Descrição de chapéu The Washington Post

Livro revela que ex-primeira-dama dos EUA teve relacionamento com outra mulher

Obra traz cartas que Rose Cleveland escreveu para a amante; dupla ficou junta até a morte

Gillian Brockell
The Washington Post

No verão de 1910, Evangeline Simpson Whipple disse à sua governanta para não mudar nada na casa durante sua ausência. A rica viúva ia viajar, mas voltaria em breve, segundo afirmou.

Ela nunca voltou. Quando morreu, em 1930, foi enterrada a seu pedido na Itália, ao lado do amor de sua vida —uma mulher com quem teve um relacionamento que durou quase 30 anos. Aquela mulher, Rose Cleveland, tinha servido como primeira-dama dos Estados Unidos.

As cartas, preservadas pela governanta da casa de Evangeline em Minnesota, foram reunidas em um novo livro, "Precious and Adored: The Love Letters of Rose Cleveland and Evangeline Simpson Whipple" (Preciosas e adoradas: as cartas de amor de Rose Cleveland e Evangeline Simpson Whipple), e deixam claro que elas foram mais que meras amigas, segundo os editores.

Quando Grover Cleveland assumiu a Presidência, em 1885, era um solteiro de 50 anos, fato que quase arruinou sua campanha quando surgiram rumores de que ele tinha um filho fora do casamento (o que era verdade).

O protocolo para presidentes solteiros ou viúvos mandava que uma parente desempenhasse o papel de primeira-dama. Entrou em cena sua irmã Rose.

Ela era vista como um importante contrapeso à escandalosa bagagem de seu irmão: era respeitável, bem educada, ex-professora em um seminário feminino e autora de livros sérios.

Seu mandato como primeira-dama, no entanto, foi misto, de acordo com a Biblioteca Nacional das Primeiras-Damas. Seu livro de ensaios "Poesia de George Eliot" tornou-se um campeão de vendas devido à autora famosa, mas ela estava frustrada com a análise pública de seus decotes e a proibição de ir a jantares privados ou mercados públicos.

Catorze meses depois, Rose foi dispensada de seus deveres quando o presidente se casou com uma aluna de 21 anos, Frances Folsom. Rose retornou à propriedade da família, apelidada de "The Weeds" [os matos], no interior de Nova York.

Rose conheceu Evangeline Simpson no inverno de 1889-1890, menos de um ano depois que seu irmão deixou o cargo pela primeira vez (Cleveland é o único presidente americano com dois mandatos que não os cumpriu em sequência).

Elas provavelmente se conheceram na Flórida, onde ambas passavam o verão fazendo a ronda entre as famílias mais ricas do país. Rose tinha 43 anos e nunca havia se casado. Evangeline tinha provavelmente 33 e herdara uma fortuna de um falecido marido quase cinco décadas mais velho que ela.

As cartas de amor começam em abril de 1890, quando as duas voltaram para suas respectivas casas (Evangeline morava em Massachusetts).

Rose escreve: "Minha Eve! Ah, como eu amo você! Fico paralisada... Oh, Eve, Eve, certamente você não percebe o que é para mim. O que você deve ser. Sim, eu ouso, agora não terei mais medo de reivindicá-la. Você é minha por todos os sinais na Terra e no Céu, por todos os sinais em alma, espírito e corpo —e você não pode me escapar. Você deve me suportar por todo o caminho, Eve..."

Então, em maio: "Você é minha, eu sou sua, e nós somos uma, e nossas vidas são uma daqui em diante, por favor, Deus, o único que pode nos separar. Sou corajosa para dizer isto, rezar e viver para isso. Sou muito ousada, Eve —​diga-me? (...)Vou para a cama, Eve— com suas cartas debaixo do meu travesseiro".

Como apenas as cartas de Rose sobreviveram, pouco sabemos sobre como Evangeline respondia. Mas em algumas ocasiões Rose cita as cartas de Evangeline nas suas próprias: "Oh querida, venha a mim esta noite —minha Clevy, minha Viking, minha... Tudo, venha! Deus te abençoe". Rose graciosamente respondeu: "Sua Viking a beija!"

Rose lutava para dar um nome ao relacionamento —"Não consigo encontrar as palavras para falar sobre isso", "a palavra certa não será dita".

De fato, não havia uma palavra para uma relação entre mulheres na época. A palavra "lésbica" existia, mas apenas em referência à poeta grega Safo.

"Foi antes de haver um conceito de orientação sexual como conhecemos hoje", disse Lizzie Ehrenhalt, co-editora do livro. "Isso realmente estava sendo inventado na época em que elas escreviam as cartas, na década de 1890, porque foi quando começou a sexologia como campo."

O conceito de "amizade romântica" era popular entre as mulheres da época; eram amizades emocional e intelectualmente íntimas, embora não necessariamente sexuais, disse Ehrenhalt. "Isso criava uma espécie de bolha de liberdade" para as mulheres, particularmente as brancas e ricas, terem "relações mais ou menos abertas umas com as outras", explicou ela.

