Corpos do pior naufrágio do ano no Mediterrâneo são recuperados na Líbia

Mais de 100 migrantes desapareceram após barco de madeira afundar na quinta

Trípoli | AFP

Os corpos de 62 migrantes vítimas do pior naufrágio no mar Mediterrâneo neste ano, segundo a ONU, foram recuperados nesta sexta-feira (26) na Líbia.

A embarcação naufragou na madrugada de quinta-feira perto da costa da cidade de Khoms

Não se sabe exatamente quantas pessoas havia no barco --as cifras mudam conforme a fonte.

 

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), cerca de 145 pessoas foram resgatadas e 110 continuam desaparecidas ao longo da costa da Líbia, país que vive uma situação caótica desde 2011.

A Marinha líbia falou de 134 corpos resgatados e 115 desaparecidos.

A ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Líbia estima que cerca de 400 pessoas estavam a bordo. 

"Vamos continuar com as operações para recuperar os corpos devolvidos pelo mar nesta noite e de manhã”, disse Abdel Moneim Abu Sbeih, da organização do Crescente Vermelho na Líbia, acrescentando que é “impossível” dizer um número total de vítimas.

As autoridades de Khoms, cidade a 120 quilômetros de Trípoli e de onde saíram os migrantes, enfrentam problemas com procedimentos jurídicos e até para encontrar onde enterrar os corpos, declarou uma fonte da prefeitura.

A ONU considerou essa tragédia a pior do mar Mediterrâneo desde o início do ano.

"Precisamos de rotas seguras e legais para os migrantes e refugiados. Cada migrante que busca uma vida melhor merece segurança e dignidade", escreveu no Twitter o secretário-geral das Nações Unidas, Antonio Guterres, que se disse "horrorizado".

O naufrágio é uma “recordação terrível” dos riscos que enfrentam os migrantes que querem abandonar a Líbia para se dirigir à Europa, afirmou nesta sexta a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini.

Segundo o Alto Comissariado para os Refugiados (Acnur) e a OIM, ao menos 426 pessoas morreram desde o início do ano atravessando o Mediterrâneo, que se tornou a  rota marítima mais mortífera do mundo.

De acordo com o porta-voz da Marinha líbia, general Ayub Kacem, a embarcação era "de madeira".

Os migrantes socorridos são na maioria eritreus, mas também há palestinos e sudaneses, acrescentou em um comunicado.

Perto de Khoms, cerca de 30 pessoas resgatadas esperam em silêncio em um refúgio aberto com chão de cimento.

Menos de duas horas depois de sair na quarta à noite, a embarcação se encheu de água e o motor parou, relataram. "Permanecemos na água por seis a sete horas", explicou um dos sobreviventes, que disse ter visto morrer cerca de 200 pessoas, "homens, mulheres e crianças".

"Um homem originário do Sudão nos disse que viu se afogarem sua mulher e seus filhos. Ele estava totalmente desorientado e permanecia sentado, em estado de choque", contou Anne-Cecilia Kjaer, enfermeira do MSF.

O naufrágio foi para as vítimas a última etapa de uma "viagem horrível" na qual "atravessaram o deserto, foram capturados por traficantes" de pessoas, lembrou a enfermeira.

Segundo cifras da OIM, ao menos 5.200 pessoas estão atualmente em centros de detenção na Líbia.

Apesar dos riscos, os migrantes preferem atravessar o mar a ficar na Líbia, onde são vítimas de abusos, extorsões e torturas, explicam as ONGs.

Os resgatados são devolvidos à Líbia. No geral, primeiro são atendidos pelas ONGs, que lhes dão alimentos, e depois são levados pelas autoridades para centros de detenção. 

"É um país em guerra, correm o risco de desaparecer sem deixar rastro", denunciou Kjaer.

A Líbia, onde reina a violência desde a queda do regime de Muammar Gadafi em 2011, é um importante ponto de trânsito para os migrantes que fogem da falta de estabilidade em outras regiões da África e do Oriente Médio e querem chegar à Europa.

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