Descrição de chapéu The New York Times

Crack converte bairro parisiense em 'inferno' para usuários e moradores

La Colline é maior feira de rua da droga na Europa; local teve grande influxo de migrantes em 2015

Elian Peltier
Paris | The New York Times

Lâminas enferrujadas e cachimbos de crack se espalham pelo chão sujo e empoeirado. A área fede a urina e lixo.

Pelo menos três vezes por dia Charly Roué vem a este bairro, um dos mais sórdidos de Paris, sempre observando o mesmo ritual.

Depois de conseguir algumas dezenas de euros pedindo esmola perto de alguns dos pontos turísticos mais frequentados da cidade, ele vai para a periferia norte de Paris para comprar crack no La Colline, a maior “feira de rua” de crack na França.

Muitos dos drogados que frequentam a região diariamente “comparam La Colline ao inferno”, disse Roué, que tem 27 anos e usa drogas desde os 14. “As pessoas que moram por aqui e sofrem com o caos que nós trazemos devem achar isso um inferno também.”

 

Elas acham, sim.

Nos últimos anos, La Colline, uma área desolada de mais ou menos dois hectares comprimida entre três rodovias na entrada da cidade, virou símbolo de uma crise de drogas que fustiga o norte de Paris desde que o aburguesamento de outras regiões empurrou alguns dos moradores mais carentes da capital para sua periferia distante.

Moradores locais dizem que a presença dos usuários de drogas tornou a vida deles insuportável. Comerciantes reclamam que a receita caiu drasticamente, porque os fregueses foram afugentados.

Não é de hoje que este bairro pobre enfrenta seus desafios, mas, para alguns moradores, o mercado de crack agravou muito uma situação que já era difícil.

“Já tínhamos nossa devida parcela de carros incendiados, tráfico de maconha e prostituição”, disse a tunisiana Rafia Bibi, 59, que vive na área há 15 e vê La Colline da janela de seu apartamento no 17º andar.

“Mas a violência e a miséria dos migrantes e viciados em drogas converteu este bairro em um lugar quase inabitável.”

O crack está disponível e abertamente visível 24 horas por dia em La Colline. Centenas de pessoas vêm ao bairro diariamente para comprar pedras de crack, conhecidas em francês como “galette”, por 15 euros, cerca de R$ 65.

Dezenas de viciados vivem em barracas improvisadas, em meio aos migrantes em situação de rua que também povoam a área.

Toda terça-feira a polícia esvazia a área inteira e demole a favela improvisada. Mas ela sempre ressurge algumas horas mais tarde.

Os usuários de drogas se prostituem nos banheiros públicos do bairro enquanto as crianças vão à escola pela manhã. Diariamente acontecem brigas; traficantes agridem uns aos outros usando barras de ferro de construção, e usuários de drogas disputam pedras de crack com lâminas de bolso.

“Esqueça a Paris de Woody Allen”, disse um policial que patrulha La Colline diariamente há dois anos, aludindo ao filme “Meia-Noite em Paris”, do diretor. “Isto daqui não poderia estar mais distante dessa imagem.”

Emmanuelle Oster, a nova delegada de polícia do 18º “arrondissement”, que abrange La Colline, diz que, desde que chegou ao cargo, em novembro, priorizou o combate ao crack.

Ela disse que os 500 policiais sob seu comando estão mobilizados contra a droga. Mais de 300 traficantes teriam sido detidos nos seis primeiros meses de 2019, mais que o número total de 2018.

Estimados entre 5.000 a 8.500 usuários fumam crack em La Colline.

O número de usuários se mantém mais ou menos constante há vários anos, mas durante muito tempo o consumo de crack foi um problema oculto.

Segundo a delegada, o problema do crack passou a fazer manchetes quando projetos habitacionais recentes aburguesaram imóveis antes invadidos, forçando os usuários de crack a sair para as ruas e convertendo “um fenômeno invisível numa situação apocalíptica”.

“Não há lugar para isso numa cidade como Paris no século 21”, disse Oster.

As entidades de assistência social que vão a La Colline para oferecer ajuda dizem que a forte presença policial apenas exacerba as tensões. Mas não questionam o fato de a concentração de usuários e viciados em La Colline gerar uma situação explosiva.

Numa tarde recente, sob o calor escaldante que fustigou a França neste verão, alguns assistentes sociais que trabalham com a organização humanitária Charonne, que recebe verbas da prefeitura, distribuíram mais de 150 cachimbos de crack, dezenas de camisinhas, lenços umedecidos e copos d’água.

Para muitas pessoas que frequentam a área, a presença dos assistentes sociais traz o único tipo de alívio pelo qual podem esperar.

Os assistentes sociais dizem que muitas mulheres viciadas em La Colline são coagidas a se prostituir e que pelo menos seis usuários de drogas morreram na região desde o início do ano.

Bairro de La Colline, em Paris, concentra maior concentração de usuários de crack da Europa
Bairro de La Colline, em Paris, concentra maior concentração de usuários de crack da Europa; local recebeu muitos refugiados no auge da crise migratória da Europa, em 2015 - Andrea Mantovani/NYT

“Incentivamos os usuários a virem para a nossa sede para poderem descansar”, disse Yves Bouillet, assistente social que trabalha com a Charonne. “Mas eles falam que é longe demais.” A sede da organização fica a cerca de três quilômetros de La Colline.

No auge da crise migratória na Europa, em 2015, La Colline virou ponto focal de migrantes que procuravam refúgio na França.

As autoridades ergueram um abrigo temporário para eles, mas o local não tinha espaço suficiente, e centenas de migrantes ficavam na rua. Muitos permaneceram na área depois de o abrigo ser demolido, em 2018.

Alguns deles caíram na armadilha de La Colline.

“O crack está em todo lugar. É impossível fugir dele”, disse Nivmud Singh, morador de rua de 34 anos que chegou da Índia em 2016.

As autoridades parisienses prometeram abrir um “centro de repouso e saúde” até o outono deste ano, como parte de um plano de ação de três anos para combater o crack.

Contando com orçamento de 9 milhões de euros (cerca de R$ 40 milhões), o plano financia organizações como a Charonne e oferece dezenas de opções habitacionais temporárias para usuários de drogas.

Os usuários poderão fumar crack legalmente no centro, uma novidade no tocante ao consumo de crack na França.

Charly Roué, o viciado, diz que não pretende ir ao centro. “O único jeito de parar de fumar crack é sair de Paris”, disse. “Deveríamos todos manter distância de La Colline."

Tradução de Clara Allain

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