Pedidos de asilo e deportações de brasileiros crescem nos EUA

Perseguição e violência são principais razões argumentadas; apenas 10% das solicitações são atendidas

Paula Moura
Long Branch e Newark

A cela estava tão lotada que Mariana, 22, diz que estava ficando louca. Toda vez que os guardas chamavam o nome de um imigrante, rezava para que o dela fosse o próximo. 

Grávida de seis meses, ela conta que fazia três dias que se alimentava pouco. Tomava o suco oferecido com as refeições, mas não era o bastante para matar a sede. Não tinha coragem de beber a água da pia que ficava em cima da privada do banheiro coletivo. 

Ela conta que recebeu um lençol térmico, o que não aplacava o frio, pois ou o usava para cobrir o chão ou deitava no chão e se cobria. Seu marido, em outra cela, cuidava da filha de dois anos, que passava mal e estava vomitando.

Júlia (nome fictício) foi separada do filho após cruzar a fronteira do México com os EUA, em 2018
Júlia (nome fictício) foi separada do filho após cruzar a fronteira do México com os EUA, em 2018 - Fernando Sciarra/Folhapress

A criança foi atendida por médicos, conta, mas só podia vê-la por uma janela de vidro na porta. Também não tomaram banho desde que se entregaram na fronteira do México com os Estados Unidos.

Quando os guardas chamaram seu nome, porém, não estava livre. Ainda precisou passar por muitos percalços.

O número de brasileiros que, como Mariana, chegam aos EUA pela fronteira com o México pelo chamado “cai, cai”, ou seja, entregando-se aos guardas e pedindo asilo, aumenta desde o início do ano. 

Os procedimentos de deportação abertos nas cortes de imigração americanas envolvendo cidadãos brasileiros já somam 3.429 casos de outubro de 2018 a maio de 2019, e o número deve aumentar até o fim do ano fiscal em vigência, em setembro. 

Os índices dos anos fiscais de 2019, até agora, e 2018 (4.890 procedimentos) estão muito abaixo do de 2005, ano fiscal de maior imigração brasileira aos EUA: 28.135. Após esse período, no entanto, houve redução das deportações para menos de mil casos em 2014.

Os dados são obtidos por lei de acesso à informação pelo programa TRAC da Universidade de Syracuse. Os números representam principalmente os pedidos de asilo na fronteira, mas também, em número bastante inferior, solicitações de pessoas que foram ao país de avião e acabaram detidas. 

Em comparação a países da América Central, a imigração brasileira aos EUA não é tão significativa, mas está entre as sete maiores nacionalidades de imigrantes apreendidos na fronteira, segundo Jeanne Batalova, pesquisadora do Migration Policy Institute, em Washington.

A polícia da fronteira do sul dos EUA apreendeu 227.073 cidadãos da América Central no ano fiscal 2018 e 1.504 brasileiros.

Muitos brasileiros vêm com seus filhos, pois recebem recomendações de que assim ficarão menos tempo em detenções temporárias e poderão aguardar a decisão sobre seus casos em liberdade. 

Alguns ficam poucos dias nesses locais, lotados e com condições precárias de higiene. Outros são enviados para centros de processamento de famílias. Quando imigrantes trazem crianças que não são seus filhos, elas são enviadas para abrigos como menores desacompanhados. 

“Não via movimento assim de chegada de brasileiros desde 2005”, diz Solange Paizante, co-fundadora da ONG Mantena Global Care em Newark, Nova Jersey, que tem recebido cerca de oito famílias por semana em busca de serviços de saúde e de educação em português. 

A ONG fica próxima à Brazil Square, onde há restaurantes e lanchonetes com salgadinhos e doces brasileiros, e até um carrinho vendendo tapioca. Pelas ruas, é fácil escutar pessoas conversando em português. 

Em Long Branch, também em Nova Jersey, não é diferente. De manhã bem cedo, brasileiros que vão trabalhar na construção e na limpeza de casas fazem fila para tomar cafezinho e comer pão francês, bolo de fubá e bolachas mineiras. 

A advogada Shirley Cussick, que defende imigrantes que chegam a Long Branch e Newark, diz receber cerca de 50 pessoas por dia procurando auxílio sobre asilo. Organizações e advogados que lidam com brasileiros em estados em que a comunidade já é bem estabelecida, como Massachusetts, Flórida e Connecticut, também relatam o aumento dos recém-chegados. 

