Governo dos EUA tenta convencer congressistas de laços entre Irã e Al Qaeda

Legisladores temem que relação com grupo terrorista seja usada para justificar guerra contra país

Washington | The New York Times

Autoridades do governo dos Estados Unidos estão dizendo a congressistas sobre o que dizem ser laços entre Irã e Al Qaeda, provocando reações céticas e preocupações de que a Casa Branca possa invocar a autorização de guerra aprovada em 2001 como justificativa legal para uma ação militar contra Teerã.

Com o aumento das tensões entre os dois países, o secretário de Estado, Mike Pompeo, e autoridades do Pentágono falaram a congressistas e assessores nas últimas semanas sobre o que, segundo eles, é um padrão de ligações com o grupo terrorista que remontam ao período após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Eles praticamente disseram aos legisladores que a autorização para uso da força militar dada pelo Congresso em 2001, que permite aos Estados Unidos fazer guerra contra a Al Qaeda e seus aliados ou ramificações, autorizaria o governo de Donald Trump a declarar guerra ao Irã.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, durante audiência no Senado, em Washington
O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, durante audiência no Senado, em Washington - Zach Gibson - 11.jun.19/Getty Images/AFP

O presidente Trump disse que não quer uma guerra, mas enviou mais 2.500 soldados à região no mês passado, em resposta ao que autoridades americanas disseram ser uma ameaça maior.

Nas últimas semanas, quando questionado por legisladores e jornalistas se o governo usaria a autorização de 2001, Pompeo evitou responder.

"Eles estão tentando iniciar uma discussão para permitir que o presidente faça o que quiser sem pedir [autorização] ao Congresso, e acreditam que a autorização de 2001 lhes permitirá entrar em guerra com o Irã", disse o senador democrata Tim Kaine, da Virgínia. 

Kaine, membro das comissões de Serviços Armados e de Relações Exteriores, recusou-se a discutir detalhes de informações confidenciais, mas disse que altos funcionários do governo "falaram sobre o Irã oferecer abrigo seguro para a Al Qaeda".

Pompeo, formado na academia militar de West Point e ex-diretor da CIA, visitou o Comando Central dos EUA na Flórida na terça-feira (18) para falar sobre o Irã com os comandantes militares, enquanto o agora ex-secretário da Defesa, Patrick M. Shanahan, anunciava sua renúncia.

Em um briefing confidencial que Pompeo fez com funcionários do Pentágono em 21 de maio para o plenário da Câmara, "ele discutiu a relação entre o Irã e a Al Qaeda", disse a deputada democrata Elissa Slotkin, de Michigan.

Segundo ela, o discurso de Pompeo sobre essa ligação e sua recusa a responder perguntas sobre o potencial uso da autorização de 2001 "levanta o espectro de que, para ele, a relação entre Irã e Al Qaeda confere essa autoridade ao governo".

O assunto foi tratado diretamente em uma audiência da Câmara na quarta-feira pelo deputado democrata Ted Deutch, da Flórida. 

Deutch perguntou a Brian Hook, representante especial do Departamento de Estado sobre o Irã, se o governo estava se preparando para dizer ao Congresso que tinha aprovação para entrar em guerra com o Irã sob a autorização de 2001, devido aos laços entre Teerã e Al Qaeda.

Hook respondeu que o Congresso deveria pedir uma opinião ao consultor jurídico do departamento.

"Faremos tudo o que tivermos de fazer com relação aos poderes de guerra do Congresso, e cumpriremos a lei", disse.

O Irã é um país de maioria muçulmana xiita, enquanto a Al Qaeda é um grupo radical sunita, cujos membros geralmente consideram xiitas traidores.

Os dois lutaram frequentemente em lados opostos dos conflitos regionais, incluindo a guerra na Síria.

Qualquer relacionamento entre o Irã e a Al Qaeda é de conveniência e não uma aliança real, segundo autoridades atuais e anteriores dos Estados Unidos, e não há evidência pública de que Teerã tenha permitido que agentes da Al Qaeda planejassem ataques aos Estados Unidos a partir de deu território, ou oferecido abrigo para um grande número de combatentes.

Os legisladores desconfiam de autoridades que usam as ligações entre o Irã e a Al Qaeda como pretexto para uma guerra, uma vez que o governo do presidente George W. Bush falou sobre um relacionamento entre Saddam Hussein e Al Qaeda em 2002 para justificar a invasão ao Iraque. Nunca houve laços estreitos entre os dois.

A questão sobre se Trump pode atacar o Irã se intensificou desde o início de maio, quando a Casa Branca anunciou movimentos militares devido ao que autoridades americanas disseram ser uma nova informação mostrando ameaças aos interesses dos EUA por parte do Irã ou de milícias aliadas.

Trump anunciou então o envio de mais 1.500 soldados ao Oriente Médio, e na segunda-feira (17) disse que estava enviando mais mil.

O governo culpou o Irã por dois ataques a navios petroleiros. Autoridades iranianas disseram no começo da semana que o país atingirá em breve os limites de enriquecimento de urânio definidos por um acordo nuclear de 2015, do qual Trump se retirou há mais de um ano.

A possibilidade de guerra contra o Irã revigorou os esforços dos legisladores democratas e republicanos para limitar os poderes de guerra do presidente.

Na terça-feira (18), dois senadores republicanos, Rand Paul, de Kentucky, e Mike Lee, de Utah, uniram-se a Kaine e a outros três senadores para enviar uma carta a Trump dizendo que "o Congresso não autorizou a guerra com o Irã e nenhuma autoridade estatutária atual permite que os EUA conduzam hostilidades contra o governo do Irã".

Numa audiência em uma comissão do Senado em abril, Paul pressionou Pompeo a declarar que o governo não usaria a autorização de 2001 para entrar em guerra com o Irã. 

Pompeo disse que prefere "deixar isso para os advogados" e depois enfatizou os laços entre Al Qaeda e  Irã: "Não há dúvida de que há uma conexão. Ponto final".

No domingo (16), o secretário de Estado se recusou a responder quando lhe perguntaram três vezes no programa "Face the Nation", da CBS News, se o governo tinha autoridade legal para atacar o Irã.

Em sua apresentação em 21 de maio para a Câmara, Pompeo deu mais detalhes sobre as ligações da Al Qaeda, disseram Slotkin e outros legisladores.

O deputado republicano Matt Gaetz, da Flórida, aliado de Trump, disse em audiência da comissão na semana passada que funcionários do governo fizeram comentários no briefing de maio que apontavam para a ideia de que a autorização de 2001 permitiria "hostilidades contra o Irã".

Em entrevista coletiva em 13 de junho, na qual ele listou recentes ataques "instigados" pelo Irã, Pompeo mencionou um atentado suicida em Cabul que matou quatro civis e feriu quatro militares dos EUA e alguns civis próximos.

Foi a primeira vez que uma autoridade dos EUA disse que o Irã estava por trás do ataque, que visou um comboio dos EUA, apesar de o Taleban ter reivindicado a responsabilidade.

O Irã geralmente não ordena ataques contra americanos no Afeganistão, e analistas e legisladores —incluindo Deutch na quarta-feira— questionaram por que Pompeo está tentando fazer a ligação agora.

Depois dos ataques de 11 de Setembro e antes que as forças americanas bombardeassem o Afeganistão, mais de uma dúzia de membros da Al Qaeda fugiram para o Irã.

As circunstâncias em que viviam lá eram obscuras, mas alguns altos funcionários foram aparentemente detidos pelo Irã e depois negociados em uma suposta troca de prisioneiros com uma filial da Al Qaeda no Iêmen. 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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