Comunidade boliviana em São Paulo vai às ruas para defender Evo Morales

Maioria votou no ex-presidente; polarização política afeta imigrantes e gera tensão em entidades

São Paulo

Com seus comércios com placa em espanhol e imigrantes vendendo comidas típicas nas calçadas, a rua Coimbra, no Brás, parece uma extensão da Bolívia em São Paulo.

A crise política no país vizinho é assunto de rodas de conversa de vendedores e frequentadores, mas muitos não querem dar entrevista. Justificam que a situação está tensa e encerram o papo, embora um deles tenha deixado escapar que aqui estão todos com Evo.

De fato, quase todos os que foram abordados pela Folha declararam seu apoio ao ex-presidente. Muitos deles vêm de La Paz e da região de El Alto, onde Evo tem forte respaldo.

Lineth Bustamante, que ajudou a formar o ‘comitê contra o golpe’ e organiza protestos na avenida Paulista 
Lineth Bustamante, que ajudou a formar o ‘comitê contra o golpe’ e organiza protestos na avenida Paulista  - Adriano Vizoni/Folhapress

Apesar disso, a polarização política que tomou conta da Bolívia também se reflete na comunidade em São Paulo e tem gerado tensão e brigas nas entidades que representam os imigrantes. Há ainda a expectativa de que o governo atual troque em breve os diplomatas que atuam no Brasil.

Segundo a apuração da eleição —questionada por denúncias de irregularidades—, 70% dos bolivianos que vivem no Brasil votaram no ex-mandatário. Foram cerca de 44 mil eleitores no país, dos quais 97% vivem em São Paulo e em cidades dos arredores.

“Ele fez estradas, hospitais, habitação. Queria que continuasse, pois tinha projetos de grandes obras para completar”, diz o cabeleireiro Roberto, 35, que vive no Brasil há um ano e pediu que seu sobrenome não fosse divulgado.

“Houve fraude, mas não de Evo. Ela é a fraude”, acrescentou, referindo-se à autoproclamada presidente Jeanine Añez, que assumiu o governo interino em um processo também controverso.

Roberto está entre as centenas de pessoas que participaram de uma marcha no último domingo (17) na avenida Paulista em apoio a Evo Morales.

Lídia Mamani, 31, também foi. “Não somos de nenhum partido. Levantamo-nos porque somos unidos”, diz a boliviana, que vive no Brasil há dois anos. “Compraram os policiais no nosso país. Eles estão matando seus próprios irmãos.” Para ela, há mais mortos do que os divulgados pelo governo e pela imprensa local, e a oposição foi financiada pelos Estados Unidos.

Outro ato foi convocado para este domingo (24), também na avenida Paulista. Quem organiza os protestos é o Comitê Brasileiro de Solidariedade ao Povo Boliviano contra o Golpe, criado dois dias depois da renúncia de Evo Morales, pressionado por militares e por protestos populares.

“O golpe aconteceu no domingo, e a gente se reuniu na terça-feira para ver como reagir. Temos família lá, estamos muito preocupados. Estão queimando casas, perseguindo dirigentes sindicais e reprimindo as pessoas”, diz a psicóloga Lineth Bustamante, 38, uma das organizadoras.

Segundo ela, que vive há oito anos no Brasil, o grupo é formado por cerca de 90 pessoas, a maioria brasileiros. Na manifestação, entretanto, a prevalência era de bolivianos, conta. “Ficamos surpresos porque vieram pessoas que moram em Guarulhos, em Itaquaquecetuba, várias cidades.”

Para Lineth, Evo foi “o primeiro presidente que governou com o coração, e não por interesses partidários”. “Ele esteve na vanguarda das lutas populares, fez políticas sociais para crianças, mulheres.”

A psicóloga afirma acreditar que as denúncias de fraude foram fruto do “desespero” da oposição. “Isso já estava planejado. Eles tinham que inventar alguma coisa.”

