Irã pressiona europeus ao dizer que vai superar limite de enriquecimento de urânio

País questiona descumprimento de acordo internacional para limitar expansão nuclear

Teerã, São Paulo e Washington | AFP e Reuters

Ignorando as advertências de seus inimigos e aliados, o Irã anunciou, nesta quarta-feira (3), que tem a intenção de produzir a partir de domingo (7) urânio enriquecido a um nível superior ao limite fixado pelo acordo internacional de 2015.

O presidente Hassan Rouhani disse que seu país começará a aplicar a segunda fase de seu plano de redução de compromissos acordados que, segundo Teerã, será revertido se os outros membros do pacto nuclear responderem às suas demandas.

Teerã deixará de lado seu compromisso de não enriquecer o urânio acima de 3,67%, a partir de 7 de julho. "Vamos elevar acima de 3,67% tanto quanto quisermos e na quantidade de que precisarmos", declarou Rouhani.

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, durante reunião ministerial em Teerã - Presidência do Irã/AFP

Ele também advertiu que, a partir de domingo, o Irã pode retomar o projeto do reator de água pesada em Arak, "que (pode) produzir plutônio", a menos que "vocês [os outros países do acordo] mantenham todos os seus compromissos".

Dirigindo-se aos demais Estados que ainda fazem parte do acordo (Alemanha, China, França, Reino Unido e Rússia), Rouhani declarou: "Nós continuaremos a respeitar [o acordo de Viena] desde que as partes o respeitem. Aplicaremos 100% [do acordo] no dia em que as demais partes fizerem 100%", acrescentou.

Segundo ele, o Irã aplica 98% do acordo, enquanto os outros países não cumprem nem 10%. "Passem para 98%, e nós voltaremos a 100%", afirmou.

O presidente Donald Trump fez um alerta ao Irã: "Tome cuidado com ameaças, Irã. Elas voltam para te morder como ninguém nunca te mordeu antes!".  ​

O anúncio surge em meio às fortes tensões com Washington, que geram temor de um conflito na região do Golfo. A crise entre os dois países se agravou em 20 de junho, depois de Teerã abater um drone americano. Segundo o Irã, o veículo aéreo não tripulado violou o espaço aéreo iraniano, o que Washington nega.

Em 2015, o Irã se comprometeu a não desenvolver armas atômicas e a limitar seu programa nuclear em troca de uma suspensão parcial das sanções internacionais que asfixiavam sua economia.

O acordo, no entanto, ficou ameaçado desde que os Estados Unidos se retiraram unilateralmente, em maio de 2018. Na sequência, Washington restabeleceu sanções contra o Irã, privando o país dos benefícios que esperava obter após o pacto.

Em 8 de maio de 2019 —​um ano após a retirada dos Estados Unidos—, Teerã anunciou que deixaria de manter dois limites fixados no acordo. O texto estabelece o máximo de 1,3 tonelada para as reservas de água pesada e de 300 quilos para as reservas de urânio pouco enriquecido.

Na segunda-feira, Teerã superou o limite de 300 quilos de reservas de urânio pouco enriquecido. Em resposta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alertou que o Irã está "brincando com fogo".

"Os Estados Unidos e seus aliados nunca permitirão que o Irã desenvolva armas nucleares", advertiu a Casa Branca, acrescentando que Washington manterá sua campanha de "pressão máxima" contra Teerã.

Dizendo-se extremamente preocupados com a alteração nas reservas de urânio enriquecido por parte do Irã, Alemanha, Reino Unido, França e a União Europeia pediram ontem a Teerã que "reconsidere sua decisão e se abstenha de tomar novas medidas que enfraqueçam o acordo".

"Nosso compromisso em relação ao acordo nuclear [depende] do respeito total por parte do Irã a seus compromissos", acrescentaram.

Já a China pediu aos envolvidos que ajam "com moderação", e a Rússia disse ao Irã para "não ceder à emoção e respeitar as disposições essenciais do acordo".

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