EUA e Rússia confirmam fim de um dos acordos que encerraram a Guerra Fria

Tratado INF, de 1987, limitava criação de mísseis de médio alcance

Bancoc, Moscou e Londres | AFP e Reuters

Os governos de Estados Unidos e Rússia confirmaram nesta sexta-feira (2) a saída do tratado de desarmamento nuclear INF, assinado em 1987, ao final da Guerra Fria.

A retirada dos dois países na prática acaba com o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês), que proibia o uso de mísseis com alcance entre 500 e 5.500 km. Com isso, os dois países ficam legalmente livres para produzir esse tipo de armamento. 

Míssil russo S-300, durante teste feito próximo a Astrakhan, na Rússia
Míssil russo S-300, durante teste feito próximo a Astrakhan, na Rússia - Sergey Pivovarov - 19.jun.19/Reuters

"A retirada dos Estados Unidos conforme o artigo 15 do tratado tem efeito hoje porque a Rússia não retornou ao respeito total e verificado [do pacto]", afirma em um comunicado o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, que está em Bancoc, onde acompanha uma reunião de países do Sudeste Asiático.

"A Rússia é a única responsável pelo fim do tratado", disse. 

Pompeo também disse que os EUA "buscam uma nova era de controle de armas, que vá mais além dos tratados bilaterais do passado" e pediu à China que se una às conversas. 

Alguns minutos antes, a Rússia anunciou o fim do tratado "por iniciativa dos Estados Unidos".

O vice-ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Riabkov, afirmou que seu país propôs aos Estados Unidos uma moratória na instalação de armas nucleares, mas não houve acordo até agora. 

Nesta sexta, o Reino Unido e a Polônia também culparam Moscou. "A Rússia causou o colapso do tratado por desenvolver secretamente um sistema de mísseis que pode atingir alvos nas capitais europeias", disse Dominic Raab, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido.

Para o Ministério das Relações Exteriores da Polônia, a falta de compromisso da Rússia "deixou os Estados Unidos sem escolha". 

Desmonte gradual

O INF vinha sendo desmontado nos últimos anos. Em 2013, a administração Obama acusou a Rússia de descumpri-lo, ao fazer testes ocultos com um míssil. Nos anos seguintes, surgiram novas acusações de testes russos com armas capazes de atingir alvos a até 1.500 km. O governo de Vladimir Putin sempre negou o descumprimento.

O principal ponto de discórdia foi um novo míssil de cruzeiro desenvolvido pela Rússia, o 9M729. O governo americano afirma que a arma fere o INF, pois seria capaz de atingir alvos a até 1.500 km. A Rússia diz que seu alcance é bem menor, e estaria dentro das regras.

Em 31 de janeiro, os EUA anunciaram que sairiam do acordo em seis meses, caso a Rússia não mudasse de postura. Três dias depois, Moscou também anunciou que deixaria o tratado, acusou os EUA de descumprir as regras e avisou que seguiria trabalhando para criar novos mísseis, inclusive de capacidade hipersônica.  ​

O INF foi assinado em 1987 pelos então presidentes Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchov e era considerado a pedra angular do controle de armas militares a nível global.  

O tratado baniu todos os mísseis de cruzeiro com alcance entre 500 e 5.500 km. Esse tipo de míssil viaja a velocidades subsônicas e de forma “inteligente”, desviando de obstáculos e muito próximo do solo, o que o torna difícil de ser detectado por defesas inimigas.

O INF levou à eliminação de 1.846 ogivas soviéticas e 846 americanas até 1999 e permitiu a retirada dos projéteis balísticos SS20 russos e Pershing americanos espalhados pela Europa.

No entanto, outros países seguiram desenvolvendo armas como essas. Ao sair do tratado, os EUA ficam livres para criar abertamente armas capazes de confrontar os mísseis já desenvolvidos por China, Arábia Saudita, Irã, Israel, Índia e Paquistão, entre outros.

A China possui centenas de mísseis que violariam o INF, por exemplo, mas o país não faz parte do acordo. Analistas ocidentais avaliaram que algumas das armas chinesas podem chegar a cerca de 4.000 km de alcance, o suficiente para ameaçar bases americanas em Guam.

Outra questão do tratado é que ele proíbe armas terrestres, pois foi pensado para evitar um conflito na Europa, mas não mísseis que sejam lançados de navios ou aviões. Assim, a Rússia já testou foguetes com 2.000 km de alcance dessas formas, o que não desrespeitou o acordo. 

Outro acordo, chamado Start, mantém os arsenais nucleares de EUA e Rússia em níveis abaixo do que atingiram na Guerra Fria. Ele expira em 2021, e parece haver pouca vontade política para renová-lo. 

Erramos: o texto foi alterado

O INF foi assinado em 1987 pelo presidente Ronald Reagan, e não por Richard Nixon, e pelo presidente russo, Mikhail Gorbatchov. A informação foi corrigida.

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