Polarização entre Macri e Cristina chega a apps de paquera na Argentina

Preferências partidárias, veganismo e linguagem inclusiva podem vetar candidatos

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Foi-se o tempo em que os aplicativos de encontros eram um espaço de timidez para muitos ou de caçada sexual para outros. Na Argentina, em período eleitoral polarizado, o que se tem visto nesses espaços é o aumento da intolerância política. 

“Se vota no Macri, já marque um ‘x’”, diz um usuário em seu perfil (o “x” é quando se elimina um “candidato”), logo abaixo do nome e da profissão, antes mesmo de descrever sua personalidade.

O presidente argentino Mauricio Macri, durante almoço com Jair Bolsonaro na Casa Rosada, em junho - Juan Mabromata - 6.jun.2019/AFP

“Se é eleitor da égua, passe já para a próxima”, afirma outra usuária. Égua é um dos qualificativos depreciativos pelos quais a ex-presidente Cristina Kirchner é conhecida.

Os ânimos estão acirrados a menos de um mês das eleições primárias, em 11 de agosto, quando se conhecerá a verdadeira distância —hoje muito apertada— entre as candidaturas do peronista Alberto Fernández (com Cristina de vice) e do atual presidente, Mauricio Macri (com o peronista Miguel Ángel Pichetto de vice). E os apps de paquera não estão isentos de tensão.

“De uns tempos para cá, as pessoas começaram a colocar logo de cara nos perfis que não queriam pessoas que falavam muito, ou que fumavam, ou que eram ‘complicadas’, ou que na foto apareciam mais magras ou mais bonitas do que de fato eram. A quantidade de exigências só foi aumentando. Agora, a política entrou com tudo nessa lista de eliminação”, afirma Matias, 34 (os nomes são fictícios, pois as pessoas preferiram não ser identificadas, mas as idades são reais).

A repórter da Folha visitou mais de 700 perfis nos aplicativos Tinder e Happn usando sua própria identidade e fazendo uma busca ampla —ambos permitem que se escolha a distância, o sexo e as idades a serem pesquisados. A procura incluiu homens e mulheres de 30 a 60 anos num raio de 50 km, a partir de um bairro de classe média de Buenos Aires. 

Os sinais de busca por identificação política foram vistos em todas as faixas etárias e gêneros. Em geral, do lado masculino, esta chega a expressar-se de modo mais violento: “não falo com mulheres K (kirchneristas), não quero politizadas de cabeça raspada. Se você for uma dessas, passe adiante”, escreveu um usuário.

Mulheres também deixam claro que não aceitam sair e nem sequer conversar com alguém do outro extremo da polarização entre “macristas” e “kirchneristas”. Mas o modo de se expressar feminino se mostra em geral um pouco mais terno.

Macri ao lado de emoji de um gato é um dos mais populares. “Gato” é um apelido que Macri carrega há muitos anos e não é um elogio, como no Brasil. Na Argentina, o termo se refere ao modo como, nas prisões, são identificados os detentos que “servem”, sexualmente ou de outra forma, aos que mandam no local.

Há outras questões que são citadas como razões de eliminação de um provável “match” (quando ambos os usuários afirmam, por meio do aplicativo, gostar um do outro).

Um dos fatores mais decisivos é relacionado ao feminismo, que ganha força na Argentina desde que começou o movimento #NiUnaMenos, em 2015.

Muitas mulheres se definem como “feministas” e adicionam o emoji do coração verde —cor que define quem é favorável à Lei do Aborto (até a 14ª semana, por escolha única da mulher). O projeto de lei foi derrubado no ano passado, mas deve voltar a ser votado.

Diversas mulheres e alguns dos homens colocam o coração verde em seus perfis, alguns com o slogan “que sea ley” (que vire lei).

Há quem rejeite isso. Homens que dizem “se você é da onda lenço verde, não estou interessado” ou mulheres que se descrevem como “sou lenço celeste (anti-lei de Aborto) e nem quero conversar com quem tente me convencer do contrário”.

Outro tema que divide é a “linguagem inclusiva”, defendida especialmente pela esquerda. Tanto que a campanha eleitoral da chapa kirchnerista, que se chama Frente de Todas, se identifica também como “Frente de Todes”. 

A ideia de colocar o “e” no lugar dos substantivos que levam o “o” para designar o gênero masculino e o “a”, para o feminino está amplamente disseminada, principalmente entre os mais jovens. Nesse caso, os usuários escrevem seus perfis inteiros usando o vocabulário inclusivo.

Mas há os que a rejeitam de modo agressivo. “Se vai falar comigo como uma dessas loucas da linguagem inclusiva, vou achar que você é uma imbecil”, disse José, 56. 

“Sou feminina, mas não feminista, homem é homem e mulher é mulher, não fale comigo com essas bobagens de todes etc.”, escreveu Elina, 52.

Também o veganismo é identificado com a esquerda, enquanto ser carnívoro não chega a ser de direita, mas aparece nos perfis dos que se dizem mais patriotas. “Sou argentino, portanto como carne”, diz um homem de 50 anos, diante de uma “parrilla”, o local onde se fazem os tradicionais assados. Outros usam a camiseta da seleção argentina e um emoji de carne na descrição. “Se for vegana, passe longe de mim”, afirma um deles.

Há quem repita nos perfis os gritos de guerra da causa vegana, “deixemos de comer animais” e “pare de matar o planeta”, seguidos de ícones de animaizinhos.

Com a intensa imigração venezuelana no país, e o grande número de colombianos jovens que chegam para estudar, a xenofobia ou a vontade de ajudar os estrangeiros é outro dos elementos políticos nos sites. “Gosto de sair com caribenhas, que sejam alegres e descomplicadas”, descreve Juanjo, 55. 

Mas também há vetos. “Se for colombiano ou venezuelano e coloca no seu perfil que é solteiro mas deixou família lá, não minta, vou acabar descobrindo”, diz Manuela, 42.

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