Governo da Bolívia aciona Ministério Público contra Evo por sedição e terrorismo

Queixa tem como base uma gravação de áudio atribuída ao ex-presidente

La Paz | Reuters e AFP

O governo interino da Bolívia apresentou uma queixa criminal nesta sexta-feira (22) contra o ex-presidente Evo Morales por sedição —incitar pessoas a se rebelarem contra a autoridade do Estado— e terrorismo.

O ministro do Interior, Arturo Murillo, pediu ao Ministério Público que inicie uma investigação sobre o ex-presidente exilado no México com base em um áudio supostamente gravado por ele.

Na gravação, um homem instrui um líder cocaleiro a fechar os acessos às cidades e interromper o abastecimento de alimentos —o objetivo seria desestabilizar o atual governo, de sua opositora Jeanine Añez. "Que não entre comida nas cidades, vamos bloquear, cerco de verdade", diz um trecho da gravação. 

Para o ministro, o áudio configura um "crime de lesa-humanidade".

O ex-presidente boliviano, Evo Morales, em entrevista para a imprensa na Cidade do México - Pedro Pardo/AFP

O procurador-geral, Juan Lanchipa, disse que pedirá ao Ministério das Relações Exteriores que "informe as autoridades mexicanas do início da investigação" contra Evo, que em princípio seria investigado sem jurisdição especial, na condição de ex-presidente. Se ele for considerado culpado, pode receber sentença de 30 anos de prisão.

Gabriela Montano, ex-ministra da Saúde durante o governo Evo, afirmou que a gravação é falsa. A autenticidade do áudio não foi confirmada até o momento.

Em uma rede social, o ex-mandatário afirmou que as autoridades deveriam investigar a morte de manifestantes em vez de ir atrás dele com base no que descreveu como evidência falsa.

Desde sua renúncia, no dia 10 de novembro, ao menos 32 pessoas foram mortas em violentos protestos detonados pela conturbada eleição presidencial do final de outubro.

O pleito deu vitória a Evo, mas foi considerado fraudulento pela oposição. A OEA (Organização dos Estados Americanos) recomendou que novas eleições sejam realizadas.

Em seguida, Evo, seu vice e os presidentes da Câmara e do Senado renunciaram. A senadora opositora Jeanine Añez se declarou presidente e assumiu o cargo, mas não houve votação no Congresso que a referendasse.

O bloqueio de estradas é uma forma comum de protesto na Bolívia e em grande parte da América do Sul. Na última semana, apoiadores de Evo —que foi o primeiro presidente indígena do país e ficou no poder por 14 anos— impediram que caminhões com combustível e alimento chegassem à capital boliviana e a outras cidades.

As autoridades transportaram cerca de 1.400 toneladas de alimentos por avião em menos de uma semana para La Paz, El Alto, Oruro e Sucre devido a bloqueios, disse o ministro do Desenvolvimento Produtivo Wilfredo Rojo nesta sexta-feira (22).

Añez pediu aos manifestantes que finalizem um bloqueio em andamento em uma usina de gás natural que abastece La Paz. Oito pessoas morreram em confrontos depois que os militares liberaram o acesso à refinaria à força, na terça (19).

A presidente interina reiterou que só permanecerá no poder até as novas eleições, cuja data ainda não foi anunciada. Mas seus críticos dizem que seu gabinete ultrapassou os limites de um governo interino, fazendo mudanças na política externa e ameaçando punir os aliados de Evo.

Autoridades alegam que o ex-ministro da Cultura, o irmão do ex-vice-presidente e o vice-presidente do partido Evo, o Movimento ao Socialismo (MAS), participaram de atividades criminosas.

​​Murillo disse que também estava pedindo aos promotores para investigar o ex-ministro da Presidência de Morales, Juan Ramon Quintana, por sedição e terrorismo por supostamente dizer a um veículo de imprensa que a Bolívia se tornaria um Vietnã moderno.

Um advogado afiliado aos opositores de Evo, Jorge Valda, afirmou que planeja pedir na terça-feira (26) que as autoridades emitam um mandado de prisão para Evaliz Morales, 25, filha de Evo, por suposta sedição e corrupção.


Em um mês de protestos na Bolívia, 32 foram mortos 

Destes, 17 foram baleados em confrontos com a polícia

Além dos óbitos, pelo menos 122 ficaram feridos

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