As razões mais usadas pelos brasileiros para conseguir asilo são perseguição e violência por gênero ou orientação sexual. Em número menor, estão casos de perseguição policial. 

Já outros dizem que precisam de asilo por condições econômicas ou políticas, perseguição de agiotas e briga por herança, argumentos com pouquíssimas chances de convencer as autoridades, em um processo que pode durar de três a sete anos. Ainda que existam relatos legítimos de perseguição, não é o caso da maioria, dizem pesquisadores.

A emigração brasileira segue os altos e baixos da economia: o aumento da inflação, do desemprego e da pobreza estão entre as causas do crescimento da ida de brasileiros aos EUA. 

Quarteirão da comunidade brasileira na cidade de Newark, Nova Jersey (EUA) - Érika Garrido - 29.jun.19/Folhapress

“Se no início dos anos 2000 as pessoas migravam ganhando um ou dois salários mínimos e procuravam uma vida melhor, hoje as pessoas estão sem emprego e sem esperança de conseguir um em breve”, diz Sueli Siqueira, pesquisadora de imigração na Universidade Vale do Rio Doce, em Governador Valadares. 

A taxa de concessão de asilos, porém, é baixa entre brasileiros, mostram os dados obtidos pela Universidade de Syracuse. Dos 213 casos julgados no ano fiscal 2019, 189 foram negados e 20, concedidos —taxa de concessão abaixo de 10%. 

Esse índice vem caindo desde 2016, quando estava por volta de 23%. Como as cortes de imigração estão abarrotadas de casos, o número julgado em um ano geralmente reflete casos iniciados em anos anteriores. 

O ano de 2019 nem terminou, e o número de casos de asilo de brasileiros julgados de 2015 até maio deste ano —563— já superou o período de 2005 a 2009, que teve 520.

Jessica Bolter, pesquisadora do Migration Policy Institute, diz que o número de casos no sistema hoje é ainda maior pois antes os casos eram julgados mais rapidamente. 

Em abril deste ano, o número de casos pendentes nas cortes de imigração era de 876.552, de acordo com o Escritório Executivo para Imigração. O número inclui processos de asilo, deportação, entre outros.

Segundo Michelle Viana, advogada de imigração em Nova York, o sucesso dos pedidos de asilo é pequeno porque há muitas solicitações falsas. Além disso, casos de perseguições e de violência política praticados por grupos criminosos são muito maiores em países como Colômbia e Venezuela, por exemplo.

Depois de irem de avião até o México, os brasileiros geralmente esperam em diferentes pontos até se entregarem a pé na fronteira e seguirem para um abrigo temporário. 

Mariana saiu de uma pequena cidade próxima ao município de Tiros, em Minas Gerais, em um ônibus para São Paulo no início do ano. De lá, pegou um avião para Cancún, no México, depois outro para Juárez. 

Ela conta que foi levada por uma van até um local da fronteira onde teve de atravessar um córrego em que a água batia no joelho. Atravessá-lo, conta, foi uma das partes mais difíceis do processo, com a filha nos braços e escorregando em pedras. Seu marido carregava duas malas de roupas e ficou tão cansado que deixou uma delas pelo caminho.

Após completar a travessia, entregou-se à polícia de imigração dos Estados Unidos.

Mariana foi liberada junto à família depois de passar por três detenções diferentes e foi direcionada a uma igreja católica. Lá, eles receberam roupas e brinquedos e, num grupo de cerca de 30 pessoas, celebraram com pizza. 

“Os brasileiros estão ficando detidos de 48 horas até 40 dias”, diz Natalicia Tracy, pesquisadora da Universidade de Massachusetts e diretora da ONG Brazil Worker Center. 

Em geral, os brasileiros que se arriscam na fronteira não veem possibilidade de conseguir um visto de turismo ou já tiveram o visto negado, como aconteceu com Mariana e seu marido em junho de 2018. 

Assim, acabam pagando caro para agenciadores locais, que os conectam a coiotes —pessoas que levam imigrantes de dentro do México para a fronteira— para fazer a viagem por terra. Entrevistados pela Folha relatam o pagamento de cerca de R$ 26 mil por pessoa para serem levados à fronteira e se entregarem. 

