Comício pró-EUA acaba em confusão no centro de Hong Kong

Manifestantes que comemoravam sanção de ato por Trump enfrentaram tropa de choque

Hong Kong

​A maior manifestação da oposição em Hong Kong após a vitória de domingo passado nas eleições locais foi marcada por uma ode aos Estados Unidos e por um corre-corre nas ruas do centro da cidade.

Estrelado pelo ativista Joshua Wong e pelo líder estudantil Sonny Cheung, do grupo que fez lobby pela lei de apoio aos manifestantes assinada pelo presidente Donald Trump na quarta (27), o ato reuniu milhares em torno da praça Edinburgh, perto dos píeres da ilha de Hong Kong.

Segundo estimativa da Delegação de Assuntos Internacionais das Instituições de Ensino Superior de Hong Kong, a organizadora formal do ato, houve 100 mil presentes. A polícia fala em 9.600. Uma observação não científica tende a dar razão aproximada às autoridades municipais.

Havia entre alguns dos jovens realizadores um certo constrangimento pelo fato de Trump, a quem dirigem palavras não muito elogiosas, ter sido o grande homenageado da noite. “Para nós, a razão de fazer esse comício é agradecer ao Congresso e ao presidente”, disse Cheung, 23.

 

O ato começou por volta das 19h30, meia hora depois de Wong, também 23 anos, chegar. O tenor italiano Stefano Lodola, famoso pela versão online que fez da música-tema dos protestos, “Glória a Hong Kong”, cantou o hino americano.

Havia diversas bandeiras dos EUA, e muitos dos presentes vestiam adornos referentes ao país de Trump. A data era simbólica: Dia de Ação de Graças, um dos principais feriados norte-americanos.

Aqui e ali, surgiam máscaras de Guy Fawkes, o conspirador britânico que tentou explodir o Parlamento em Londres em 1605 e foi imortalizado no quadrinho “V de Vingança” —cujo filme inspirou grupos ativistas no mundo todo, como o Anonymous.

Mas havia também algo burlesco no ar, com pessoas vestidas de estátuas da Liberdade, misturado com figuras encapuzadas mais sombrias que ficavam pelos cantos da praça, se comunicando por celulares.

Durante o evento, foi divulgada uma lista de 40 pessoas que os manifestantes sugerem ser sancionadas pelos EUA, conforme a nova lei prevê em caso de abuso de autoridade contra protestos.

Ela é encabeçada pela executiva-chefe de Hong Kong, Carrie Lam, e inclui políticos e ex-chefes de polícia. Tecnicamente, o que os EUA podem fazer é congelar eventuais ativos que estejam em seu território e punir quem faça negócios com essas pessoas.

O clima durante o evento era ordeiro, com boa parte da plateia sentada no chão durante discursos. Muitos usavam máscaras, apesar da recomendação de que, apesar de um entendimento contrário da Corte Suprema de Hong Kong, a lei proibindo cobrir o rosto estava em vigor para Pequim.

Numa provocação, intencional ou não, uma das diversas execuções do hino americano reuniu mais de 50 bandeiras num canto da praça a 350 metros do austero edifício do Exército de Libertação Nacional chinês, símbolo máximo do poderio de Pequim na cidade.

Às 22h, hora limite para o fim do ato sancionado pelas autoridades locais, a multidão se dispersou e abriu o segundo capítulo da noite.

Ao lado do shopping IFC, um homem foi detido por apontar lasers para o rosto de policiais que acompanhavam a dispersão à distância. Foi o suficiente para que parte da multidão inundasse a rua lateral e ameaçasse quebrar os dois carros de policia ali presentes.

Policiais de choque chegaram, mas como eram poucos foram expulsos aos gritos pela turba. Houve empurra-empurra e foi possível avistar pelo menos dois grupos de ativistas black blocs com coquetéis molotov na mão.

Nenhum deles foi usado, contudo, até porque os ônibus de policiais mais à distância dispararam. Houve uma celebração entre alguns dos presentes, interrompida pela chegada de pelo menos uma dúzia de microônibus com policiais da tropa de choque.

Eles buscaram abrir o trânsito interrompido em volta do IFC, no coração financeiro de Hong Kong, e o fizeram sem bater em ninguém. Houve muitos xingamentos de lado a lado, mas sem violência física.

A situação parecia que ia sair do controle por volta das 22h30, quando os policiais perseguiram um grupo numa passarela que leva ao metrô. Houve também bate-boca entre as autoridades e jornalistas, que eram impedidos de acompanhar toda a ação em alguns pontos.

Apesar das ameaças, ficou por isso. Não houve nuvens de gás lacrimogêneo ou balas de borracha que viraram tradição nos protestos, embora ambos os instrumentos estivessem bem visíveis. Às 23h, já havia mais fotógrafos do que manifestantes, e a noite acabou.

Houve outro ato, menor, do outro lado da baía, na parte continental de Hong Kong chamada Kowloon. Lá não houve confusão, e o protesto visava também a prestar solidariedade a quem ficou preso no cerco à Universidade Politécnica.

Policial recolhe produto químico encontrado na Universidade Politécnica, após a saída dos manifestantes
Policial recolhe produto químico encontrado na Universidade Politécnica, após a saída dos manifestantes - Zhu Xiang/Xinhua

Iniciado com um violento confronto entre estudantes e polícia no dia 17 passado, o cerco acabou na prática na terça (26) e oficialmente nesta sexta (29, quinta-feira no Brasil).

Cerca de 1.100 jovens foram detidos, e havia o temor de que houvesse até 200 dentro dos prédios do campus. Um pente-fino realizado pela instituição na terça só encontrou uma manifestante escondida.

Nesta quinta (28), a polícia enfim entrou no local. Encontrou cenas de destruição que já haviam sido divulgadas pontualmente, e recolheu 3.800 coquetéis molotov, além de produtos ácidos e corrosivos tirados de laboratórios.

Não foi achado nenhum aluno ou manifestante no prédio, e as barreiras que impedem o acesso ao local devem ser levantadas nesta sexta.

Novos atos estão programados de sexta a domingo, todos com autorização do governo, que está numa encruzilhada sobre deixar a bola rolar, com a hipótese de ela virar uma avalanche de novo, ou apertar a repressão e correr o mesmo risco.

 
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