A psicóloga diz, porém, que o ex-mandatário errou ao se candidatar para um quarto mandato e que ele deveria ter preparado um sucessor.

Presidente da Associação de Residentes Bolivianos, a designer Rosana Camacho, 56, diz que essa e outras entidades de imigrantes estão sendo pressionadas por partidários dos dois lados a tomar uma posição.

“Não partimos para a agressão física, mas houve agressões verbais. As pessoas se deixam levar pelas paixões. Mas somos apolíticos e apartidários, não podemos nos manifestar. Seria conduzir a comunidade de maneira equivocada”, defende.

Segundo Rosana, já havia uma forte divisão entre os bolivianos desde 2016, ano em que Evo fez um referendo para saber se poderia se candidatar pela quarta vez consecutiva. Na ocasião, perdeu a votação, mas recorreu à Justiça para disputar o pleito. Antes das eleições de outubro, conta, um grupo de imigrantes fez um ato em São Paulo contra o ex-presidente socialista.

Ela diz ainda que há muita campanha de ódio e desinformação neste momento. “É a soma de vários erros, e quem está pagando é o povo.”

Francisco Roca, que escreve em um jornal para imigrantes e não acha que tenha havido golpe em seu país 
Francisco Roca, que escreve em um jornal para imigrantes e não acha que tenha havido golpe em seu país  - Adriano Vizoni/Folhapress

Jornalista de uma publicação da comunidade e vice-presidente do Círculo de Comunicadores Imigrantes, Francisco Roca Matias, 37, não considera que tenha havido um golpe de Estado na Bolívia.

“Foi tudo dentro da Constituição. A presidente atual só está lá para convocar novas eleições. É isso que as pessoas não estão entendendo, porque há desinformação, colocaram na cabeça delas que vão perder todos os benefícios sociais. Os dirigentes [socialistas] estão tentando tornar o país ingovernável e motivando as pessoas humildes a entregar sua vida por alguém que só quer voltar ao poder.”

Ele menciona irregularidades no processo eleitoral e diz que não acredita que Evo tenha renunciado buscando evitar derramamento de sangue. “Foi uma estratégia política. Tanto que agora ele quer voltar [do México, onde está asilado] e tomar o poder de qualquer maneira.” 

Também afirma que, segundo uma pesquisa de boca de urna feita com 500 pessoas por um grupo de amigos na eleição boliviana em São Paulo, os socialistas teriam 65% de intenção de voto. “Tenho quase certeza de que houve fraude aqui também. A margem de erro não pode ser tão grande.”

Francisco diz que lamenta as mortes de manifestantes e que policiais também foram  atingidos, mas se salvaram por usarem proteção. Natural do estado de Beni, no leste da Bolívia, mesmo departamento da presidente interina Añez, ele diz que sofreu preconceito quando morou em Cochabamba, reduto dos socialistas. 

“Percebi lá que o racismo pode vir de qualquer lugar. Não sou contra os indígenas, de forma alguma. Sou contra o estilo de política que Evo está fazendo. Alguns bolivianos em São Paulo estão tendo o mesmo ódio contra quem não o apoia. É triste, espero que isso passe com as novas eleições.”

Há 20 anos no Brasil, o comerciante Chalo Mendonza, 57, é apontado por uma vizinha como “o único na rua Coimbra que está contra Evo”. Ele ri quando sabe disso e emenda: “Estou no meio. Nem para este lado nem para o outro.”

Para Chalo, o primeiro mandato de Evo foi positivo. “Todo mundo gostava dele, até no exterior. O segundo governo foi mais ou menos. No terceiro, só alguns se beneficiaram.”

Ele nega que haja animosidade entre os compatriotas. “Nós não discutimos, dialogamos. Eles têm a opinião deles e eu a minha. Alguns me dizem: ‘Você é do império’. Respondo: ‘O império nem me conhece!’. Eu só quero que volte a paz.”

 
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