Bolsonaro não queria se policiar e deu tom mais incisivo ao discurso

Segundo assessores, presidente deixou de lado moderações para imprimir cara do governo

Marina Dias Bruno Boghossian
Nova York

O presidente Jair Bolsonaro disse a assessores que queria imprimir sua voz e estilo no discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU para indicar com clareza sua personalidade e direção de governo.

Na sua estreia na tribuna em Nova York, nesta terça-feira (24), Bolsonaro fez uma fala que reproduziu o repertório ideológico de seu grupo político, com vários ataques à imprensa, a outros países e um tom de enfrentamento em relação às críticas feitas a sua gestão.

O discurso de pouco mais de 30 minutos foi elaborado ao longo das últimas semanas, num processo em que o presidente deixou claro que não queria se policiar ou pautar ideias conciliadoras que omitissem a ideologia de seu mandato.

O resultado deixou Bolsonaro satisfeito. O semblante fechado e o silêncio com a imprensa durante a segunda-feira (23), quando chegou a Nova York, foram substituídos por sorrisos e uma conversa com jornalistas assim que saiu para almoçar, logo após o pronunciamento.

"Foi um discurso bastante objetivo e contundente, não foi agressivo. Eu estava buscando restabelecer a verdade das questões de que estamos sendo acusados no Brasil", disse ele antes de ir ao restaurante onde recebeu cumprimentos de assessores que o acompanhavam nos EUA e também dos que telefonaram para ele do Brasil.

Antes de viajar a Nova York, Bolsonaro disse que não pretendia "apontar o dedo" para outros chefes de Estado, enquanto diplomatas e integrantes do governo avaliavam que subir a temperatura nos embates internacionais não era vantajoso para o país.

Depois de ouvir a opinião de diversos auxiliares, o grupo do presidente foi construindo consenso de que era preciso fazer um discurso mais transgressor e de menos moderação, para fazer com que a audiência, nas palavras de um desses assessores, revisse paradigmas e não ficasse em avaliações de superfície.

Prevaleceram as opiniões do chanceler Ernesto Araújo, do assessor internacional Filipe Martins e do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) —todos alinhados ao polemista Olavo de Carvalho e a Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump.

Eduardo se encontrou com Bannon nesta segunda, véspera do discurso de Bolsonaro em Nova York.

O deputado conversou com o americano principalmente sobre Amazônia e a postura do presidente francês, Emmanuel Macron, diante da crise. Queria colher a opinião de Bannon sobre temas que estariam na fala do pai.

Escolhido por Bolsonaro para ser embaixador do Brasil em Washington —a indicação ainda não foi oficializada ao Senado, onde precisa ser aprovada—, ele também perguntou sobre as perspectivas de reeleição de Trump no ano que vem.

Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), assessor que transita entre a ala ideológica e militares mais moderados, teve menos influência sobre o texto.

Durante o voo para Nova York, o ministro pediu para ver a versão final do discurso, mas teve o pedido negado por Bolsonaro, segundo relatos de três passageiros do voo.

O presidente repetiu na ONU a retórica de sua campanha eleitoral, com elogios ao golpe militar de 1964, a atuação de organismos internacionais —inclusive da própria ONU— e somou ao pacote suas respostas à atual crise da Amazônia.

Era justamente na área ambiental que os assessores discutiam a possibilidade de fazer um pronunciamento mais moderado, mas o presidente decidiu seguir o caminho contrário.

Bolsonaro ficou sob pressão principalmente depois que o presidente francês e a chanceler alemã, Angela Merkel, apontaram publicamente o risco de retrocessos na agenda do Brasil para o ambiente.

Seu estilo verborrágico se manteve no discurso da ONU, quando ele respondeu diretamente às cobranças dos líderes e mencionou o que chamou de espírito colonialista, num tom pouco habitual em discursos do Brasil na Assembleia Geral.

Outro auxiliar que também teve participação na confecção do discurso afirmou que o momento foi para marcar o que os bolsonaristas chamam de nova era para o Brasil e imprimir a imagem de um governo revolucionário.

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