Inspirado em programa de Lula, candidato kirchnerista lança Argentina Sem Fome

Problema atinge 35,4% da população do país de acordo com pesquisa recente

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O candidato peronista Alberto Fernández, 60, favorito na corrida eleitoral argentina, lançou na manhã desta segunda-feira (7) o plano Argentina Sem Fome, inspirado no brasileiro Fome Zero, do ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.

"Vivemos num país que diz ter potencial para alimentar 400 milhões de pessoas, mas que não pode resolver a fome de 15 milhões de pessoas pobres", disse Fernández durante o lançamento do programa, na sede da Faculdade de Agronomia e Veterinária da Universidade de Buenos Aires.

Alberto Fernández, candidato à presidência da Argentina, discursa na Faculdade de Agronomia e Veterinária da Universidade de Buenos Aires
Alberto Fernández, candidato à presidência da Argentina, discursa na Faculdade de Agronomia e Veterinária da Universidade de Buenos Aires - Juan Mabromata/AFP

Ele se referiu aos novos números apresentados na semana passada pelo Observatório de Dívida Social da UCA (Universidade Católica). Os dados, considerados os mais confiáveis do tipo no país, mostraram que 35,4% dos argentinos vivem na pobreza, sendo que 7,7% são indigentes. 

Fernández é um admirador do ex-presidente brasileiro, vive repetindo o bordão "Lula Livre" e já o visitou na prisão, em Curitiba.

Durante a gestão de Cristina Kirchner (2007-2015), atual candidata a vice na chapa de Fernández, já tinha sido criada a Atribuição Universal por Filho, baseada no Bolsa Família brasileiro.

A atual gestão de Mauricio Macri, por sua vez, cortou parte importante do gasto social em planos assistencialistas para contemplar os compromissos com o FMI (Fundo Monetário Internacional). 

O programa Argentina Sem Fome deve entrar em vigor, caso Fernández seja eleito, já no dia 11 de dezembro (a posse é no dia 10), e será a prioridade de seu governo, segundo afirmou o candidato nesta manhã.

O projeto, promete Fernández, contará com a distribuição de um Cartão de Alimentação para a população de baixa renda, com o qual será possível comprar alimentos subsidiados pelo governo ou com descontos em redes de supermercados privadas. 

Também haveria uma regulamentação dos preços dos alimentos que compõem a cesta básica e a ampliação do Preços Cuidados, projeto que congela o preço de vários itens. 

Hoje, o programa existe, mas é difícil de encontrar os produtos —em geral ficam numa estante ao fundo dos grandes supermercados— e nem todos os estabelecimentos seguem as regras.

Para custear o programa, o candidato peronista disse que sua equipe já negocia com produtores e redes de supermercados. A ideia é criar um conselho que aporte recursos e com a participação de vários setores da sociedade, além do governo, como igrejas, universidades, câmaras empresariais e sindicatos.

​Fernández disse que proporá ao Legislativo a chamada Lei das Prateleiras, que estabelecerá cotas de espaço nos supermercados, para estimular a competição, evitar monopólios de grandes marcas e fazer com que quem cobre menos seja premiado.

Cristina Kirchner criou um programa semelhante durante seu governo, que se estendia para várias áreas (incluindo transporte e eletricidade) e que era mantido com subsídios estatais. A situação econômica do país, porém, era outra, com crescimento econômico e boa entrada de dólares por conta do "boom" das commodities.

O país que Fernández herdará, se vencer a eleição, enfrenta uma recessão e tem perspectiva de encolhimento do PIB em 2020 de 1,5%. Portanto, a alternativa escolhida é a de pedir recursos para a iniciativa privada.

Fernández também escolherá celebridades para apadrinhar e propagandear o plano, como o popular apresentador de TV Marcelo Tinelli e o neurocientista autor de best-sellers Facundo Manes.

No último fim de semana, duas pesquisas mostraram que Fernández pode ganhar a eleição já no primeiro turno. As consultoras Opinaia e Federico González & Asociados divulgaram dados que mostram vitória de 48% contra 30% de Macri e de 50% contra 27,9%, respectivamente.

Na Argentina, para se eleger em primeiro turno, o candidato precisa obter 45% dos votos ou 40% e uma distância de 10 pontos percentuais para o segundo colocado.

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