Descrição de chapéu
Financial Times Governo Trump

Ivanka Trump gera polêmica ao conversar com líderes em reunião do G20

Filha e genro do presidente dos EUA buscam papéis na política externa, mas resultados são confusos

Edward Luce
Financial Times

​A imagem duradoura da conferência de cúpula do G20 deste ano talvez não seja a de mais um momento risonho entre Donald Trump e Vladimir Putin, mas sim um vídeo da filha do presidente americano, Ivanka, batalhando por espaço em meio a um desajeitado círculo de líderes mundiais.

O vídeo divulgado pelo governo francês mostra expressões variadas de polidez desconfortável, enquanto Ivanka Trump busca espaço em uma discussão envolvendo Emmanuel Macron, da França; Theresa May, do Reino Unido; Justin Trudeau, do Canadá; e Christine Lagarde, a diretora executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI). Lagarde parece especialmente incapaz de ocultar sua irritação.

O assunto que eles estavam discutindo era secundário. Macron disse alguma coisa sobre justiça social. May respondeu que as pessoas reparam quando a economia faz parte disso. Ivanka Trump então interrompeu a discussão com uma declaração desconexa sobre o domínio dos homens na indústria da defesa.

O ponto real é que a mulher que se define como "primeira filha" dos Estados Unidos raramente sai do holofote nas conferências internacionais. Outros membros do governo Trump são quase invisíveis comparados a Ivanka e seu marido, Jared Kushner, os dois únicos integrantes da equipe da Casa Branca vistos como imunes ao lema clássico de Donald Trump, "você está demitido".

Em contraste, os líderes de países liderados por clãs familiares, como a Arábia Saudita, parecem muito confortáveis com o papel de Ivanka Trump.

Mohammed Bin Salman, o príncipe herdeiro saudita, conduz boa parte de suas comunicações com os Estados Unidos via mensagens de WhatsApp para Kushner. O primeiro genro também serve como conduto preferencial para outros líderes.

Ivanka e Donald Trump participam de evento durante a cúpula do G20 em Osaka, no Japão
Ivanka e Donald Trump participam de evento durante a cúpula do G20 em Osaka, no Japão - Dominique Jacovides - 29.jun.19/AFP

​Rex Tillerson, ex-secretário de Estado americano, revelou recentemente que só descobriu uma visita de seu colega de posto mexicano a Washington quando o viu por acaso em um jantar com Kushner.

Kushner e Ivanka Trump têm muitas atribuições diferentes e acesso sem paralelo ao Gabinete Oval quanto a qualquer tópico. Kushner foi encarregado de negociar o plano de paz entre árabes e israelenses, que já parecia morto quando de seu lançamento em Bahrein na semana passada, sem presença palestina.

Ivanka Trump lançou um fundo de empreendedorismo da mulher, operado pelo Banco Mundial e bancado primordialmente pelos países do Golfo Pérsico. O pai dela disse que Ivanka tinha qualificações únicas para comandar a campanha dos Estados Unidos pela competência de sua mão de obra, porque ela criou "milhões de empregos".

Na verdade, as companhias de Ivanka Trump criaram algumas centenas de empregos, quase todos na China. Ela atualmente está afastada do comado das empresas, que produzem acessórios de moda. 

Ivanka Trump e Kushner inicialmente tiveram recusados pelo escritório de pessoal da Casa Branca seus pedidos de credenciamento para lidar com informações confidenciais, mas Trump reverteu a decisão dos burocratas.

A impressão era a de que seus elos empresariais no exterior criavam múltiplos conflitos de interesse. Se você pesquisar no Google usando os termos "credenciamento" e "Ivanka Trump", o primeiro retorno menciona ofertas de produtos com desconto de empresas que ela controla.

A questão mais ampla é se Ivanka Trump abriga ambições políticas pessoais. Na conferência de cúpula do G20 em Hamburgo, dois anos atrás, ela causou indignação ao substituir seu pai por um breve período em uma mesa redonda de líderes mundiais. E a importância dela, desde então, só cresceu.

No final da mais recente conferência de cúpula, Ivanka resumiu em um vídeo os encontros de seu pai com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, e com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

Trump também vem encorajando a discussão de uma sucessão dinástica. Na semana passada, ele tuitou uma imagem de cartazes de campanha eleitoral com a marca Trump e datas a partir de 2024, se estendendo quadrienalmente pela eternidade.

O meme trazia a assinatura "Trump4Eva" [Trump para sempre]. Não é fácil determinar se Trump estava rebatendo seus críticos ou pensando mesmo em uma dinastia.

Alguns meses atrás, Trump disse que havia considerado apontar sua filha como embaixadora dos Estados Unidos às Nações Unidas. Ele também pensou em indicá-la para a presidência do Banco Mundial. Disse ter recuado, nos dois casos, porque teria sido acusado de "nepotismo".

Como nenhum dos dois postos ofereceria os poderes de que Ivanka Trump e o marido já desfrutam, os comentários do presidente não devem ser encarados por seu valor de face.

Trump muitas vezes trata a política como uma extensão de seus negócios. E estes últimos sempre foram controlados firmemente pela família. A Casa Branca dele parece muito pouco diferente.

Tradução de Paulo Migliacci

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