Quando chegam aos EUA, os gastos com advogados variam entre US$ 5 mil e US$ 10 mil. 

“Eles são vítimas de tráfico humano”, diz Cussick. Segundo a advogada, os coiotes enganam os imigrantes, dizendo que a justiça americana vai decidir em favor em seus casos. 

“Ouço muito a história do agiota, que os próprios coiotes já doutrinam para dizer na entrada. Ou herança em disputa”, diz Renata Castro, advogada em Pompano Beach, Flórida. 

Mariana e seu marido venderam carro, móveis e usaram dinheiro guardado para pagar R$ 76 mil a um coiote. Ela diz ter pago R$ 40 mil ao agente local quando chegou a Long Branch e pagará US$ 1 mil por mês durante um ano. 

A mineira deverá se apresentar às autoridades de imigração em 2020 e, apesar de ainda não ter advogado, pretende dizer que se endividou e está sendo ameaçada. 

O marido, que trabalhava como tratorista no Brasil, agora se tornou pintor com o amigo que os recebeu. Ela faz faxina. A renda do casal, dizem, soma cerca de US$ 5.000 por mês, e assim conseguem enviar dinheiro para a família. 

Longe de se considerar uma vítima, Mariana, que cursou até o segundo grau, busca condições melhores para os filhos e sonha que eles façam faculdade nos EUA. Diz preferir viver “fugida” a voltar ao Brasil antes de conseguir juntar dinheiro. 

Em dois dias de trabalho nos EUA como faxineira, ela ganha US$ 240 (cerca de R$ 900), quase o mesmo que o salário mínimo no Brasil. Mesmo com o custo de vida mais alto, conseguiu comprar roupas de bebê de boa qualidade e até uma boneca Baby Alive para sua filha. 

 
Nem todos imigrantes têm a mesma sorte. Muitos estão sendo separados de seus filhos. O telefone de Júlia, que pediu para ter o nome trocado por medo de perseguição a sua família no Brasil, não para de receber ligações desde o mês passado. 

São outras mães que cruzaram recentemente a fronteira e cujos filhos foram encaminhados para abrigos, diz ela. Em meados de 2018, ela pediu asilo na fronteira do Arizona com o filho, com nove anos à época. 

Era o auge da política de separação de famílias do governo Trump, e a brasileira e o filho ficaram 45 dias afastados. Ela conta que precisou apelar à justiça federal para retirá-lo de um abrigo em Chicago. 

Júlia relatou ser perseguida pelo ex-marido, que batia nos dois e os ameaçava com uma arma. Porém, diz se arrepender de ter arriscado a vida e a do filho na travessia. Chorando, aconselha outras mães a pensar muito antes de colocar a vida de seus filhos em risco. 

Além disso, conta que seu filho passava fome porque ofereciam apenas comida mexicana apimentada ou quantidades muito pequenas. 

A advogada de Júlia entrou com pedido de asilo há poucas semanas, e ela já compareceu duas vezes a um juiz. O filho, agora com 11 anos, já fala inglês e se adaptou à nova vida.

No início de junho, após Trump ameaçar impor 5% de tarifa sobre produtos mexicanos, os dois países expandiram um acordo para que imigrantes buscando asilo nos Estados Unidos esperem pela decisão de seus casos no México. 

“O que podemos ver são brasileiros tendo de voltar ao México contra sua vontade para esperar pela audiência”, diz Helena Olea, da organização de imigrantes Alianza Americas.

Mariana teve seu filho em um hospital em Long Branch e disse ter sido muito bem tratada, sempre com um tradutor disponível por telefone ou alguém que falasse espanhol e ela pudesse entender. O bebê agora tem um mês. 

Semana passada, ela se mudou de um quarto para seu próprio apartamento alugado. Apesar da saudade da família, diz que valeu a pena se arriscar na fronteira para ter o filho nos EUA e, portanto, torná-lo um cidadão americano. É para ele não passar o que eles passaram na travessia, conta, e ter liberdade para ir e vir.

Erramos: o texto foi alterado

Cresceu o número de deportações de brasileiros dos EUA, e não de apreensões, como informava o título da reportagem. A informação foi corrigida

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