Amazon bane livros de 'cura gay' e conservadores cristãos protestam nos EUA

Empresa tirou de seu site obras de Joseph Nicolosi, um dos principais defensores da terapia

Anna Virginia Balloussier
Rio de Janeiro

Tente encontrar na Amazon "Healing Homosexuality: Case Stories of Reparative Therapy" (curando a homossexulidade: histórias de casos de terapia reparativa). 

Nada? E que tal "A Parent's Guide to Preventing Homosexuality" (um guia parental para prevenir a homossexualidade)? De novo, zero resultados, certo?

É porque a gigante do comércio virtual baniu de seu catálogo obras que divulguem a chamada "cura gay", uma terapia que promete reverter a orientação sexual de pessoas atraídas por outras do mesmo sexo.

Desde 1990, a Organização Mundial de Saúde decidiu extirpar a homossexualidade de sua lista de doenças.

Logo da Amazon
Logo da Amazon; empresa retirou os livros de seu site - Denis Charlet - 28.ago.19/AFP

Em seu próprio site, na seção de diretrizes de conteúdo para livros, a Amazon afirma zelar pela variedade do cardápio literário, mas materiais que julgue inadequados podem ficar de fora.

"Como vendedores de livros, fornecemos aos nossos clientes acesso a uma variedade de pontos de vista, incluindo livros que alguns clientes podem achar desagradáveis. Reservamos o direito de não vender determinados conteúdos, como pornografia ou outros conteúdos inadequados."

A iniciativa provocou fúria entre grupos conservadores americanos. Um deles é o Voice of the Voiceless (voz dos sem voz), que diz ter como missão "defender os direitos dos ex-homossexuais com indesejada atração pelo mesmo sexo", e, de quebra, apoiar "a comunidade baseada na fé". 

Um abaixo-assinado criado por esse porta-voz de uma parcela cristã no site de petições virtuais Change.org tinha, até quinta (12), 19,3 mil assinaturas de uma meta de 25 mil.

A palavra censura aparece para criticar a remoção de obras do gênero. "Isso equivale à discriminação religiosa e à baseada na orientação sexual."

Na quarta (11), Tony Perkins, presidente do Family Research Council e um dos mais poderosos lobistas cristãos em Washington, disparou um email massacrando a Amazon. 

Exaltou na mensagem que a "fé cristã teve um papel significativo na ajuda a pessoas lidando com uma indesejada atração por gente do mesmo sexo".

E seriam "poucas as vozes na atual cultura do 'qualquer-coisa-serve' com coragem para se posicionar ousadamente". A companhia estaria tentando "silenciar aqueles de nós que deixaram o estilo de vida LGBT", afirma Perkins

Vários dos livros, como os que abrem esta reportagem, são do psicólogo Joseph Nicolosi (1947-2017).

Espécie de rockstar entre seus pares entusiastas da "cura gay", ele presidia nos EUA a Associação Nacional de Pesquisa e Terapia da Homossexualidade. 

Ele pregava que as pessoas nasciam naturalmente heterossexuais, mas traumas na infância poderiam levá-los a optar por relações homossexuais, sobretudo em casos de mãe dominadora e pai ausente. 

Eletrizou alas cristãs desgostosas com o avanço de direitos LGBT mundo afora com as canjas que deu em eventos como O Amor Venceu, uma conferência de "cura gay" sediada em 2004 numa igreja batista.

"Não há essa coisa de homossexual", disse à época. "Todo mundo é heterossexual. Alguns de vocês talvez tenham um problema homossexual. [...] É apenas uma desordem psicológica alavancada por um sentimento interno de solidão." 

"Isso, aliás, é informação não religiosa e não política", discursou Nicolosi. "É científica."

Só faltou combinar com as maiores organizações de psicologia, que não só questionam a eficácia desses tratamentos como fixam que não há o que ser curado, já que a orientação sexual de alguém não é doença mental.   

Vários portais voltados à comunidade LGBT, como o Pink News e o Gay Star News, destacaram a pressão feita pelo britânico Rojo Alan, contra a Amazon, por vender os livros do terapeuta. 

Em maio, ele narrou numa rede social como encorajou pessoas a escreverem à empresa reclamando do espaço dado a um acervo que, em sua visão, propagaria uma visão homofóbica do gay como doente. 

A companhia, a princípio, teria afirmado que os livros de Nicolosi sobre o tema não violavam suas regras. Em julho, contudo, já não era mais possível achá-los à venda.

"Estou num Starbucks e pertíssimo de chorar por perceber que todos os meus esforços valeram a pena", escreveu Rojo.

Para o doutor em educação Ilan Brenman, autor de "Quem Tem Medo do Lobo Mau? O Impacto do Politicamente Correto na Formação das Crianças", como empresa privada, a Amazon tem direito de subtrair produtos de seu acervo.

"E nós, como consumidores de livros, temos o direito de buscá-los em outras plataformas. Não existem livros impróprios, existem livros bons ou ruins. Uma má ideia se combate com uma ideia melhor, e não banindo livros", diz Brenman.

Mas a decisão de "aguentar o tranco dos consumidores" cabe à companhia. 

"Você não pode obrigar uma livraria que só tem livros sobre veganismo a vender livros sobre churrascos. Em caso do poder público, já é uma outra história. Numa democracia é dever do Estado proteger a liberdade de expressão artística, por mais que ela seja, no seu limite, contrária à própria democracia.

A supressão de obras não é um ato inédito por parte da Amazon. 

No começo do ano, a empresa removeu de seu mercado online "Healing the Symptoms Known as Autism" (curando os sintomas conhecidos como autismo) e "Fight Autism and Win" (lute contra o autismo e vença). 

Se os títulos careciam de chancela científica, transbordavam em métodos questionáveis para tratar o TEA (Transtorno do Espectro Autista). Uma das sugestões, por exemplo, era apelar para uma substância usada em alvejantes, isso a despeito de normas médicas e sanitárias.

A varejista também é pressionada por comercializar títulos que respaldam fake news sobre a eficiência de vacinas

Não que tudo tenha sumido de vez. Ainda dá para achar trabalhos de Nicolosi na Amazon, ainda que não os mais explícitos na defesa à "cura gay".

Um deles, "TranZformed: Finding Peace With God-Given Gender" ( TranSformados: encontrando paz no gênero dado por Deus), o lista como especialista. É um DVD de US$ 13,99 sobre "o que Jesus Cristo pode fazer para aqueles que penam com a disforia de gênero". 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.