações pela vitória dos presidentes da China, Xi Jinping, da Rússia, Vladimir Putin, e do premiê de Israel, Binyamin Netanyahu, e de líderes de países vizinhos como Paquistão e Sri Lanka.

A campanha eleitoral foi considerada agressiva e por vezes violenta, marcada por compartilhamento de notícias falsas e insultos entre os dois candidatos. O primeiro-ministro se apresentou como vigilante da nação e chamou seu rival, Rahul , de "burro" e de "ladrão".

Houve diversos casos de imagens manipuladas, como as que mostravam Ghandi e Modi almoçando com Imran Khan, o primeiro-ministro do Paquistão, país que possui conflitos históricos com a Índia. 

Também houve mortes. Os rebeldes maoístas que se opõem ao estado indiano mataram 15 soldados no estado de Maharashtra, no oeste do país, em 1º de maio.

Segundo Apurv Mishra, pesquisador sênior na India Foundation, continua intacta a maior parte da base de apoio que levou Modi a uma vitória avassaladora em 2014, quando seu partido obteve maioria sem precisar de aliança com nenhum outro partido.

 

"Modi desafiou as regras não escritas da política indiana de que os eleitores só votam segundo suas castas. As pessoas votaram devido à personalidade dele e sua proposta de desenvolvimento do país", disse à Folha. "A ênfase em segurança nacional, patriotismo e uma nova Índia continua atraindo muitos eleitores.”

O primeiro-ministro conseguiu turbinar sua popularidade com recentes atritos com o Paquistão na Caxemira. A disputa pela região remonta à época da partição da Índia pós-independência, em 1947.

As Forças Armadas indianas enfrentaram o país vizinho no início do ano, o que gerou uma onda de fervor patriótico.

Linchamentos de muçulmanos e membros da casta baixa dalit por comer carne aumentaram durante o mandato de Modi, fazendo com que parte dos 170 milhões de muçulmanos do país se sentissem ameaçados e ansiosos sobre seu futuro. 

Entre o setor empresarial, parte dos apoiadores de Modi está decepcionada com o que considera um desempenho abaixo das expectativas.

Seu governo não conseguiu criar empregos suficientes para os milhões de indianos que entram no mercado de trabalho a cada mês. Embora não haja estatísticas confiáveis, a percepção de que o desemprego está aumentando é generalizada.

Houve também uma inesperada “desmonetização” —retirada de notas para coibir a informalidade—, em 2016, que causou enormes problemas para as famílias. A criação de um imposto sobre bens e serviços, embora necessário, teve implementação atabalhoada.

Outra questão delicada é a crise no campo. As políticas do governo para controle da inflação levaram os preços dos principais produtos agrícolas a despencar, sufocando agricultores, um eleitorado precioso no país ainda 66% rural. ​

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