Descrição de chapéu The Washington Post

Eleição afegã é marcada por suspeitas de fraude

Principal opositor do presidente diz que irregularidade em pleito acarretará 'duras consequências'

Cabul | The Washington Post

O principal opositor do presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, nas eleições de sábado (28) disse que um resultado marcado por fraude "será contestado" e que seus apoiadores não estarão dispostos a "sacrificar" uma vitória legítima nas urnas.

A eleição tensa está sendo realizada sob forte segurança, com mais de 2.400 dos 7.400 centros de votação a serem fechados porque os insurgentes do Taleban ameaçaram atacá-los. O grupo já bombardeou um comício da campanha de Ghani, matando 24 pessoas, e o escritório de seu principal companheiro de chapa, onde morreram outras 30. O grupo insurgente denunciou a eleição como falsa.

Mas os temores de fraude são igualmente altos entre o público e os observadores, porque poderia provocar o caos político. Isso quase aconteceu nas eleições presidenciais de 2014, nas quais Ghani e Abdullah Abdullah, primeiro-ministro do Afeganistão, também foram os dois principais candidatos.

Na disputa de 2014, as queixas de fraude foram tão generalizadas em ambos os lados que o processo entrou em colapso, em meio a ameaças de violência por facções políticas armadas. Finalmente, após uma recontagem fracassada, as autoridades americanas intermediaram um desconfortável acordo de divisão de poder entre os dois rivais, que se mostrou disfuncional e amargo.

Desta vez, há outros 16 candidatos na corrida, mas poucos fizeram campanha a sério. Ghani, 70, que dirigiu uma campanha vigorosa e cara, deve vencer no primeiro turno com mais de 50% dos votos. Mas os opositores acusaram o presidente de comprar votos e de outros abusos pré-eleitorais, que ele e seus porta-vozes negaram.

Abdullah, 59, fez uma campanha em grande parte atacando o presidente como um líder distante e egocêntrico que enganou e decepcionou o público. Ele se retratou como um político mais honrado que aceitou ceder em duas eleições pelo bem da nação --primeiro em 2009, em uma disputa acirrada e fraudada contra o então presidente Hamid Karzai, e depois em 2014, contra Ghani.

"As pessoas que estão me apoiando, da base até o topo, dizem que desta vez alguém mais deverá fazer sacrifícios", disse Abdullah.

Em uma manifestação final barulhenta aqui na quarta-feira (25), Abdullah parecia empolgado depois de uma semana de campanha por todo o país. Ele fez piadas sobre Ghani, descrevendo o presidente erudito como uma "formiga sem asas", depois ficou sério e pediu aos apoiadores que "digam não à fraude e usem seu voto limpo para restaurar a honra do país".

Os críticos de Abdullah disseram que suas piadas e críticas a Ghani são um substituto para a falta de uma mensagem ou agenda significativa sobre questões nacionais cruciais, especialmente como iniciar conversações de paz com o Taleban após o colapso das negociações com os EUA, e como reforçar a economia afegã, que encolheu bastante durante o prolongado conflito civil, deixando milhões de afegãos desempregados.

"Para Abdullah, tudo isso remonta a 2014. Não há substância em sua campanha, apenas ataques pessoais. Seu objetivo é permanecer relevante na política, mas sua narrativa é divisora quando o país precisa de unidade", disse Haroun Mir, antigo analista político que agora assessora a campanha de Ghani.

Na entrevista, Abdullah disse que Ghani tinha sido "um obstáculo à paz", porque ele quer "permanecer no topo" do processo e manter todos os outros em papéis subordinados... "seu sentimento egocêntrico substitui qualquer outra coisa". Uma diferença entre eles, acrescentou, é que "eu quero a paz. Se isso significar que deixarei o cargo para alcançá-la, não será um obstáculo".

Abdullah disse que apoiaria a criação de um governo interino após as eleições, se isso ajudasse a criar um consenso nacional e a incluir o Taleban nas negociações.

 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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