Grande marcha toma Santiago em 8º dia de protestos no Chile

Segundo a polícia, mais de 1,2 milhão de pessoas se reúnem na praça Itália

Santiago | Reuters e AFP

No oitavo dia de protestos no Chile, a temperatura seguiu altíssima nas ruas. Mais de 1,2 milhão de pessoas se reuniram em uma manifestação pacífica na praça Itália —um dos principais locais dos atos, próxima ao palácio presidencial em Santiago.

Mais de um quinto da população da cidade (5,6 milhões de habitantes) ocupou as ruas, na maior manifestação no país desde o retorno da democracia, em 1990. 

A cifra foi divulgada por um órgão da capital vinculado ao Ministério do Interior e da Segurança Pública.

A convocação para a mobilização desta sexta (25), chamada pelos ativistas de "a maior marcha do Chile", foi feita pelas redes sociais, já que os movimentos que assolam o país não têm uma liderança clara.

Ocorreram alguns confrontos isolados nas proximidades do palácio de La Moneda, sede da Presidência do Chile, também em Santiago. As forças de segurança usaram jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo para afastar os manifestantes do local. 

Em mensagem divulgada em uma rede social, o presidente Sebastián Piñera elogiou a manifestação. "Todos nós escutamos a mensagem. Todos nós mudamos", afirmou ele.  

A 110 km dali, na cidade costeira de Valparaíso, o Congresso Nacional foi esvaziado por volta do meio-dia de sexta por ordem do presidente da Câmara dos Deputados, Iván Flores, devido aos confrontos com a polícia que ocorriam do lado de fora.

Ele disse que a medida foi preventiva e que não havia muitos funcionários no prédio, onde ocorria uma sessão da Comissão de Trabalho. "Não é uma evacuação, mas sugeri que eles [os parlamentares] voltassem para casa", disse Flores, acrescentando que a tensão social que o país vive é "sem precedentes".

Milhares de manifestantes protestam em Santiago
Milhares de manifestantes protestam em Santiago - Pedro Ugarte/AFP

Há uma semana, um protesto estudantil contra o aumento do preço das passagens de metrô resultou em uma explosão social sem precedentes, a mais grave em quase 30 anos desde o final da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Mesmo com o cancelamento do reajuste, as mobilizações cresceram e logo congregaram diversas reivindicações sociais, como melhoria no acesso à saúde e à educação, serviços privatizados e que consomem boa parte da renda dos chilenos. O Chile é uma das economias mais estáveis, mas, ao mesmo tempo, mais desiguais da América Latina. 

O sistema previdenciário também é outro ponto nevrálgico, muito criticado pelos baixos vencimentos e pagamentos atrasados. Em pronunciamento após o início dos protestos, Piñera anunciou aumento de 20% nas pensões.

Manifestações semelhantes foram convocadas para esta sexta em outras cidades do Chile, que está quase totalmente sob vigilância militar desde que o presidente decretou um estado de emergência na madrugada de sábado (19), primeiro em Santiago e depois em outras regiões.

O dia começou com caravanas de caminhões bloqueando o fluxo nas principais rodovias de acesso à capital, em um ato contra a cobrança de pedágios em estradas, que foram concedidas em sua maior parte ao setor privado a partir da década de 1990.

Santiago tinha mais linhas de metrô operando parcialmente em relação aos últimos dias. É uma lenta recuperação em comparação ao fim de semana passado, quando o serviço suspendeu completamente seu funcionamento na esteira de ataques a dezenas de estações.

Os protestos resultaram até agora em mais de 6.000 detidos e ao menos 18 mortos, segundo a subsecretária do Interior, apesar do toque de recolher em vigor durante a semana e que foi decretado novamente nesta sexta a partir das 23h. Entre as vítimas, há uma criança de quatro anos, atropelada durante uma das manifestações.

A Justiça também investiga se agentes de segurança cometeram abusos no uso da força para reprimir as manifestações, como apontam organizações de defesa dos direitos humanos locais.

Em meio à onda de violência, Piñera pediu ajuda a uma de suas maiores adversárias políticas, a ex-presidente Michelle Bachelet, atual Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, para que investigue a situação. 

Bachelet aceitou o convite do governo, feito na quinta (24), e anunciou que irá mandar uma missão para analisar denúncias de violações que teriam sido cometidas pelas forças de segurança contra os manifestantes.

A Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), chefiada por Luis Almagro, denunciou o que descreveu como um "padrão" de desestabilização inspirado na Venezuela e em Cuba nos países da América Latina, primeiro na Colômbia e no Equador e agora também no Chile.

Em um comunicado divulgado na noite de quinta, o escritório da Almagro insistiu nas colocações que havia feito antes, transferindo a responsabilidade das massivas mobilizações antigovernamentais na região aos governos de Nicolás Maduro, na Venezuela, e Miguel Díaz-Canel, em Cuba.

 

"As brisas do regime bolivariano impulsionadas pelo 'madurismo' e pelo regime cubano trazem violência, saques, destruição e um objetivo político de atacar diretamente o sistema democrático e tentar forçar interrupções nos mandatos constitucionais", disse o secretariado da OEA em seu texto.

O Equador foi abalado na primeira quinzena de outubro por violentas manifestações antigovernamentais causadas pela eliminação dos subsídios aos combustíveis e o consequente aumento de preços de até 123%. O presidente equatoriano Lenín Moreno acusou Maduro de estar por trás dos distúrbios, que deixaram oito mortos e mais de 1.300 feridos.

No final de setembro, a Colômbia acusou Maduro perante as Nações Unidas de receber grupos armados colombianos do Exército de Libertação Nacional (ELN). A Secretaria-Geral da OEA afirmou que a Colômbia foi o país mais afetado pelos "crimes contra a paz do regime maduro". 

Almagro, diplomata uruguaio que lidera a OEA desde 2015, é um feroz oponente de Maduro, um ditador a quem atribui graves violações dos direitos humanos com o apoio de Havana.

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