O relacionamento de Rose e Evangeline era sem dúvida sexual, além de amoroso e íntimo, segundo Ehrenhalt. Uma carta descreve "longos e arrebatadores abraços" que "nos transportam em união ao ápice da alegria, o fim da busca, o objetivo do amor!"

Rose e Evangeline imploravam uma à outra por visitas prolongadas a suas propriedades. Elas se davam nomes de animais de estimação —"Clevy" e "Wingie", e os um tanto estranhos "Granny" [Vovó] e "Granchile", que parecem ter sido uma piada interna sobre sua diferença de idade, de dez anos.

Elas passaram férias juntas na Europa e no Oriente Médio. Compraram propriedades juntas na Flórida. Elas não esconderam o relacionamento das famílias, e parece que foi aceito. Rose até escreveu para a mãe de Evangeline sobre o amor que tinha por sua filha.

Tudo continuou assim por seis anos. E então, veio a traição.

Em 1896, Evangeline chocou seus amigos e familiares quando anunciou que estava noiva do bispo Henry Whipple, um popular pregador episcopal de Minnesota, 34 anos mais velho que ela.

Há todos os indícios de que tinha sentimentos reais pelo bispo. Ela escreveu sobre seu afeto por ele em seu diário, não precisava do dinheiro que o casamento traria e, aos 40 anos no século 19, provavelmente já tinha passado da idade fértil.

Rose não reagiu bem às notícias do noivado. Ela implorou a Evangeline que reconsiderasse, escrevendo: "Não acho que você precise de mim agora. Mas suponho que considerará o que eu disse nesta manhã. Deixarei tudo para você se você tentar mais uma vez se satisfazer comigo. Não poderia tirar seis meses para essa experiência? Nós nos afastaríamos de todos".

Evangeline se casou com o bispo em 22 de outubro de 1896. Três semanas depois, Rose partiu para a Europa com uma amiga —não se sabe qual relacionamento entre as duas. Ela não voltaria aos EUA por três anos.

Rose continuou escrevendo cartas para Evangeline, mas a intimidade se transforma em pouco mais que um diário de viagem. Ela para de chamar Evangeline de "Vovó" e, em vez de "Granchile", assina suas cartas com o "R.E.C." mais formal —Rose Elizabeth Cleveland.

O bispo morreu em sua casa em Minnesota em 16 de setembro de 1901. Logo depois, as cartas de Rose endereçadas à "Vovó" recomeçaram.

Ao longo dos nove anos seguintes, as cartas de Rose e Evangeline assumiram um novo caráter, longe da paixão selvagem, às vezes obsessiva, do amor precoce, em direção a uma ternura constante. Evangeline continuou morando em Minnesota, mas as estadias prolongadas nas respectivas casas foram retomadas.

Em 1909, Rose estava com cerca de 65 anos e ficando um pouco cansada das idas e vindas. "Preciso de você, e a vida não é longa o suficiente para esperar sempre", disse ela a Evangeline.

No ano seguinte, o irmão de Evangeline ficou gravemente doente enquanto morava na Itália. Ela e Rose correram para o lado dele, compartilhando uma cabine do navio na travessia do Atlântico.

Mesmo depois da morte dele, dois anos depois, Rose e Evangeline continuaram morando juntas, finalmente como verdadeiras companheiras, na aldeia toscana de Bagni di Lucca.

"Eu acho que elas associaram a Itália a uma espécie de ideia romântica de liberdade para amar, liberdade para ter um relacionamento sem que as pessoas interferissem", disse Ehrenhalt.

Quando a Primeira Guerra Mundial começou, em 1914, Rose e Evangeline não só ficaram em Bagni di Lucca, como também organizaram e financiaram ações de ajuda, particularmente para os refugiados que inundaram a Toscana em 1917.

Então veio a epidemia de gripe espanhola. Enquanto cuidava de uma amiga doente, Rose pegou o vírus. Ela morreu em 22 de novembro de 1918, aos 72.

Evangeline escreveu para a filha do bispo sobre sua desolação: "A luz se apagou para mim. (...) A perda desta nobre e grande alma é um golpe do qual não vou me recuperar". Evangeline viveu mais 12 anos. Ela escreveu um livro sobre a Toscana e o dedicou a Rose. Morreu de pneumonia e insuficiência renal em Londres em 1930.

Em 1969, uma descendente do bispo Whipple doou uma coleção de documentos familiares à Sociedade Histórica de Minnesota. É duvidoso que ela soubesse de todo o conteúdo das caixas que deu.

Quando a equipe descobriu as cartas de amor, um memorando advertiu que algumas das cartas "sugerem fortemente que existia uma relação lésbica entre as duas mulheres" e deveriam ser escondidas do público.

Essa proibição foi suspensa após reclamações em 1978. Os historiadores mencionaram as cartas ao longo dos anos, mas uma coletânea completa nunca fora publicada, até o livro de Ehrenhalt e Tilly Laskey.

"Houve mulheres amando outras mulheres em todos os períodos da história", disse Ehrenhalt.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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